Saga especial – Gummo

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Uma atmosfera distópica.

Um tornado atingiu a cidade de Xenia, em Ohio, nos Estados Unidos. O acontecimento é descrito pelo personagem principal do longa metragem “Gummo”, dirigido e escrito por Harmony Korine em 1997. Num linguajar pejorativo, Solomon revela as consequências de um lugar totalmente danificado estruturalmente. Ele dá o tom por onde o filme irá percorrer durante seus 90 minutos. Um caminho tortuoso é traçado pela narrativa oscilante. A montagem desconexa, à primeira vista, causa estranhamento. Mas revela-se dessa forma a estrutura pulsante que caminha paralelamente à atmosfera do lugar e daqueles que habitam seu ambiente. Não fosse assim, não seria revelador, não seria sensitivo. Seria apenas mais um filme sobre as consequências de uma catástrofe natural.

O primeiro filme dirigido e escrito por Harmony Korine oferece logo de início seu peso, seu teor. As imagens juntamente com o som já demonstram uma certa inquietação do diretor quanto a composição fílmica. Korine transgride a montagem convencional disposto a despertar sensações. Assim como os personagens, seu estilo de direção permeia o documentário e assume tal papel quando não existe a necessidade de revelar um fim promissor. Pelo contrário, Korine nos mostra que as vidas ali estão negligenciadas. Foram engolidas pelo próprio meio que os rodeiam. E o diretor faz questão de nos impulsionar a essa realidade, revelando um mundo traumatizado.

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“O problema é que tudo que vejo é miséria e trevas”

A impureza imagética, em cada locação, revela o caos psicológico que se mostra necessário diante de um ambiente ferido, sujo. Os diálogos e os discursos transmitidos no filme transmutam sobre a atmosfera e caracterizam a fragilidade do ser humano quando desamparado, pois, ali, ninguém é algo, todos funcionam como um vazio diante de uma indefinição perante suas vidas e seus valores que distorcem a realidade que lhes foi oferecida.

A realidade na verdade não funciona, ela é utopia no filme de Korine. Existe, no máximo, um enfrentamento à realidade, o que fica claro num trecho específico do filme onde um homem diz ter tentado se matar questionando a vida e os rumos através dos quais ela nos leva.

As imagens de algo similar ao diabo montadas seguidamente da imagem de uma figura Divina deixam claro neste filme o discurso de Korine com relação a uma realidade doída. Não se sabe aqui quais são os reais propósitos de viver quando as vidas não parecem fazer sentido. A destruição do humano funciona de modo sincronizado à própria eliminação das imagens. Korine descaracteriza o valor imagético no filme, nos apresentando uma distorção da imagem captada, destruindo-as.

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“Parecia ter uma ótima vida, mas eu não sei o que deu errado”

Korine não se incomoda em transportar o espectador por diversas sensações no filme. As imagens, aqui, não funcionam como se deseja. O diretor não nos obriga a sentir algo específico, ele nos expõe algo e nos permite sentir.

É assim que funciona, de modo similar, à inquietação dos seus personagens. Korine não nos revela de modo aparente o que os levou a tal degradação. O furacão seria o impulso, seria a analogia dentro da proposta e, de certa forma, causador do caos sugerido. Mas Korine sabe, e se faz claro, que não há uma explicação convincente para tal mundo. Ele simplesmente é assim porque o é. Fora dos valores de uma sociedade civilizada, Gummo constrói-se na beira, longe. Por isso soa fiel ao meio que se adentrou, sendo o próprio o caos, sendo quiçá o tornado.

A desconstrução da imagem e do meio em Gummo é o formato de um estilo que irá cada vez mais se solidificar. O sentido crível para a transformação imagética em Korine está na readaptação do que é captado, pois, em si, a imagem é uma só, mas sua realocação diante dos ruídos e sons que pautam seus filmes causam o estranhamento. E é neste ritmo, aparentemente desafinado para alguns, que Korine se desvencilha do linear. O diretor americano prefere o impacto causado pelas divergências, pelo inusitado. E diante desta atmosfera, ele faz valer a estética proposta, assim como transformará ela em algo ainda maior.  gummo 4

Para quem tem interesse, fica a recomendação do primeiro filme de Harmony Korine. Vale muito a pena! Logo abaixo segue o trailer para ter um pouco da ideia do que Korine é capaz.

 

No próximo artigo analisaremos o filme Mr. Lonely (2007).

 

Sobre Daniel Lolo

Não teme a morte, mas teme a vida. Por isso o cinema é como um copo de cerveja vazio. Alguém sempre tem de enchê-lo.
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Uma resposta para Saga especial – Gummo

  1. É… Não é tão o primeiro filme de Harmony Korine. O primeiro filme como escritor é Kids (1995), porém este foi dirigido por Larry Clark. Agora se você se refere à direção, aí sim podemos falar que Gummo (1997) é o primeiro filme de Harmony Korine.

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