No Limite do Amanhã

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Todo mundo que assiste ao trailer de No Limite do Amanhã fica muito confuso com o que diabos é a trama deste filme. Isso garantiu duas coisas bem interessantes. Primeiro, praticamente ninguém vai aos cinemas assisti-lo sabendo o que vai acontecer. E segundo, um medo de que o Doug Liman não conseguisse dar conta de equilibrar uma boa história com a montanha de ação com efeitos especiais.

Após a queda de um meteoro carregado de alienígenas na Europa, a humanidade se encontra em guerra com os invasores espaciais. Um assessor de imprensa inescrupuloso do exército, major Cage (Tom Cruise), é colocado no front da próxima batalha e acidentalmente rouba um poder dos extraterrestres. Com a nova habilidade ele se torna a única esperança da humanidade de derrotar os inimigos.

Existem três palavras que, se colocadas em ordem, vão explicar a história do filme: Feitiço do Tempo. A proposta é basicamente essa. O velho conceito de Feitiço do Tempo é aplicado a um homem em uma guerra. A tecnologia alienígena não é apenas a desculpa para esse conflito, mas também para um desenvolvimento completamente novo. Enquanto no clássico do Harold Ramis o personagem do Bill Murray precisa apenas se tornar uma pessoa melhor, aqui existe uma dinâmica de estratégia de guerra, não basta acertar tudo no final do dia para as coisas darem certo.

Daí vem a grande qualidade do filme. O desenrolar do roteiro é muito bom. Assim que Cage ganha o poder, ele leva pouco tempo para ter aquela cena obrigatória de explicação. É expositiva, mas feita com cuidado e na hora certa apresenta apenas o que o espectador precisa saber sem ser longa ou arruinar o ritmo. É tudo muito bem colocado, o objetivo do personagem, como alcançá-lo e os obstáculos. Espera-se que o resto do filme venha a seguir o padrão de sempre, mas lá pelas tantas ocorre uma reviravolta muito bem adequada a todo o conceito apresentado que altera o objetivo. E isso acontece de novo e de novo, surpreendendo e prendendo bastante a atenção sem nunca se perder e nem perder a lógica.

Edge-of-Tomorrow-Movies-Image-35Caos da batalha. Feitiço do Tempo usado como estratégia de guerra.

Parte das reviravoltas se dá com os alienígenas e suas estratégias, outra parte se dá com as opções de Cage de como enfrentar aqueles dias. As duas são muito interessantes e movimentam a produção, mas existe um terceiro tipo de reviravolta que é de longe o que dá mais qualidade ao produto final. Nela revela-se a transformação de Cage através do trauma da guerra reforçado diariamente em sua memória. Enquanto outros personagens cobram dele a ação imediata dia após dia, ele vai se desgastando das constantes mortes e isso faz com que duas mudanças ocorram. De um lado ele adquire o choque dos soldados que veem pessoas queridas morrer e do outro o aumento da vontade de lutar mais e melhor para derrotar os inimigos.

Disso também surge um defeito. Ao mesmo tempo em que é a parte mais fascinante do filme, é também a parte menos aproveitada. Com o destaque para o desenvolvimento das outras partes do roteiro, os raros momentos em que Cage revela as cicatrizes emocionais que a experiência está criando chegam a parecer superficiais. Principalmente com o ápice puramente focado na ação e nos efeitos especiais.

É onde a escolha de Tom Cruise para o papel se revela um acerto. É possível ver nos seus olhos a transformação de Cage. No começo ele é simplesmente egoísta e ingênuo. Quando é preciso revelar como os choques das mortes que testemunha o estão destruindo por dentro, Cruise demonstra com poucos gestos essa dor interior. É uma das boas interpretações do ator. Por conta desse esforço, o elemento humano não fica apagado mesmo nas cenas com mais explosões e manobras mirabolantes.

Em contraste a essa humanidade de Cruise, Emily Blunt brilha como uma superior que é chave para seu desenvolvimento. Sua personagem, Rita, é a veterana que já carrega os traumas pelos quais ele ainda está passando. Por conta disso, ela possui a dureza de uma pessoa focada completamente na guerra e nos objetivos a serem conquistados. Pouco a pouco uma profundidade é revelada por baixo dessas camadas endurecidas. Blunt equilibra os dois lados com bastante naturalidade. Sem falar que conta com uma forma física admirável resultante da extensa preparação que fez antes das filmagens. Ela é bonita, forte, feminina e feroz.

Captura de Tela 2014-05-29 às 07.58.12Preparação física da Emily Blunt impressiona.

Além deles, vale comentar a rápida participação do Bill Paxton, que parece uma espécie de comentário às suas parcerias com o diretor James Cameron. Principalmente em Aliens. O ator demonstra saber da ironia e se solta no papel. Enquanto isso, Brendan Gleeson é um general por trás dos exércitos humanos. Ele mostra a preocupação com suas tropas ao mesmo tempo em que revela uma frieza na hora de calcular os meios para lidar com os obstáculos colocados a sua frente.

O grande problema do filme é seu final. O terceiro ato é bem construído, possui uma ação alucinante e vai levando para um desfecho muito corajoso. Ainda tem alguns problemas de coerência com o resto do filme, mas funciona bem. Então, no último momento surge uma reviravolta final e o filme que estava terminando com muita coragem se permite ficar ruim. O final não faz sentido e deixa um gosto bem amargo na boca. Especialmente após toda a duração tão divertida que veio antes.

O Doug Liman faz um bom trabalho, como sempre, na hora de conduzir a ação e de criar ritmo movimentado. A violência do filme surpreende. Liman cria a sensação do caos de um campo de batalha nos momentos de guerra. As pessoas morrem repentinamente das formas mais imprevisíveis. Inclusive, uma das primeiras mortes (não posso contar quem ou como) é visualmente muito explícita e gráfica, deixando na memória uma imagem bem pesada. Porém, Liman erra nas mesmas coisas de sempre. Tem tanta necessidade de colocar dinâmica no filme que, nos momentos mais parados, mantém a câmera mexendo de um lado para o outro. Com isso ele quebra com frequência o eixo dos diálogos e faz com que várias cenas que deveriam ser mais tranquilas ficassem confusas.

A direção de arte é interessante. Os humanos usam uma espécie de exoesqueleto visivelmente inspirado em trajes japoneses do tipo. Onde a arte falha é na construção dos alienígenas. Eles parecem muito com os sentinelas do Matrix com um rostinho gritando na frente. O design deles é terrível, mas toda a parte da tecnologia futurista da humanidade é muito boa. Com os efeitos especiais fica tudo ainda melhor.

No Limite do Amanhã é uma ficção-científica de ação muito divertida, com alguma profundidade e um ritmo muito bom. O final e aos problemas de direção não incomodam tanto quando se permite focar apenas na diversão e no desenvolvimento do personagem. É uma boa experiência para se ter no cinema, apesar de algumas sacudidelas no caminho.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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