Não Aceitamos Devoluções

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Não Aceitamos Devoluções é o filme latino com maior bilheteria na história dos Estados Unidos. É um fato que deveria impressionar bastante. Tanto o é que foi por isso que fui assisti-lo de coração aberto, esperando por uma produção bacana. Porém, é preciso ressaltar, que são poucas as vezes que me sinto tão ofendido durante uma sessão quanto fiquei com esta produção mexicana.

Valentín (Eugenio Derbez) é um imigrante ilegal vindo do México nos Estados Unidos. Ele vive uma situação complicada porque, apesar de sua condição, sua filha Maggie (Loreto Peralta) é cidadã americana. Depois de sete anos desaparecida, a mãe, uma americana chamada Julie (Jessica Lindsey), reaparece querendo conhecer a filha.

news_photo_45997_1384975187Julie tentando retomar contato com Valentín e sua filha.

Imagine que o Renato Aragão tivesse a ideia de adaptar a novela mais triste do mundo na duração de um filme. Ele então escreve, produz, dirige e atua na bagaça. Não Aceitamos Devoluções é isso, só que com a versão mexicana do Renato Aragão nos anos 1980. Daí vem a explicação para o enorme sucesso da produção tanto no seu país de origem quanto nos Estados Unidos. Boa parte da população dos Estados Unidos é de mexicanos. Eugenio Derbez, esse cineasta multi-tarefas, é adorado nos dois países.

Como uma boa cria do país no sul da América do Norte, Derbez faz um melodrama. Mas não um melodrama de qualidade, como Kramer vs. Kramer ou qualquer grande exemplo do tipo. Não Aceitamos Devoluções é filmado como uma novela, sem deixar nada a dever para as produções da Globo ou da Televisa. Ou seja, direção de arte tão colorida que parece um caleidoscópio, mas com cores que não dizem nada dentro da produção. A fotografia segue a regra bem clara das novelas, se tem algo nas sombras, joga alguma iluminação em cima. Quanto ao trabalho de diretor? Coloca a câmera em algum canto de forma que pegue os eventos da história.

E quanto a contar a história, como a produção faz isso? Um roteiro sem sentido, que joga discursos exagerados que ofendem a inteligência do espectador constantemente na tela. Seja em um julgamento próximo ao terceiro ato em que a causa é ganha graças a berros emocionados e legalmente errôneos ou em situações cuidadosamente feitas para distrair a atenção do que realmente está acontecendo na trama e tentar surpreender no final. Atuações pobres que são pioradas com alguns takes terrivelmente expositivos mostrando a “vilã” Julie olhando indignada para fora de quadro ou Valentín olhando triste para baixo quando recebe uma notícia ruim. Mas a pior parte é que a música entra comentando cada pequeno momento. Normalmente representada por um toque de piano excessivamente depressivo que mais deixa as cenas piegas que com o tom que deveriam alcançar.

Valentín é um homem com um alto grau de ignorância. Tanto que decide entrar nos Estados Unidos com um bebê americano sem saber que seria barrado na fronteira. Chegando lá, não percebe que as pistas, um tanto óbvias, indicam que Julie se mudou de Los Angeles para Nova Iorque. Daí, em uma decisão insana, aceita o emprego de dublê de cinema para sustentar a si e à menina. Coloca a vida em risco todos os dias sendo que o trabalho pode deixar a criança abandonada. Para piorar, o filme demonstra constantemente como ele é um pai inadequado ao qual ninguém jamais deveria confiar uma criança. Então quando Julie reaparece, o filme a retrata como qualquer novela faria em um contexto desses, de forma maniqueísta e até homofóbica. Depois de abandonar o bebê, ela descobre ser lésbica. A revelação se dá com piadas em relação ao que o filme descreve como “famílias diferentes”.

aow4udA “maligna” namorada lésbica de Julie. Homofobia sutil.

Espera-se que o espectador comece a torcer para Valentín e odeie a Julie e sua namorada do mal. Porém, fica claro que com Julie a Maggie terá um futuro melhor além de duas guardiãs responsáveis cuidando dela. Ao mesmo tempo, tem um mistério ali no meio. Valentín aparentemente tem um bom motivo para ser um pai que mima a filha a todo custo e que permite que ela acredite em todo tipo de fantasias malucas. E, por incrível que pareça, o motivo é bom sim, mas Valentín, ou qualquer outro personagem que o conheça, se recusa a dizê-lo. Sem motivo aparente, apenas para que a revelação seja um twist “surpreendente” no final. Mas é previsível e feito para fazer chorar gratuitamente.

Eis o problema, fazer chorar é fácil. Mostra um cachorro sofrendo, um pai separado de seu filho ou qualquer coisa do gênero e você vai fazer gente chorar. Mas fazer chorar com uma história que faça sentido, atores que são eficientes e uma direção que conte a história e não fique expondo um pai sofrido no pôr do sol com um toque ridículo e choroso de piano é muito mais digno do que é feito aqui.

Eugenio Debez é péssimo tanto como comediante quanto como ator dramático. Não basta ser um péssimo diretor e roteirista. A atriz que interpreta Julie é limitada, mas se esforça bastante para dar alguma humanidade para a personagem, mesmo que a direção a dispa disso a favor do maniqueísmo. Quem salva mesmo é a menina Loreto Peralta. Ela está completamente envolvida em todas as cenas das quais faz parte, sem contar que ela impressiona com sua inteligência e sua habilidade de falar tanto em inglês quanto em espanhol. Infelizmente a direção de atores de Debez provavelmente se resumiu a chore nos braços de tal pessoa ou sorria mostrando ao máximo seus dentes, o que Peralta faz com muita graça.

Não Aceitamos Devoluções é um tipo de filme raro. É incomum um filme ser tão ruim que não funcione nem como comédia involuntária. Que ofende com cada tentativa de ser mais do que realmente é. Recomendo fortemente para aqueles que gostam das produções mais “televisivas” nacionais que chegam nos cinemas com frequência.

 

GERÔNIMOOOOOOOOO…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para Não Aceitamos Devoluções

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