Trovão Tropical

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Trovão Tropical é um dos melhores filmes que quase ninguém quis assistir. A princípio parece uma comédia descerebrada que zomba de preconceitos na área de atuação. Realmente tem um pouco disso, mas o filme vai um pouco além ao ser uma grande reflexão sobre toda a indústria cinematográfica estadunidense.

A trama segue cinco atores de um filme sobre a guerra do Vietnã que se perdem em matas controladas por cartéis. Sem saber que estão em um conflito real, eles improvisam e se esforçam achando que é tudo uma estratégia de filmagem do diretor novato.

Cada um dos personagens representa um tipo existente em Hollywood. O diretor é uma sátira à megalomania de Francis Ford Copolla com seu Apocalypse Now. Os executivos de estúdio são crítica à falta de lógica das grandes empresas ao financiar grandes produções. Nada é levado a sério e tudo é muito polêmico.

Polêmico porque o diretor Ben Stiller não tem pudor para levar os exageros de seus personagens a extremos. Antes do lançamento do filme, Robert Downey Jr. era recebido como racista por jornalistas porque toda foto de divulgação do filme com ele o tinha com a pele pintada de negra. Depois do lançamento, o filme ganhou um meme próprio ao mesmo tempo em que gerou ódio graças à piada “You’ve gone full retard”.

O filme já abre de forma genial. Stiller coloca antes dos vídeos de abertura de produtoras e distribuidoras trailers e propagandas que apresentam as celebridades que serão o foco da zombaria. Nos cinemas dos Estados Unidos funciona muito bem porque os trailers e propagandas passam daquela forma. Ou seja, ele confunde a realidade do filme com o mundo do cinema real.

Os cinco atores principais remetem a cinco contextos comuns da indústria hollywoodiana. Um rapper cujas músicas tratam apenas de sexo, um comediante perdido em estereótipos como piadas de peido, um astro de ação tentando convencer como ator de verdade, um ator que some dentro dos personagens e um desconhecido tentando a sorte no mercado.

Pouco a pouco o filme vai quebrando os arquétipos de cada um e os revela como seres humanos. São pessoas reais, repletas de traumas, vícios e distúrbios de personalidade. Também são artistas que vivem em um mundo que distorce suas imagens. Enquanto tentam ter suas expressões artísticas levadas a sério, são tratados como produtos.

É uma comédia e como uma boa produção do gênero, o filme cria essas reflexões através de humor. O personagem australiano vencedor de inúmeros Oscars entra no papel no começo da produção e só consegue sair depois da gravação dos comentários em áudio. Ele faz uma cirurgia para mudar a cor da pele e interpretar um homem negro. Sua encarnação cria inúmeras situações impróprias. O que gera reações hilárias do rapper, que é realmente negro.

O personagem diretor assume a função de fazer o maior filme de guerra jamais feito. Mas é maior que suas habilidades. Não consegue controlar o clima no set de filmagem e, no primeiro dia, estoura o orçamento. Então resolve tomar uma atitude corajosa para ser um diretor ousado. É quando os atores se perdem na floresta.

Diretor ineficiente. Perdendo a grande explosão do próprio filme.

Diretor ineficiente. Perdendo a grande explosão do próprio filme.

Stiller assume o papel principal como o ator de ação Tugg Speedman ao mesmo tempo em que se revela um diretor inteligente, controlando uma produção bastante grande. Ele coloca o Downey Jr. loiro e de olhos azuis como o australiano que não sabe mais quem é depois de se perder em tantos personagens. O Jack Black faz um comediante viciado em drogas porque não consegue mais lidar com o estereótipo de piadista peidorrento. É legal ver o Jay Baruchel antes da fama como o ator desconhecido entre todas essas estrelas.

Na parte dos executivos, temos o Tom Cruise quase irreconhecível como um boca suja casca grossa, dono de duas cenas inesquecíveis em que dança rap. Ele está acompanhado por um ótimo Matthew McConaughey como o agente e único amigo do astro de ação.

Cruise como o executivo gordo e careca junto do abobalhado agente de McConaughey.

Cruise como o executivo gordo e careca junto do abobalhado agente de McConaughey.

Trovão Tropical é uma comédia escrachada e sem medo de brincar com ideias polêmicas. Melhor ainda, para criticar e zombar do próprio meio de onde foi criado.

 

ALLONS-YYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para Trovão Tropical

  1. Aida disse:

    Não tinha um actor negro para fazer o papel que o Robert faz? Eu acho que existem muitos actores negros nos EUA.

    • Vina disse:

      Existem, mas acho que a proposta era retratar a ignorância de um branco acerca do próprio racismo. Um negro infelizmente não seria adequado para o papel, na minha opinião.

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