Caçadores de Obras-Primas

MonumentsMen

Haviam dois trailers iniciais de Caçadores de Obras-Primas. O primeiro retratava a busca daqueles homens como uma comédia. O segundo como um drama de guerra. Por incrível que pareça, era o trailer cômico que realmente parecia interessante. Mas o medo já estava instaurado. Será que o filme conseguiria equilibrar entre os dois gêneros?

A história é real. Tenente do exército americano junta um grupo de artistas para adentrar o território nazista e recuperar as obras de arte que Hitler roubou da Europa antes que os aliados tenham alguma chance de destruí-las em sua invasão.

O próprio tenente é um artista. Todos os homens que ele convoca são arquitetos, designers e pintores que, por dedicarem suas vidas às artes, não estão em forma. Um deles já é avô. O que gera um humor obrigatório porque não estão nem de longe em condições para enfrentar uma guerra. Para conseguirem entrar no exército, precisam fazer o treinamento básico. Então tem uma sequência rápida dos personagens fazendo aquelas provas junto com os outros soldados muito mais jovens.

O grupo unido. Desapropriados para a guerra.

O grupo unido.

Como também são intelectuais e muito bem sucedidos, seu estilo entra em conflito constante com o estilo das batalhas. O que faz surgir outros contextos cômicos que se focam nos artistas zombando das situações com bastante cinismo. É tudo muito engraçado e funciona muito bem nesse sentido.

Por outro lado, ainda é um filme de guerra. Quando eles chegam aos campos de batalhas são expostos constantemente às consequências do conflito. Chegando, inclusive, a pagarem os preços pessoalmente.

Assim que começam sua missão, se dividem em quatro grupos. Três vão para regiões diferentes para investigar pistas de onde certas obras foram parar. O quarto grupo é basicamente o personagem do Matt Damon indo a Paris estabelecer contato com um potencial informante.

É quando o filme se divide em dois. Uma parte acompanha os três grupos investigando e descobrindo obras roubadas em igrejas, museus e coleções privadas. A outra acompanha James Granger (Damon) tentando conquistar a confiança de uma testemunha (Cate Blanchett) que tem pistas importantes sobre a localização de todas as peças de arte roubadas.

Esses dois focos da história demonstram o quanto o roteiro é desequilibrado. A comédia e o drama até estão bem dosados. O problema é a direção insegura do George Clooney. Ele parece estar tão apressado em contar a história que se esquece de criar ambientação de cena. Então vemos uma cena com dois dos homens fugindo de um tiroteio para logo em seguida o Matt Damon conquistar um pouco mais a confiança de Blanchett. Tudo extremamente picotado. Parece um recorte de filmagens e não uma montagem de cinema.

Damon com Blanchett. Montagem picotada.

Damon com Blanchett. Montagem picotada.

No meio do segundo ato, o grupo se reúne novamente e começa uns trinta minutos ou mais de cenas deles entrando em esconderijos, recuperando obras, passando por uma cena cômica rápida, entrando em esconderijos novamente, recuperando mais obras seguido de mais piadas. É uma barriga enorme na produção. Tão grande que causa desinteresse no filme como um todo.

Logo na abertura é explicitado a importância de uma certa obra específica. Quando finalmente estão se aproximando dela, não há muito interesse em vê-los conseguindo. A repetição quebra ritmo e ambientação. Principalmente porque Clooney repete outra coisa à exaustão. O questionamento sobre o valor daquela missão.

Logo no começo o personagem principal faz um discurso explicando o quanto a cultura é importante. É o primeiro de muitos. Será que aquele sacrifício é necessário? Será que a vida é mais valiosa que a arte? Será que o resgate das mais de cinco milhões de peças valeu as vidas perdidas naquela missão? Será que o sacrifício será lembrado nos anos que viriam em seguida? O problema é que depois de duas horas repetindo essas perguntas, a resposta fica muito óbvia, e Clooney não pareceu se importar em colocar cinco ou seis finais repetindo a resposta. Sendo que não era realmente necessário, uma vez que a existência do filme já é, por si só, uma resposta a grande parte dos questionamentos.

Como essa repetição de discursos de valores e enquadramentos engrandecedores vão se acumulando, o final do filme ganha um tom de pieguice irritante. O que não arruína a produção como um todo.

Clooney segue o estilo de Hitchcock. Momentos de suspense para prender o espectador. Seja para a comédia, seja para o drama. Então o filme inteiro é construído de pequenas cenas que são ótimas. Principalmente com um elenco de atores tão bons. Eles fazem rir muito com o cinismo dos personagens, ao mesmo tempo em que emocionam nas cenas de drama. Atenção para a cena em que o personagem de Bill Murray escuta a voz de sua filha e sua neta após tanto tempo no campo de batalha. De partir o coração.

Clooney parece estar mais focado na direção que em atuar, por isso sua participação não é nada mais que básica. Damon é engolido pela companhia da Cate Blanchett. John Goodman prova cada vez mais ser um ótimo ator. O Jean Dujardin está excelente, apesar de sua participação pequena. Murray faz uma parceria brilhante com Bob Balaban. Quando os dois dividem a cena é quando o filme brilha mais.

Caçadores de Obras-Primas é um filme com muito coração e muitos momentos realmente bons, mas sofre demais com a direção desequilibrada de Clooney. Poderia ser uma experiência muito mais poderosa, mas ficou apenas no drama de guerra padrão.

 

ALLONS-YYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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