Como Treinar o seu Dragão 2

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Continuações chegam com muitas obrigações complicadas. Precisam dar continuidade para histórias fechadas ao mesmo tempo em que têm que ter histórias fechadas por si só. Devem seguir um estilo e estrutura pré-determinados e ainda possuem um padrão de qualidade que precisam manter ou ultrapassar. É improvável um filme cumprir todos os requisitos, mas quando um faz é memorável.

Cinco anos depois da paz entre os vikings e os dragões, Soluço e Banguela se esforçam para mapear o mundo. Porém, chegam a uma terra nova onde tomam conhecimento de caçadores de dragões que reúnem um exército dos animais para um homem perigoso. Ao mesmo tempo, descobrem sobre um misterioso cavaleiro de dragão que está tentando enfrentar os caçadores.

Dean Deblois literalmente repete exatamente a mesma estrutura do primeiro filme, que ele também escreveu. O que é ótimo. Apresenta o contexto, o que aqui é basicamente tudo o que aconteceu com os personagens depois do primeiro filme e imediatamente já inicia o desenvolvimento. Literalmente, na mesma cena em que termina de apresentar todos os contextos iniciais os personagens veem uma coisa que será o gancho para que a história comece. Daí ele segue cuidadosamente as diversas jornadas paralelas de cada personagem importante até que todas se chocam diretamente no final do segundo ato. A situação parece impossível para os protagonistas neste ponto, então eles partem para a resolução final com um último fio de esperança.

É o mesmo que a grande maioria dos filmes tentam fazer, com a diferença de que aqui todos os elementos estão fechados e são importantes para a história como um todo. O que é admirável considerando como esta se desenvolve com vários personagens passando por sua própria aventura paralela. De um lado, Soluço e Banguela buscam a diplomacia e acabam se encontrando com o desconhecido cavaleiro de dragões, por outro, Astrid e seus colegas partem em busca de ajudá-lo e cruzam caminho com os caçadores. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo com muita gente, mas o roteiro nunca fica confuso ou complicado. É um mérito tanto da montagem quanto do próprio roteiro.

Mas talvez o grande mérito do trabalho de Deblois é conseguir fazer com que o segundo filme explique e dê continuidade para elementos do primeiro sem nunca ficar preso à trama daquele. Não é necessário assistir ao outro para entender este, ainda assim fica uma sensação de que os dois em conjunto contam uma história contínua. Principalmente se for analisado o desenvolvimento tanto do protagonista humano quanto do protagonista dragão.

A qualidade da computação gráfica avançou muito desde o original. Cada pequeno elemento em cena parece real, sejam as peles das pessoas, as escamas dos dragões, um pedaço de madeira, uma camada de tinta sobre alguma coisa. Certas cenas parecem filmadas em locais reais. O que ganha com o efeito do 3D, que acrescenta a essa sensação de realidade. Os humanos se movem de forma caricata (tal qual o design deles) e os dragões ganham mil e uma características de diversos animais, o que lhes dá uma expressividade ainda maior do que já possuíam no primeiro filme. Basta uma olhada rápida para qualquer das criaturas para entender o que estão sentindo e pensando.

John Powell volta para a trilha sonora, reinventando os temas que se tornaram tão populares no primeiro filme e criando novos para personagens e situações novos. O poder das músicas continua forte. A cena em que Soluço e Banguela voam juntos pela primeira vez com o tema principal continua emocionante e dá novamente um pouco do sentimento do que deve ser voar passado anteriormente.

O diretor de fotografia Roger Deakins foi supervisor dos visuais. O resultado é uma fotografia fortemente expressiva, com enquadramentos que jogam sombras cuidadosas e dramáticas, indicando o valor dos personagens em cada composição. A direção de arte mistura locais realistas com personagens com visuais caricatos e dragões que equilibram um tanto de fofura para não intimidar as crianças e o perigo necessário para que funcionem como ameaça. No final, o filme é dono de uma beleza representativa para seus significados como um todo.

A união é o foco em diversos níveis. Dentre eles, o núcleo familiar.

A união é o foco em diversos níveis. Dentre eles, o núcleo familiar.

Uma coisa interessante da franquia Como Treinar o seu Dragão é como ele vai e volta no desenvolvimento de seus inúmeros temas. Existem discussões no macro – a guerra e a paz, a união e o individualismo – e no micro – um menino que puxou à mãe e foi criado sozinho pelo pai, a perda e a reconquista da família, as várias formas de amor. É possível ver uma analogia aos diversos casos de guerras que passam de geração para geração sem que a causa inicial sequer seja lembrada. De uma forma bastante fantasiosa e otimista, o filme vende a ideia para as crianças de que a união e os esforços por amor podem mudar povos e conflitos.

Em segundo plano, pequenas representações que são extremamente relevantes em tempos atuais. O grande viking forte e poderoso se vira para a esposa em um momento de tensão e pergunta para ela o que devem fazer. Não é passando o poder para o sexo feminino, apenas reconhecendo quando este tem a solução. Ao mesmo tempo, nenhum personagem jamais acha que tem a solução isolada para todos os problemas. Muito pelo contrário, é na união que se encontram suas verdadeiras forças. Isso é, inclusive, o motivo pelo qual a amizade de Banguela e Soluço funciona tão bem. Sozinhos, eles são apenas um dragão solitário e um menino incompreendido, juntos são o elo que leva para a paz e a segurança de todos os povos.

how-to-train-your-dragon-2-astrid-2-600x338Reconhecimento do valor das mulheres como iguais aos homens.

Como Treinar o seu Dragão 2 é um feito em termos técnicos e narrativos. Em nenhum aspecto tenta ser superior ou inovador em relação ao que se faz normalmente. Mas acerta em todos os pontos comuns e o resultado é um filme primoroso. A série é inspirada em uma franquia de livros infantis e portanto já conta com continuações já confirmadas. Que sejam mantidas a qualidade e o esmero dos realizadores.

 

GERÔONIMOOOOOO…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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3 respostas para Como Treinar o seu Dragão 2

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