Quero ser “avisado”

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Nosso grande astro nacional Wagner Moura finalmente fez um filme com o Karim Aïnouz. Os dois estavam há muito tempo querendo trabalhar juntos. A recepção da produção foi extremamente positiva. Pelos críticos, pelo menos. Pelo nosso queridíssimo e conservador público brasileiro, a única recepção é indignação por conta da cena de sexo gay.

As notícias agora já estão velhas. Em Aracaju um grupo de espectadores quase espancou um gerente do cinema por não saberem das cenas que assistiriam. Em Niterói, 40 pessoas saíram no meio de uma sessão do filme. Em João Pessoa, um cinema está alertando o público das cenas de sexo homossexual e carimbando no ingresso que avisou as pessoas.

Até onde eu pesquisei, ainda não há evidência de nenhuma das histórias – sendo que a de Niterói provavelmente é real. Mas, mesmo que nada seja verdade, a repercussão à divulgação dessas situações já levantou uma outra discussão.

Enquanto para alguns, como eu, a situação do aviso seja um absurdo, muita gente se prontificou a deixar claro que é a favor de ser avisado antes do filme que será exposto a cenas de sexo gay. Quando acusados de homofobia, o contra-argumento dessas pessoas é algo parecido com “Eu não sou homofóbico. Acho que eles tem direito de serem gays, só não quero ser exposto a isso.”

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Além de ser uma demonstração óbvia de ignorância, é uma demonstração de como nosso Brasil é um país que pode ser tanto terrível quanto hipócrita. Vou apenas lembrar algumas das diversas discussões acerca de preconceito e segmentação de minorias do mesmo estilo, mas com racismo. Uma das conclusões acerca do assunto é que o preconceito só deixa de existir quando a pessoa aceita a convivência de igual para igual com o outro.

Então, caro leitor, se você acha que não é homofóbico apesar de não querer ser exposto à homossexualidade, você é homofóbico. E da mesma forma que você tem o direito de ser homofóbico (um troço chamado liberdade de expressão, que legalmente só não se aplica a racismo no Brasil) todo mundo que não é homofóbico tem o direito de te chamar de babaca ou de coisas piores. É uma via de mão dupla.

Mas pensando sobre o assunto, devo dizer que sou a favor do aviso. Se for assistir Praia do Futuro, quero ser avisado de que há cenas de sexo. Só isso, nada de me dizer que é gay. E o mesmo vale para outros filmes. Eu gostaria de ser avisado antes de assistir A Bolha Assassina que veria uma cena de um rosto humano digerido e sendo convertido em esqueleto. Ou talvez que haveria nudez em X-Men – Dias de um Futuro Esquecido (vai assistir pra descobrir).

É por isso que existe a tal classificação indicativa. Não é exatamente “censura” uma vez que ela não impede os pais de levarem os filhos ao cinema. Tanto o é que houve o caso do deputado Prostógenes com o filme Ted algum tempo atrás. O imbecil levou o filho para assistir um filme com classificação indicativa para maiores de 16 anos e ficou chocado. Quem sabe, se ele tivesse sido avisado de que haveria cenas com consumo de drogas e muitas referências a sexo, Prostógenes não teria exposto o filho à produção.

Então talvez realmente valha a pena avisar as pessoas de coisas chocantes. Mas nunca avisar apenas que o Wagner Moura tem uma cena de sexo gay em seu filme novo. Querer aviso apenas para isso é preconceito e hipocrisia.

 

I CALL IT BULLSHIT…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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