Godzilla (2014)

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Depois de vários – pode pesquisar, são uns trinta – filmes japoneses e uma bela porcaria realizada nos Estados Unidos, Godzilla está de volta. Mais uma vez nas mãos dos americanos, mas desta vez com o apoio da Toho (estúdio japonês dono do personagem) sem crise financeira. Ou seja, desta vez eles passaram o personagem porque gostaram do material, não para conseguir pagar as contas.

Na reinvenção, abalos sísmicos em uma usina no Japão se assemelham a eventos similares de 1999. Pouco a pouco é revelado que o evento está relacionado com monstros gigantes das profundezas. Em paralelo, um tenente americano precisa ir buscar o pai no país porque ele não consegue esquecer a esposa perdida quando os fenômenos de 1999 aconteceram.

Se o filme de 1998, dirigido por um megalômano Roland Emmerich, não passava de uma aventura sobre uma iguana mutante, este é sobre pessoas tentando sobreviver e se manter unidas em um mundo muito grande. O Godzilla não é apenas um lagartão gigante que precisa ser destruído. Muito pelo contrário, ele é uma força da natureza. Uma natureza tão poderosa e maior que a melhor opção para os humanos é sair de seu caminho e deixá-la em paz.

Para fazer o filme, o diretor Garreth Edwards foi na fonte. Pesquisou o material original para compreender quais as intenções na criação do monstro. No filme de 1954, o primeirão, Gojira (uma junção das palavras gorila e baleia em japonês) era um comentário sobre o trauma nuclear de Hiroshima e Nagasaki. Ele era basicamente a resposta da natureza contra esse terror que os humanos criaram de forma tão espetacular.

O diretor não faz feio nesse sentido. Tanto o Godzilla quanto os seres de seu habitat (não vou falar muito sobre isso, é melhor descobrir assistindo) são filhos de radiação. Mas nada como bombas, usinas e coisas do tipo. Esses artifícios humanos são apenas a chave para que eles apareçam. Pouco a pouco o exército americano (sempre ele) começa suas medidas para lidar com os bichos e a resposta contrária vem de um cientista japonês. “Deixe que eles briguem.” “Um dos erros do homem é achar que controla a natureza, e não o contrário”.

309401.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxKen Watanabe como o cientista japonês. Respeito e admiração pela natureza.

No meio dessas mesmas discussões, vem a mensagem colocada sutilmente. Armamentos nucleares não são úteis para ninguém nem de forma alguma. Daí em diante o filme se desenvolve e revela que os militares não tem poder, apenas pioram as coisas. Levando ao excelente terceiro ato no qual o protagonista precisa corrigir os erros dos americanos.

Até chegar a isso, Edwards coloca cenas muito inteligentes de suspense nas quais as pessoas percebem o perigo dos monstros se aproximando e precisam esperar para saber com o que vão lidar. É excelente como os personagens ficam esperando em pé olhando para cima apenas esperando o que quer que esteja que está vindo para tentar agir de alguma forma e sobreviver. Apenas correr de medo pode significar a morte e o suspense ao redor dessa premissa é bastante tenso e prende a atenção.

O problema é como o roteiro consegue colocar o protagonista em todas as passagens dos monstros. Desde quando ele é criança até sua viagem do Japão de volta para os Estados Unidos, ele não tem descanso. Não pode pegar um metrô sem ter que tentar sobreviver a algum ataque. Não pode pegar um trem militar que ele vai cruzar o caminho dos bichos. Quando finalmente está longe do caminho deles, é a pessoa mais adequada para tratar da medida do exército e assim embarcar novamente no sentido das criaturas. É coincidência demais, por mais que cada situação isoladamente seja bem construída.

044286.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxCoincidências bem situadas não incomodam tanto.

É justamente porque o filme se foca demais no protagonista e em sua jornada que a narrativa esquece que se trata de um filme do Godzilla. Leva quase uma hora explicando toda a trama. É uma hora importante, cheia de momentos de suspense muito bons, com muitas explicações científicas bastante complexas. Todas essas explicações vão garantir que, quando o Godzilla finalmente aparecer e começar a sair na porrada, o espectador vai saber tudo o que está acontecendo. Pra onde o Godzilla está indo, o que ele pretende fazer, o que está em jogo, onde todos os humanos importantes estão indo. Fica tudo claro, mas sem nunca ser super expositivo. O filme não trata o espectador como idiota.

Mas também, quando os monstros finalmente aparecem em cena, o filme corta para mostrar como os humanos vão lidar com sua presença. É um problema sério porque praticamente todo mundo está indo aos cinemas para ver um filme de monstros, e não um drama humano. E não ajuda os protagonistas não causarem simpatia.

Por outro lado, Edwards faz um excelente trabalho para filmar as cenas dos monstros. A maior parte delas parece filmada por câmeras na realidade da trama. Seja pessoas no topo de um prédio percebendo que no meio de fumaças ao seu lado tem um Godzilla enorme, seja em helicópteros voando perto ou até em um plano admirável no qual um personagem se vê diante do Godzilla quando este solta seu rugido contra ele. A sensação de escala fica impressionante justamente porque faz com que o espectador se sinta pequeno, assim como os personagens do filme.

O design do Godzilla é muito bom. Remete ao bonecão famoso do Japão sem deixar de passar vida, realismo e uma dose de perigo. Os outros monstros é que são esquisitões. Parecem uma mistura de um personagem clássico da franquia, o Mothra, com o ser de Cloverfield. Os efeitos especiais nas composições parecem um pouco falsos, principalmente quando todos estão encaixados completamente nos enquadramentos e plenamente iluminados, aí fica evidente a computação gráfica.

Porém, a melhor parte do filme se dá em cenários escuros com muita fumaça. E a ambientação disso é impressionante. Quem viu o trailer dos soldados pulando de avião pode ter uma noção. Edwards cria composições lindas com seus gigantes no escuro em meio aos prédios.

Acompanhando esse visual belíssimo, o trabalho de som é um primor em todos os sentidos. A edição e a mixagem são de deixar qualquer um boquiaberto. Em uma cena específica, um plano longo segue sem som até que a câmera se vira e revela a presença do Godzilla, então ele dá seu rugido e os alto-falantes do cinema vibram com sua potência. Acompanhando a qualidade do áudio, Alexandre Desplat faz uma trilha com muitos tons pesados, com direito a um coral evocando um horror digno da palavra holocausto ou uma batida de instrumentos que aumentam a tensão de uma cena. De longe, o som é uma das melhores coisas do filme.

Para quem acompanhou o material de divulgação, é preciso desiludir logo. O Bryan Cranston não é o protagonista do filme, apesar da campanha de marketing sempre apontando para sua presença. É claro que isso foi feito tendo em vista a ideia de usar um ator em voga, mas decepciona quando se nota que ele fica pouco tempo em tela. O mesmo se dá com a Juliette Binoche. Colocá-la em um filme por menos de cinco minutos é um pecado mortal. Quem toma a liderança da produção é o Aaron Taylor-Johnson, que não está ruim, mas também não consegue criar a empatia necessária para que nos importemos com ele.

bryan-cranston-godzillaBryan Cranston aparece menos do que se espera.

O mesmo se dá com a Elizabeth Olsen, que interpreta a esposa dele (ironicamente, ela fará a gêmea do personagem de Taylor-Johnson no segundo Os Vingadores). A impressão que passa é que, como Olsen não está vendo os monstros ali por conta da composição digital, ela não sabe direito a que reagir nem a gravidade do que acontece. O Ken Watanabe está maravilhoso, como sempre, em um papel que remete diretamente ao do icônico Takashi Shimura no filme de 1954. Também é preciso dar destaque para o pequeno momento em que o personagem de David Strathairn percebe que pode estar cometendo um erro com suas ações como líder das operações militares da produção. Uma participação tão pequena e com tanta presença.

Se você for esperando uma produção divertidaça como Círculo de Fogo, pode esquecer. O novo Godzilla se predispõe a ser um filme muito mais sério. A comédia praticamente não tem lugar aqui, assim como os efeitos especiais se prestam ao drama humano ou à tensão. É uma proposta diferente e mais séria, mas nem por isso pior.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para Godzilla (2014)

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