Álbum de Família

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Álbum de Família chama a atenção por diversos motivos. Grande parte deles relacionados aos nomes envolvidos. Um dos elencos mais impressionantes reunidos em um filme e autoria de um escritor que gera textos excelentes. Tanta expectativa chamou a atenção de todo o mundo. Além de várias apostas de prêmios.

O filme pega um conceito padrão. Família se reúne após morte do patriarca e muita roupa suja é lavada. Mas neste caso em específico é realizado através de subversão de diversos clichês. Primeiro porque ninguém se gosta aqui. E a morte do pai não se deu da forma mais comum.

O filme se trata de fuga e conservadorismo. Adaptação de uma peça do autor Tracy Letts, a ideia é rir de conceitos ultrapassados e conservadores que atrasam o desenvolvimento das pessoas. A obra de Letts tende a tratar de temas relacionados a isso. Os outros dois filmes baseados em suas peças, Killer Joe e Possuídos, são duas pérolas.

Além de tudo, Álbum de Família é um filme sobre pessoas terríveis. A matriarca viúva é uma mulher terrível, cujo temperamento e modo de se relacionar com as pessoas destrói tudo. Ela transformou suas filhas em pessoas quebradas e também terríveis. Os homens sofrem em meio a tanta loucura e todos tentam fugir.

A própria matriarca busca fuga através de vício em comprimidos. Cada filha fugiu de uma forma diferente. A mais velha fugiu com uma família, a segunda mais velha foge na ideia de amor romântico, a terceira apenas quer ir embora e abandonar toda aquela loucura. A fuga mais importante, porém, é a do patriarca que fugiu através da morte. Suicídio, para ser mais direto.

Benedict Cumberbatch e Julianne Nicholson. Tentando fugir com um pouco de felicidade.

Benedict Cumberbatch e Julianne Nicholson. Tentando fugir com um pouco de felicidade.

Eles não fogem apenas um do outro. Mas do lugar em que vivem. Como o título original sugere, tudo se dá no condado Osage. Situado no sul extremamente conservador dos Estados Unidos. O mesmo sul que iniciou uma guerra por conta de racismo e que ainda revive os padrões conservadores de outrora.

A matriarca que ganha vida na pele da Meryl Streep trata as pessoas tal qual seus maiores defeitos. Ou pelo menos os defeitos que acredita que eles tem. Cada pessoa desenvolve sua personalidade em torno desse tratamento. Como esperava demais da primogênita, esta é justamente a que é mais dura e eventualmente a que mais se parece com a mãe. Como destrata a do meio, essa busca valor pessoal em relacionamentos com homens que não a valorizam. Como considera a caçula uma fraca, esta se cala e apenas espera a hora de se afastar sem discutir com ninguém.

A própria matriarca é repercussão de algo parecido. Em certa cena, ela fala sobre como sua mãe era um monstro. Momento em que percebe que ficou igual. E a tradição parece que vai continuar. Porque a irmã mais velha é tão dura quanto com sua própria cria.

Daí entram três interpretações importantes. Julia Roberts é a própria face da inflexibilidade. Principalmente ao se relacionar com os parentes mais próximos. O marido, com as caras de um Ewan McGregor excelente, foge disso ao trocá-la por uma mulher mais nova. A filha, Abigail Breslin cada vez melhor, com maconha e cigarro. O trio é a demonstração do que acontece quando esse conservadorismo encontra ideias mais modernas que existem fora da região.

O diretor do filme, John Wells, faz com que a fotografia seja um pouco pesada para o tom de verde. Cada quadro tem essa coloração um pouco forçada que deixa uma sensação incômoda. Tão incômoda quanto as interações dos personagens.

O humor surge desse incômodo. Sentimos pena daquelas pessoas e o riso surge do constrangimento. A impressão é que devemos rir daquele universo ultrapassado e deixá-lo para trás.

O problema é que o desconforto é tanto que dá vontade de sair do cinema. Abandonar aquelas pessoas horríveis e esquecer todo aquele horror. O que provavelmente é proposital. Ponto para Wells, que cria composições bem equilibradas e repletas de significado. Como a extraordinária cena da janta, que atinge o ápice do nervosismo quando a matriarca resolve contar a verdade do que acha de cada um de seus parentes.

A cena da janta. Clímax dos conflitos.

A cena da janta. Clímax dos conflitos.

O que incomoda mais é que os personagens mais malvados e deturpados sejam as femininas. Os homens tendem a ser os personagens com mais bom senso e predispostos a corrigir toda aquela maluquice.

O elenco brilha. Além de Streep, Roberts, McGregor e Breslin, temos também as ótimas Julianne Nicholson e Juliette Lewis fechando o trio de irmãs. Dermot Mulroney está melhor que jamais esteve como o namorado pedófilo e traidor da irmã do meio. Chris Cooper é sempre excepcional e mantém o nível como o bondoso tio que finge não ver a maldade que corre na família. Benedict Cumberbatch mostra mais uma vez porque é tão bom ator se transmutando novamente em um personagem diferente de tudo o que faz normalmente.

Mas quem realmente rouba o filme é o Sam Shepard. Ele aparece apenas no começo, mas a impressão que passa é que toda a confusão que acontece é planejada por ele. Parece que ele está lá presente o tempo inteiro, rindo com o triunfo dos conflitos que arranjou ao reunir a família com sua morte.

É um filme muito bom, mas tão incomodo que simplesmente não é prazeroso assistí-lo. É improvável que vença algum prêmio além das atuações impecáveis. Infelizmente, também passa a impressão de que todos aqueles atores só aceitaram participar para ter a chance de trabalhar com a Meryl Streep.

 

ALLONS-YYYYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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