Chamada de Emergência

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Adoro assistir filmes de suspense rápido. As propostas são sempre bem simples: protagonista descobre um tipo de perigo bem simples e passa o segundo ato lidando com diversas possibilidades dentro desse perigo até o clímax quando tem o momento Wes Craven (personagens em um ambiente fechado fugindo do assassino). São filmes rápidos, divertidos e, se bem feitos, são muito bons. Não é o caso de Chamada de Emergência.

Atendente do canal de emergência da polícia recebe ligação de uma garota que acabou de ser sequestrada e se encontra dentro do porta-malas do sequestrador. Daí o roteiro vai explorar ao máximo as possibilidades da situação. O que tem no porta-malas? Como rastrear a ligação? A bateria do celular começa a acabar.

zzcall9A adolescente sequestrada.

A situação é simples e a ação é rápida. E antes que alguém diga que é um tipo de filme superficial, saiba que é o tipo de filme que grandes diretores do passado gostavam de realizar. O problema é que o roteiro é muito ruim, assim como a direção.

O roteirista Richard D’Ovidio fez um bom trabalho de pesquisa sobre a vida dessas atendentes. Por isso mesmo é surpreendente notar como ele não pesquisou todo o resto que era tão importante para a história. São coisas bem específicas sobre a forma como a polícia estadunidense funciona. Para quem conhece só um pouco fica bem óbvio que o sequestrador seria capturado facilmente e em pouco tempo na vida real.

Mas, como já disse, são coisas específicas que requerem um conhecimento prévio, não é o tipo de coisa que realmente arruína a produção. O problema de roteiro maior fica na construção. A protagonista, Jordan (Halle Berry), atendeu uma chamada no passado bastante traumática e a ligação da adolescente Casey (Abigail Breslin) no porta-malas vai reavivar esses traumas. Nas mãos do Hitchcock, o filme seria sobre esse trauma e o que ele causa na personagem. Aqui é apenas uma desculpa para que ela leve o negócio pro lado pessoal.

Com essas informações, quem aí consegue adivinhar como vai ser o final? Se você chutou que Jordan vai encontrar com o sequestrador e Casey sozinha, acertou em cheio. Eu nem me importo de soltar esse spoiler porque isso está no trailer (mais um excelente, só que não, trabalho de marketing). Para esse confronto final, a lógica vai pro diabo. Reflita sobre o seguinte. Você se encontra sozinho na casa de infância de um assassino perigoso e percebe que ele está no local. Qual a sua reação lógica? Qualquer que seja a sua resposta, não é o que Jordan vai fazer.

Quanto à construção da personagem Casey, o filme a mostra andando no shopping com uma amiga que está morrendo de ansiedade pra transar. A reação de Casey é nojo. A ideia é criar empatia pela adolescente comportada e “conservadora”. O que já gera alguns problemas. Primeiro, se ela tem nojo de praticamente tudo o que a amiga diz, por que diabos as duas são amigas? Segundo, onde uma menina de 15 anos não está interessada em garotos e possivelmente em sexo?

O diretor Brad Anderson desaponta. Seus trabalhos anteriores eram obras bastante sinceras. Até seu filme de terror prévio, Session 9, fazia um excelente trabalho de câmera e de ambientação. Aqui, a única coisa que faz é meter a câmera com uma grande angular na cara das protagonistas e em planos detalhes. O efeito é de claustrofobia e distorção, mas ele o usa com tanta frequência e sem o cuidado de construir mais nada além disso que fica apenas repetitivo e perde o propósito.

A resolução final também incomoda muito. Depois de tanto conservadorismo, o filme fecha de forma bisonha e não condizente. A impressão que passou foi a de que a reação das plateias das exibições teste pedia um final mais cruel para o vilão, então chamaram os três atores principais para regravarem a cena. É ainda mais visível quando nota-se que o cabelo da Halle Berry está diferente e a maquiagem na Abigail Breslin foi substituída por um efeito digital bizarro.

As duas atrizes principais fazem muito bem o papel de assustadas e carregam a produção sem problemas. O cara que faz o sequestrador maníaco é terrível ao fazer caras e bocas de maluco aleatoriamente. Ali no canto tem o Morris Chestnut, que é um ator que gosto muito, mas que sempre pega uns papéis bobos e pequenos como este.

abigail_breslin_the_call_izR8WngY.sized“Não quero mais ser a Miss Sunshine. Tem como mostrar que criei corpo, roteirista?”

No final das contas, o filme é mais memorável pela imagem da Pequena Miss Sunshine crescida (por algum motivo o diretor e o roteirista resolvem fazê-la passar o terceiro ato inteiro sem camisa) do que por suas poucas qualidades.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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