Saga especial – Mister Lonely

Mister Lonely - Imagem da capa

O homem no espelho

Dez anos após dirigir e escrever Gummo, Korine reaparece com mais um filme em sua carreira – em 1998 ele ainda dirigiu Julien Donkey-Boy. Por um tempo afastado dedicando-se a outros projetos, Harmony nos dá em Mister Lonely diversos questionamentos sobre discussões existenciais que se fazem presentes e pautam de forma sensitiva o filme. Porém, aqui, de certa forma existe uma estratosfera de ideias que, muitas vezes, dissolvem-se diante de uma tentativa suspeita de nos contar algo relevante e palpável. O desprendimento de Korine à forma em Gummo aqui se perde em determinados pontos, mas o talento de produzir imagens e deteriorá-las ainda vive e será deste ponto que visualizaremos Mister Lonely.

Assim como se vê um vácuo de quase 10 anos sem produzir um longa-metragem, vê-se um vácuo de probabilidades que atravessa a narrativa. Neste entendimento, Korine vem a sublinhar questões pontuais de Gummo e inclui a identidade como ponto chave da narrativa. Desta vez mais “plotada” e com certo percurso fiel a uma estrutura hollywoodiana – mesmo que, de certo modo, ele venha aqui com uma outra intenção ao apontá-la ao público – o que tenha sido, talvez, a diferença mais gritante deste a Gummo.

Mr. Lonely 1

Na narrativa central – o filme possui uma história em paralelo – Diego Luna interpreta um imitador do artista Michael Jackson que pouco consegue despontar seu talento, a não ser quando anima idosos num asilo. Ao conhecer uma mulher que imita Marylin Monroe, Michael recebe uma proposta e dirige-se à Escócia para adentrar numa comunidade de vários imitadores de artistas. Porém, esta experiência não surte o efeito esperado.

We can live forever!

Ao personificar o homem em forma de matéria mística e orientá-lo a uma variação do próprio ser como forma, a não originalidade ao produzir a máscara, surte efeito pois transforma-se em outra coisa. É daí que o filme, desde seu início, pretende-se montar como meio de interpelar a inadaptação humana ao próprio ser. A inquietude humana quanto a sua existência física, que lhes parece sem sentido, perante a realidade trivial faz com que personalidades sejam reinterpretadas, desconstruídas e debochadas. Destas três características, a desconstrução é aquela que melhor funciona e é a que mais capta o espírito aniquilador de Korine na estrutura de seus filmes.

Fica evidente sua força ao criar imagens quando põe os Três Patetas apontando uma arma para algumas cabras e, logo em seguida, atirando ao som de “The Maid Free From The Gallows”; ao nos contemplar com a imagem de um papa fétido numa banheira enquanto é ensaboado por um garoto negro de black power. A posse dos artifícios imagéticos a Korine conseguem nos propor, muitas vezes, o inverso da figura personificada.

Mr. Lonely 2

Em Mister Lonely a identidade do ser transforma-se na linha que costura a história e a inexequibilidade da imortalidade diante das personificações, das imagens, de Deus – vide a história paralela das freiras que concretizam um milagre. O sentido da vida, aquilo que nos mantém vivos e as formas de crença, neste filme, ainda ganham espaço através de ramificações mais densas e esparsas. O sonho de ser (e permanecer) algo diante da realidade que nos rodeia torna seus personagens superficiais, mas eles entram à beira de um colapso com um mundo desencontrando-se com a imagem do objeto material de consumo – seja ele Sammy Davis Jr., Marylin Monroe ou Abraham Lincoln – e chocando-se com a máscara ao virar pele.

As fissuras do roteiro surgem como o alento à formatação do roteiro, como demonstração do talento de Korine, que estiliza ainda mais sua direção confrontando imagem e som, deslocando o senso comum à desestruturação. Por conta disto, a narrativa que nos é familiarizada pelos romances de outrora não fornece a nós o que é mais forte de Korine. Entretanto, quando este decide e se permite pôr a mão e coloca em experimento seu estilo pungente, ele o faz e promove no filme aquilo que estivemos a ver dez anos atrás, em Gummo.

Ao colocar em prova a fé, prova-se a imagem.

Aparentemente, a história paralela em Mister Lonely não parece ter algum vínculo conceitual junto à trama central. Porém, a ideia do “milagre” da vida, ou da vida que cria o “milagre” – analogias feitas ao início e ao fim do filme na trama que envolve as freiras – está intrínseca na história do imitador de Michael Jackson. Personificar uma imagem e fazer dela status político e eterno, conclamando a ideia de transformação diante de uma realidade que pouco nos transforma, apenas aparenta nos mover para algo adiante.

Ao testar a fé de seus personagens em diversos âmbitos, Korine nos expõe, em fragmentos, freiras que sobrevivem após cair de um avião. Aqui, neste trecho do filme, vemos mais uma das incríveis imagens do diretor. O vento corta o céu e vemos a freira orar por um milagre. Korine brinca com a realidade ao estampar a fé como provação da morte e, indo no sentido inverso, proclamando a vida, a fé a algo que nos é maior e que não nos comporta dentro da pele.

Mr. Lonely 3

Não à toa a atuação contundente de Werner Herzog – admirador e amigo de Korine – como pastor e guia das freiras surge como constatação do milagre, da testemunha de Deus na terra. O pastor é o bem feitor que determina as freiras como milagreiras e é aquele que absolve os pecados de um homem que cometeu adultério. É nesta história que Korine promove o maior impacto imagético do seu filme. Após provar da fé do divino, Korine arranca-nos tais afirmações nos colocando diante da morte do mesmo, destruindo o próprio conceito. Por isso a história paralela consegue possuir mais força do que a trama central. Aqui, Korine achou uma resposta, ou pelo menos a sua resposta. No trajeto de Diego Luna como Michael Jackson a proposta se esvai aos poucos por diversos rostos reféns de suas caricaturas.

 ***

Os percalços narrativos que impossibilitam Korine a moldar seu filme como propôs em Gummo não ocultam o estilismo de Korine ao elaborar imagens a ponto de devastá-las. Korine manteve a mão firme quando se permitiu fazer das imagens algo maior do que a história, quando não se delimitou, quando viabilizou a desconexão dentro de um roteiro pragmático. E é por isso que Mister Lonely tem seu potencial imagético que nos rememora, de certo modo, Gummo e seus choques brutais.

Já em Spring Breakers o diretor americano consegue balancear a estrutura fílmica em que o seu talento e a estrutura narrativa caminham juntos. Constrói assim seu filme mais maduro até então e é com ele, no próximo artigo, que finalizaremos a saga especial sobre Harmony Korine.

Abaixo, o trailer do filme Mister Lonely.

Sobre Daniel Lolo

Não teme a morte, mas teme a vida. Por isso o cinema é como um copo de cerveja vazio. Alguém sempre tem de enchê-lo.
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