Saga especial – Roma, Cidade Aberta

roma capa

Rossellini e a forma do real

Segunda metade da década de 40 do século passado: A Itália e diversos países estavam sob escombros. Os países atingidos pela Segunda Guerra Mundial agora, deveriam achar forças para compreender os fatos e reerguer-se. Esta compreensão muito se fez pelo cinema e, um dos filmes que norteou e que moldou grande parte do movimento neorrealista foi Roma, Cidade Aberta, dirigido por Roberto Rossellini.

A Itália possuía dentro de seu território, ideias oposicionistas ao governo Fascista, diferente da Alemanha que não tinha uma frente contra o modelo político implantado por Hitler. Por isso, uma das grandes preocupações de Mussolini era a Frente Comunista que, ,junto ao povo sofrido e engolido pela miséria causada pela guerra, viu-se na necessidade de tornar-se ativa diante dos acontecimentos. Neste contexto que Rossellini criou a atmosfera de Roma, Cidade Aberta.

roma 1

Rossellini iniciou as gravações tempos antes do fim da guerra, com poucos atores renomados e muitos que, antes dos filmes, eram pessoas que não tinham experiência com a atuação. Federico Fellini, que mais tarde seria um dos grandes expoentes do cinema italiano, foi um dos ajudantes na criação do argumento e do roteiro do longa. As dificuldades criadas pelo esfacelamento estrutural da Itália não exerciam dificuldades para a produção fílmica. A regra aqui era poder mostrar parte da realidade, explorar o reflexo deixado pela guerra, as ruas, as pessoas, que eram uma faceta da sofrida sociedade italiana da época.

A preocupação de Rossellini era expor o humano e suas inclinações morais diante de uma guerra. Não se enxerga no filme abordagens que possam definir-se como significação para um trajeto heroico. São pessoas que, ao soar do toque de recolher, retiram-se para suas casas, onde o medo e a fé misturam-se sofridamente, esgotando o ser humano que carrega consigo a amargura da esperança quase que embaçada, distante. Pina, personagem interpretada magnificamente por Ana Magnani, reflete a angústia desenfreada das mulheres daquela época. Manfredo e Francesco são as representações da luta contra as forças fascistas. Marcello, filho de Pina, é uma criança que demonstra a verdadeira esperança e a vontade de lutar que fazem os “homens grandes”. São ingênuos, porém, com o passar do tempo, perdem essa ingenuidade ao encarar os acontecimentos de uma catástrofe.

 

“Queriam matar sua alma. Só mataram seu corpo”

roma 2

O padre Don Pietro é um personagem que se assemelha a muitas temáticas abordadas por Rossellini em filmes futuros. A imagem de Deus e dos mistérios envolto a sua figura que aqui, neste longa, forçam ao Padre a duvidar de sua própria fé e perdoar-se perante o divino ao afrontar os nazistas. Diante da opressão, ele é um oprimido e porta-se como tal, ajudando e seguindo a moral que o impulsionou. Seja ela guiada pelo Divino ou pelo homem. Em Pietro, ambas confundem-se porque funcionam como uma só, como uma força maior que paira além dos olhos, além da imagem fílmica.

Enquanto do lado nazista, mostra-se a fraqueza humana. A estrutura fortificada pelas forças alemãs revela-se cambaleante diante de suas próprias verdades (ou mentiras). As mulheres ali juntam-se ao poder para que, com ele, possam ser alguém na vida e refletem a parte obscura para a época. O homossexualismo e as drogas fazem parte do que se constrói ali diante do entorno fascista. A necessidade de alinhar estas características ao nazismo são justamente para alavancar suas fraquezas e suas concepções ideológicas que não funcionam diante da condição de mundo em que vivem. Ou para mostrar que, pelo menos, são tão fracos quanto nós.

***

Rossellini não teve preocupações em se utilizar de planos convencionais, de montar perímetros nas ruas para gravar. Nada de equipamentos para controlar a luz e nem métodos de pré-produção para petrificar sua filmagem. A finalidade era montar um filme que constrói-se como parte do real. Muito daquilo que é visto, era sentido e acreditado por tudo aquilo que se viveu. Por isso, Rossellini foge do convencional, quebra as barreiras cinematográficas como se alertasse ao mundo uma nova possibilidade cinematográfica, que viria a influenciar diversos países emergentes e mais pobres.

O que pode, e se deve, enxergar aqui neste primeiro filme neorrealista de Roberto Rossellini é o poder da imagem humana e aquilo que entorna a sua moral, os seus princípios, a sua vida. E funciona deste modo porque assim a vida o é, sem extrapolar a imagem do humano, sem invadir a alma. Mas, quando esta atinge a carne e o osso, o corpo grita! Ouve-se o sofrimento e vê-se a tristeza. Não se vê um sorriso. Não existe o fim que se esperava e sim um recorte da realidade.

Como dito no início do filme:

“… semelhanças com fatos e personagens reais é inteiramente casual”

roma 3

Sobre Daniel Lolo

Não teme a morte, mas teme a vida. Por isso o cinema é como um copo de cerveja vazio. Alguém sempre tem de enchê-lo.
Esse post foi publicado em Diretores, Filmes e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s