Saga especial – O Cinema de Harmony Korine

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À margem de um cinema meticulosamente arquitetado para agradar as massas e o mais puritanos, Harmony Korine surge como transgressor americano da sétima arte (ou um dos). Segundo o diretor alemão Werner Herzog, Harmony aparece como a salvação do cinema americano. De fato, Harmony tem em seu cinema algo que não se vê até nos independentes americanos: a capacidade de implodir o próprio filme, permitindo ao espectador encontrar os cacos dentro da desordem. O cinema de Harmony é uma bomba-relógio em looping. E é com este homem de filmes peculiares que começaremos a saga especial sobre diretores.

Filho de um documentarista, Korine logo foi introduzido ao cinema e às câmeras. Suas influências são inúmeras, mas podemos dizer que o diretor vive entre a linha tênue do documentário e a ficção, manipulando as imagens e transformando-as em algo novo, distorcendo-as, desconstruindo-as.

Sua primeira oportunidade no cinema veio ao conhecer o fotógrafo Larry Clark. Aos 19 anos, Korine escreveria em três semanas o roteiro de Kids (1995), filme controverso, envolvendo AIDS e drogas, dirigido por Larry Clark. Na produção do filme, Harmony conheceu Cary Woods, produtor, que dois anos a frente viria a financiar o primeiro filme dirigido e escrito por Harmony Korine: Gummo (1997).

Em Gummo, Korine mostrou ao mundo do cinema a que veio. Tirou das telas a ingenuidade fílmica, colocou a dureza humana, a desordem, a realidade distópica e perturbadora em pauta. E piorando um pouquinho mais para os cinéfilos e críticos retrógrados, Korine transformou seu filme em um amontoado de fatos remotos que apenas fazem sentido dentro de um contexto fílmico. Ou seja, a não linearidade ou a ausência de narrativa seriam também uma das marcas do diretor.

Não linearidade e imagens de sensações.

Não linearidade e imagens de sensações.

O que deixa claro neste primeiro filme é a condição de Korine para o cinema. A sua capacidade de criar sensações distintas em uma imagem, em frames, é impressionante. Korine, como dito antes, está caminhando por fora. Nos Estados Unidos, pode-se dizer que sua visão no cinema existe para problematizar, arriscando um outro nível de entendimento, infringindo os ditames do cinema tradicional. Sua proximidade ao cinema-verdade, a utilização de simbologias referentes à degradação humana, a incompatibilidade entre mundo-homem (ou filme-imagem?), tornam Korine um diretor extremamente talentoso dentro de sua proposta cinematográfica.

Kids e Gummo abriram a porta para Korine produzir mais. Cineastas como Bernardo Bertolucci e Gus Van Sant enxergavam em seu trabalho algo diferente, o que viria a se confirmar em Julien-Donkey Boy (1999), Mister Lonely (2007), e o recente Spring Breakers (2013), com James Franco – este último, considerado o segundo melhor filme do ano de 2013 pela revista francesa Cahiers du Cinéma. Korine também dirigiu clipes e curtas-metragens que demonstram o mesmo entusiasmo do diretor nesses materiais, vide Umshimi Wam e o clipe da musica Living Proof, da banda Cat Power.

O diretor dirige Franco em Spring Breakers.

O diretor dirige James Franco em Spring Breakers.

Desmistificando a imagem e desnudando o conceito de belo nos seus filmes, Korine é um exímio manipulador de imagens. E com elas, o diretor americano brinca com o desconexo, com a lógica e com o mainstream. Para entendermos um pouco mais do seu trabalho, é importante adentrarmos um pouco nos seus trabalhos. Por isso, nos artigos seguintes iremos analisar o estilo de Harmony Korine em contar histórias (ou não).

Sobre Daniel Lolo

Não teme a morte, mas teme a vida. Por isso o cinema é como um copo de cerveja vazio. Alguém sempre tem de enchê-lo.
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