A Menina que Roubava Livros

Film Review The Book Thief

Claramente feito para a corrida do Oscar, a adaptação de A Menina que Roubava Livros chegou quase de surpresa. De repente havia um filme do best-seller prestes a estrear. A direção vem da TV britânica, o elenco conta com veteranos de peso, até a trilha sonora é de um dos compositores mais premiados. A boa notícia é que filmes feitos com essas intenções tendem a ser bons.

A história é contada pela própria morte, que ficou fascinada com a vida de uma garotinha com quem cruzou caminhos por acaso. A menina é obrigada a viver com novos pais na Alemanha nazista e tem um ponto de vista bem específico em relação aos horrores da guerra.

A graça do livro, e também do filme, é justamente a inocência adotada para ditar o tom. Dentro do país que ainda sofre hoje com a imagem de ter sido o grande vilão do mundo não haviam apenas monstros. Sem contar que muita gente ali era apenas criança na época.

A menina do título se chama Liesel e começa o filme perdendo a mãe e o irmão. Ela é obrigada a deixar a vida para trás por conta das afiliações socialistas da progenitora. Em uma família comum, ela vê toda a guerra através de sua compreensão infantil.

Falando assim, o filme parece ser feito para crianças. Mas é diretamente para os adultos porque essa visão inocente gera muitas ironias. Liesel odeia Hitler porque sabe que ele é culpado pela separação de sua família. Ao mesmo tempo, ela fica feliz por saber que seu país está ganhando a guerra, sem nunca ligar a ideia de que a vitória é também do líder político.

Daí vem os créditos pela qualidade maior do filme. Os escritores. Markus Zusak, escritor do livro, e Michael Petroni, roteirista, escrevem as crianças de uma forma muito pura. As falas e os raciocínios do pequenos são claramente infantis, o que requer uma criação muito cuidadosa e inteligente.

Liesel vai aos poucos aprendendo o valor da arte enquanto os nazistas tentam aos poucos censurar. O foco vai diretamente para os livros, que eles queimavam em praça pública. Para ter acesso à cultura necessária ao seu desenvolvimento, ela começa a roubar o material escrito. Começa com o de um coveiro no funeral de seu irmão, depois um exemplar de uma fogueira pública e daí desenvolve para diversas fontes diferentes.

Liesel rouba um sobrevivente do fogo.

Liesel roubando um sobrevivente do fogo.

A direção de arte do filme é ótima. As casas e as representações do nazismo estão muito bem realizadas e construídas. O equilíbrio das cores nos cenários e figurinos revelam também o orçamento para a construção de toda a cidade onde a história se passa.

A direção não acrescenta nada. Ela captura a história de forma correta, sem fazer com que o texto ganhe com a filmagem em si. O diretor Brian Percival não atrapalha a história, mas também não a faz ser o grande filme que poderia ser. Nas mãos de um diretor mais expressivo, A Menina que Roubava Livros certamente estaria com destaque na corrida pelos prêmios, mas vai apenas passar desapercebido.

Também não ajuda ter uma protagonista tão bem escrita e interpretada por uma atriz tão fraca. É chato cobrar tanto nesse sentido de uma criança, mas a menina Sophie Nélisse parece estar anestesiada. Ela chora e parece não estar sentindo nada, ri e nada, fica com medo e nada. Atrapalha a criar a empatia que a personagem requer.

Os veteranos, por outro lado, comandam o show. Geoffrey Rush e Emily Watson fazem os pais adotivos com muita sensibilidade. Cada um com caracerísticas específicas. Ele mais bondoso e cuidadoso. Ela mais rígida, mas ainda bastante vulnerável.

A história passa por todo o decorrer da Segunda Guerra Mundial, desde o começo dos avanços nazistas, passando pela caça aos judeus, os recrutamentos dos cidadãos alemães e a eventual derrota. Nesse período de aproximadamente oito anos a atriz não mostra nenhuma diferença. Alguém esqueceu que ela deveria envelhecer durante o filme.

Liesel não envelhece através dos anos.

Liesel vampira, sem envelhecimento.

O filme é cheio desses defeitos pequenos que incomodam um pouco. Mas assim como o diretor, não arruínam o texto maravilhoso criado com inspiração para o livro e com a ótima adaptação do roteiro.

Acerta em ser fiel para detalhes interessantes, como o uso da língua alemã para algumas palavras específicas e a narração da morte. São coisas que aumentam o tom das brincadeiras conceituais em relação ao nazismo. Uma pena não ter sido a potência que o material merecia, mas ainda é muito bom apenas pela história e pela forma como foi escrita.

 

ALLONS-YYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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4 respostas para A Menina que Roubava Livros

  1. Thaís disse:

    Eu li o livro a alguns anos atrás e me apaixonei, estou curiosa pelo filme 🙂

    • Vina disse:

      Acho que você não vai se desapontar, Thaís. O filme está extremamente fiel, só algumas cenas menos importantes ficaram de fora. De resto, está praticamente tudo lá tal qual no livro.

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