A Vida Secreta de Walter Mitty

DF-11070-Edit - Ben Stiller in THE SECRET LIFE OF WALTER MITTY.

De uns meses pra cá a Fox veio fazendo uma campanha pesada de marketing para este A Vida Secreta de Walter Mitty. Adaptação de conto publicado na década de 1930, o filme é a realização de um roteiro que corria a alguns anos por Hollywood e que passou pelas mãos de vários diretores e produtores. Quem diria que quem o faria seria justamente o Ben Stiller.

Walter Mitty é o gerente de negativos da revista Life. Sua vida se resume a trabalhar para sustentar a mãe e a irmã, suspirar por uma colega e sonhar acordado. A revista foi comprada e vai ser transformada em material online. Para a última edição, um negativo especial pelo fotógrafo principal da revista foi enviado. Mas o negativo está desaparecido e Walter cria coragem de viajar pelo mundo atrás de suas pistas.

Walter e a colega por quem nutre uma paixão secreta.

Walter e a colega por quem nutre uma paixão secreta.

O filme é um convite para o despertar para a vida. Mitty perdeu o pai ainda criança. Desde então começou a prover para a família, deixando de lado a pessoa que queria se tornar. Conformado com sua condição, ele busca sempre fazer o melhor trabalho possível para a revista porque realmente gosta do que ela propõe. Por conta disso, o fotógrafo Sean O’Connell sempre entra em contato direto com ele.

Mitty nunca esqueceu a vida que queria levar ou a pessoa que queria ser. Por isso mesmo, constantemente se perde em pensamentos fantasiosos em que assume o que sonhava e vira um grande herói e realizador. Ir atrás do negativo de O’Connell lhe permite despertar esse lado de si que se encontrava adormecido.

É aí que Stiller se prova um grande diretor. Já havia dado sinais com as elaboradas sequências de Trovão Tropical, mas aqui ele vai além. Dá um significado especial para as cores azul, cinza e vermelho através da fotografia e da direção de arte.

Quanto mais preso ao ambiente de trabalho Walter está, mais suas roupas e estilos se assemelham às formas geométricas e monocromáticas que somam ao seu redor. Sempre que seus devaneios tomam conta da realidade, tons de vermelho se tornam prevalentes.

Assim que Walter dá seu primeiro passo da jornada, uma escolha é proposta para ele, o carro azul ou o carro vermelho. É uma escolha representativa do que Walter está aceitando para sua vida. Seguir nos tons frios e calmos ou nos tons quentes e animados.

Quando Walter se encontra preso na monotonia, Stiller coloca enquadramentos que evocam linhas retas e formas geométricas. À medida em que o personagem passa a curtir a própria vida, as retas vão se deformando e o mundo ganha mais profundidade.

É sinal de que Stiller é realmente um grande diretor. Conta a história de Walter de forma muito afetiva e sutil. O próprio personagem só percebe a mudança pela qual passou quando alguém pergunta sobre seus devaneios. Sua vida mesmo não mudou tanto. Ele é quem o fez sem notar.

Ajuda ter o nome do José González participando da composição da trilha. Além de seus acordes, o filme também ganha músicas do Arcade Fire e do David Bowie. A trilha é enaltecedora e engrandece o clima da transformação do personagem principal.

É interessante como Stiller não tenta transformar a viagem como um todo em uma grande fantasia. Chegando em cada novo país, Walter precisa alugar um carro, entrar em um barzinho, sentar em salas sujas e com poucas coisas acontecendo. Mas entre esses momentos surgem o contato humano e as grandes aventuras.

O único problema do filme é o próprio estilo cômico de Stiller. Em meio a uma história tão calorosa, ele permite entrar pequenos momentos de comédia simples. Trata-se do estilo típico dele, que não se encaixa muito bem com o estilo da história que pretende contar. São partes pequenas e rápidas que afastam um pouco a sensação da jornada de Walter e atrapalham o desenvolvimento.

O elenco é maravilhoso. Stiller some dentro de um personagem bastante contido, diferente do que faz geralmente. Kristen Wiig é adorável como a colega por quem o protagonista está interessado. Mas ela não é apenas uma mocinha a ser conquistada. Wiig dá personalidade ao papel e o roteiro lhe dá profundidade. Adam Scott é um grande ator que merecia mais que papéis como o chefe cretino de Mitty. E Sean Penn rouba todos os dez minutos em que aparece com uma performance contida, mas cheia de vida e sentimento.

Sean Penn nos convida para viver.

Um filme excelente. Acerto tanto da Fox quanto do próprio Stiller. Talvez até ganhe alguns prêmios nos próximos meses. Grande parte deles merecidos.

 

ALLONS-YYYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para A Vida Secreta de Walter Mitty

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