A Caça

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Quando você ouve falar sobre estupro ou pedofilia, no que você pensa? Eu penso em monstruosidade, aberração. A maioria das pessoas devem imaginar coisas semelhantes. Principalmente se adorarem crianças ou tiverem filhos. Normalmente eu considero isso uma coisa quase positiva. Porque nos faz proteger nossas crianças. Nos faz lutar contra um tipo inerente de maldade que existe entre nós. Por outro lado, nos faz ser insensatos e ignorantes.

Quantos pais vão falar que seus filhos são únicos, diferentes, especiais? Quais vão dizer que seus filhos têm defeitos? Isso é muito perigoso. Crianças são especiais e requerem cuidado e atenção. Mas também são seres humanos. Seres humanos mentem, são egoístas. Crianças, como seres humanos com desenvolvimento pessoal incompleto são ainda mais complicadas. Querer proteger tanto esses seres nos faz confiar neles. E crianças não são confiáveis.

Um dia, a linda menininha Klara fala para uma professora da sua escolinha que um de seus cuidadores, Lucas, lhe mostrou o “pipi”. A professora, claramente incapaz, acredita porque acha que crianças não mentem. Ela chama um outro orientador para ajudá-la. O homem, tentando fazer com que a menina repita o que disse, acaba forçando-a a falar o que ela não quer. O mal entendido vira uma bola de neve gigante e o cuidador passa a ser o grande vilão da cidade.

A revolta da sociedade.

A revolta da sociedade.

As considerações das pessoas são compreensíveis. Estupro e pedofilia são repugnantes. A repulsa é tal que eles se esquecem que crianças mentem. Quando a menina finalmente percebe o mal que criou e decide falar a verdade, é reprimida. Seus responsáveis a convencem da mentira.

Thomas Vinterberg foi muito reconhecido pelo Festa de Família, quando fez parte do movimento Dogma 95. Agora ele é proclamado por esse A Caça novamente. O que é injusto, seu trabalho durante esses anos são filmes muito bons. Mas A Caça é maravilhoso.

Lucas é um solitário pai divorciado que conseguiu aquele emprego quase no desespero. Seu filho quer voltar a vê-lo e uma mulher demonstra algum interesse por ele. Justamente quando sua vida está voltando aos eixos que se torna vítima da ignorância.

Lucas depois da violência.

Lucas depois da violência.

Impressionante como é assustador assistir aos desdobramentos do filme. Apenas por estar em cena, Lucas está em perigo. Não existem amigos. Sua condição é desesperadora. Vinterberg conduz com muita habilidade essa tensão. Fazer compras é quase um terror. O espectador fica paranóico.

É uma crítica social complicada. Nós, como criadores, como cuidadores, como pais, responsáveis e orientadores, somos monstros em potencial. As características que nos fazem querer fazer o bem são as mesmas que nos fazem ser maus.

Lucas é a antítese disso. Perseguido, sofrendo abusos e violência, ele nunca culpa os outros. Compreende e até os perdoa. Sua passividade é enervante. Assistir a ele sofrendo tudo o que sofre sem reagir incomoda, porque sabemos que é injusto e queremos reagir por ele. Ele é a justiça e a compreensão que faltam em seus punidores.

O final deixa claro. Nunca existirá salvação. A sociedade e a ignorância sempre serão opressoras sobre as pessoas. Não importa quais os seus pecados, nem se são verdadeiros. Lucas e Klara não são mais que vítimas. Apesar de serem tão vilanizados.

Maravilhoso. De sair da sessão com o coração acelerado pelo terror constante.

 

ALONS-YYYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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