Desabafo fora do cinema – A arte de estragar um personagem principal

TONY GOLDWYN, KERRY WASHINGTON

Outros bons títulos para esse post seriam “Como fazer um seriado no qual os espectadores estão mais interessados nos personagens secundários”, ou “Parem com o mimimi”.

Estou assistindo religiosamente um episódio de Scandal por dia. Comecei a assistir porque não é todo dia que temos um seriado com críticas positivas que dure 3 temporadas com uma mulher como protagonista, e lindamente negra (sério, qual o segredo, Kerry? Me conta). Os episódios são bem amarrados, apesar de implausíveis algumas vezes, e o argumento principal que segue o seriado inteiro, paralelamente aos casos particulares, também não deixa a peteca cair, com surpresas bacanas.

Tudo pra dar certo, né? (tem até ruiva, pra agradar o dono deste blog)

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Porém, contudo, entretanto, todavia, a responsável pela ideia da série é Shonda Rhimes, que caso você não conheça de nome, talvez conheça como a criadora por 11 temporadas de romances, sexo escondido e chororôs de Grey’s Anatomy. E Shonda pode ser ótima para dramas afetados, mas tentou algo diferente com Scandal, que infelizmente foi prejudicado por sua veia artística dramalhona.

A protagonista, Olivia Pope, é uma personagem com profundidade bem explorada no roteiro. Porém, quem rouba a cena são seus sidekicks – Huck, o ex-agente lelé da cabeça, Abby, a sincera-demais, Harrison, o fiel escudeiro, e Quinn, a novata com segredos. Na primeira temporada, ainda pudemos apreciar o ótimo Stephen (NOT PENNY’S BOAT), mas o ator decidiu sair do seriado sem motivo aparente.

Cada um adiciona algo para a trupe de pseudo-advogados/resolvedores de problemas da Olivia, e, em teoria, deveriam apenas acrescentar. Só que o drama do roteiro de Shonda Rhimes deixa a protagonista tão chata, mas tão chata, que lá pro meio da segunda temporada, você só quer ver em cena os secundários. De verdade, eu estou cagando pra Olivia nessa terceira temporada. Esse romance clichê vai-e-vem com o Presidente (spoiler do primeiro episódio, ok) é muito desgastante pra série.

É tipo aquele casal de amigos que todo mundo tem, que terminam e voltam uma vez a cada mês, e estão juntos há anos. E é tão chato que ninguém mais se importa quando um dos dois vem desabafar em um término, porque já se sabe que vão voltar. É essa obviedade que prejudica a série.

Scandal poderia ser a House of Cards informal da TV, mas fica muito chata quando todo santo episódio temos que ver Olivia fazendo cara de dor enquanto é convencida a ceder mais uma vez ao amor que os dois sentem um pelo outro e zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz. Boring, apenas.

Só estou assistindo Scandal até agora por causa dos personagens secundários. Isso me lembrou bastante Seinfeld, quando em certo ponto tornou-se mais divertido ver o George em cena que o próprio Seinfeld. Eu torcia pro George aparecer o tempo todo.

Um roteirista não pode criar um personagem principal que irá cansar os expectadores. Ele precisa ser real, profundo, com várias facetas e convincente. Não estou reclamando da atuação da Kerry Washington, ela é excelente. Reclamo do desenvolvimento clichê e pífio que Shonda está dando para uma protagonista com tanto potencial e ainda gastando os preciosos minutos da trama para mostrar o mimimi que é o relacionamento dela com o Presidente… que aliás, nesse seriado, o líder mais poderoso do mundo é um bundão em proporções descomunais.

Mais House of Cards, menos Grey’s Anatomy, por favor.

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