Tudo por um Furo

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Aproximadamente dez anos atrás, o Will Ferrell lançou um de seus melhores filmes cômicos. Na época, todas as suas produções tratavam de personagens nonsense, racistas, machistas e homofóbicos passando por jornadas tão bizarras quanto eles mesmos. Alguns desses filmes são ruins – como Papai Bate um Bolão – e outros muito bons. O melhor foi O Âncora, que se passa antes desta continuação com nome diferente, Tudo por um Furo.

Ron Burgundy, agora casado com a colega Veronica, muda-se para Nova Iorque para crescer na carreira. Mas um choque o faz perder o emprego e a família. Então recebe a proposta de trabalhar em uma nova empreitada jornalística. Um canal de notícias por 24 horas.

Não é preciso pensar muito para notar a relação da história ao surgimento da CNN. Tanto o é que o nome do canal no filme é GNN. É o objetivo das comédias com o personagem Ron Burgundy. Como o próprio Will Ferrell disse em uma entrevista, depois da política, o assunto mais fácil de fazer piada é o jornalismo.

Parte do humor dos filmes em que o Will Ferrell faz seus personagens ignorantes é muito semelhante ao humor de O Lobo de Wall Street. Temos ali pessoas idiotas e malucas demonstrando preconceito com frequência. A piada funciona porque os personagens são pessoas cretinas. Principalmente quando esse nível de cretinice leva a momentos constrangedores onde eles se dão mal.

Momentos constrangedores e canalhice.

Momentos constrangedores e cretinice.

A brincadeira aqui se foca em brincar com as origens de um estilo de jornalismo tendencioso nos Estados Unidos. Burgundy tem a ideia genial durante um brainstorm de parar de passar as notícias no jornal para passar o que quer que seja que o público queira ver. Então já abre o noticiário falando sobre como os Estados Unidos são maravilhosos e parte para matérias sobre animais fofinhos e transmissões dramáticas e exageradas de perseguições de carros.

Ver essas ideias saindo da boca de um personagem imbecil, que acha que a melhor forma de se integrar à família da namorada negra é assumir gírias e trejeitos típicos do estereótipo do negro novaiorquino, apenas realça o quanto o jornalismo de TV possui problemas sérios. Muitos deles reconhecíveis no Brasil. A crítica é muito semelhante a que José Padilha faz em Tropa de Elite 2 e RoboCop.

Tudo isso costurado pelo humor nonsense criado pelos atores em cena através da improvisação. É o método de direção do Adam McKay. O diretor coloca várias câmeras pegando closes dos comediantes e os deixa improvisar à vontade. Tanto que o elenco faz cada take de forma diferente, improvisando piadas novas. O resultado é material bruto suficiente para fazer dois filmes com a mesma trama, mas com cenas completamente diferentes.

O estilo funciona muito bem no primeiro O Âncora. Na continuação possui muitos bons momentos, mas outros fracos. A maior parte deles vem do fato de que o diretor dá pistas do que virá a acontecer nas próximas cenas. Então, quando os momentos chegam, as piadas já estavam sendo esperadas. Como na cena já citada da visita à família da namorada negra. A cena por si só é engraçada, mas antes dela algumas cenas desnecessárias dão dicas de que aquilo vai acontecer, então a surpresa da piada é perdida.

Os outros momentos fracos ocorrem porque o filme repete muitas das piadas e situações do anterior. Não bastasse o fato de que tais piadas já foram contadas, o filme aumenta a escala e acaba se repetindo à exaustão. Principalmente quando surge o momento da briga entre as diferentes equipes de jornalismo. Começa estranho, então vai ganhando tons brilhantes com direito a participações de vários astros do cinema. O problema é que não para por aí e continua escalando e se estendendo até a piada enjoar de vez.

A obra possui um humor nonsense bem específico que não agrada todo mundo. Fosse apenas a baboseira, não teria graça, mas o comentário sobre jornalismo e as críticas sociais o tornam bastante superior. Infelizmente, as comédias do Will Ferrell não são muito bem vistas por aqui, onde a maior parte do público prefere assistir a coisas como Até que a Sorte nos Separe.

O quarteto reunido.

O quarteto reunido.

Além de Ferrell, retornam aos seus papéis o Paul Rudd, o Steve Carrell, a Christina Applegate e o David Koechner. Somam ao elenco o Greg Kinnear, o Dylan Baker e a Kristen Wiig. Todos meio apagados dentre a montagem sem ritmo. Parece que diversas piadas são contadas pela metade por causa de cortes abruptos e sem sentido. O Steve Carrell está um pouco exagerado e perde a graça se colocado em comparação com o primeiro filme, onde fazia um humor mais pontual.

Reunir tal elenco deve ter sido um desafio, considerando que três dos quatro protagonistas hoje recebem mais de 10 milhões de salário por filme em que trabalham. Um é o grande Steve Carrell, outro vai ser um herói da Marvel (literalmente, Paul Rudd já assinou para ser o Homem Formiga).

A melhor recomendação é assistir ao primeiro filme antes. Caso não goste, não vá ao cinema conferir a continuação. Mas, caso aprecie o humor de Ferrell e sua patota, procure todas as produções do grupo além das aventuras de Ron Burgundy.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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