O Espelho

OCULUS

Entre os vários filmes de terror que chegam com alguma frequência nos cinemas, este O Espelho apareceu bem discreto. Não teve muita divulgação nem muita conversa sobre. O que é muito estranho, a produção foi lançada há alguns meses nos Estados Unidos com algum estardalhaço. A crítica foi relativamente positiva em relação a ele apesar de a audiência não ter gostado muito. Acredito que a demora se deu por conta da distribuidora tentando descobrir se o filme valia ou não o dinheiro gasto com seu lançamento por aqui.

Ao atingir a maioridade, Tim recebe alta depois de anos de tratamento psiquiátrico. Agora sua irmã Kaylie (Gillan) quer sua ajuda para se vingar do espelho que ela diz ser o culpado pelas mortes de seus pais.

O filme já tem um problema na proposta. Basicamente porque ele tem duas, e uma anula a outra. Por um lado, é um suspense psicológico. Por outro, é um horror tradicional. O suspense psicológico reside na discussão entre Tim e Kaylie sobre o que realmente aconteceu quando os dois eram crianças. Ou eles criaram uma lógica fantasiosa para explicar porque o pai cometeu as atrocidades que ocorreram ou realmente existe alguma força sobrenatural no espelho da família. O problema é que o filme já se declara um filme de horror desde o princípio. A discussão e o suspense iniciais soam vazios.

OCULUSKaylie e Tim se preparam para enfrentar o espelho.

Mike Flanagan dirige e escreve. Para contar a história, ele toma uma decisão inteligente. Conta a história de Tim e Kaylie enfrentando o espelho em paralelo aos eventos de suas infâncias. As duas vão crescendo em ritmo constante até chegar ao clímax que liga as duas diretamente. Literalmente, com os atores que os interpretam adultos e crianças trocando de lugar entre os takes. Flanagan garante que a estrutura do filme funcione muito bem e corra de forma muito fluída.

Oculus-movie-stillTim e Kaylie crianças.

A fotografia não se resume a coisas escondidas nas sombras nem a tons escuros e frios. Muito pelo contrário, tirando os momentos em que o roteiro exige que a casa fique na escuridão, as cenas são bem claras e com todos os itens em cena claramente visíveis. A partir de certo ponto, os personagens resolvem iluminar a casa com lâmpadas móveis que ficam no chão. A fotografia usa e abusa disso para iluminar os atores de baixo para cima, dando um visual bastante fantasmagórico sem ficar colocando meias sombras em seus rostos.

A direção de arte é fundamental para a história. Tim e Kaylie resolvem enfrentar o espelho na mesma casa onde cresceram, então o passado e o presente se confundem, mas a direção de arte é eficiente em fazer com que os mesmos ambientes pareçam diferentes para cada período. Mesmo quando os personagens começam a trocar de posição com suas versões mirins, as roupas e os cenários indicam qual a versão verdadeira deles que está se locomovendo pela casa e em qual período.

Nisso, a montagem também é fundamental. O cargo também fica por conta de Flanagan. Ele é cuidadoso para garantir que os movimentos de câmera se adequem aos cortes. Às vezes passa do presente para o passado com um movimento de câmera, depois corta de volta para o ângulo anterior e todo o resto do mundo voltou no tempo junto. Não é um grande trabalho inovador, mas é extremamente eficiente, elaborado e complexo. Flanagan não está inventando a roda, só está sendo um diretor inteligente e bom. O que é mais do que muitos filmes de terror tem.

É preciso dar destaque para o espelho por si só. O que quer que seja que faz com que a mobília seja ameaçadora é original. Não cai na resposta padrão de fantasma ou demônio e não precisa disso. Muito pelo contrário, seu conceito é diferente do que se vê normalmente e ainda assim é bastante simples, compreensível e um tanto quanto perturbador.

Logo no começo do filme, Kaylie resolve filmar todo o confronto com o móvel. Ela coloca diversas câmeras que funcionam sem necessidade de conexão com energia externa, diversos alarmes que vão lembrá-los de condições essenciais para sobrevivência e algumas armadilhas para o vidro emoldurado. À princípio, tudo parece bem lógico e indicativo de que realmente existe alguma possibilidade de os dois derrotarem a suposta entidade. Por sinal, é uma sequência explicativa que não soa expositiva por se encaixar perfeitamente na narrativa. Mais um ponto para o roteiro.

Na primeira metade os dois discutem muito. Ela explicando o passado tal qual ela lembra e ele dando explicações plausíveis e não sobrenaturais. A dúvida vai aumentando gradualmente e fica cada vez mais lógico que, de fato, não houve entidade alguma envolvendo as mortes dos pais dos dois. Porém, o material de divulgação deixou claro antes da sessão qual dos dois casos condiz com a realidade. E quando esta é revelada na produção, o final fica previsível. Ainda assim, a graça está na engenhosidade com que esse final pode acontecer. Então vira uma espécie de quebra-cabeça logístico entre o que é passado, presente e real. O grande problema nisso tudo é que o espectador sabe disso, mas os personagens não, mesmo sendo um fato um tanto quanto óbvio.

oculusSabe, crianças? Papai tem andado com umas companhias bastante ruins.

O elenco é praticamente feito de desconhecidos propositalmente. Flanagan queria que os atores não roubassem a atenção do verdadeiro protagonista, o espelho. Ainda assim, as duas atrizes principais possuem alguma fama. Kaylie adulta ganha as feições da eterna Amy Pond, Karen Gillan, e sua mãe no passado tem os trejeitos de outra eternizada em séries de TV, a Katee “Starbuck” Sackhoff. A segunda pintou as madeixas de vermelho para acompanhar os tons naturais da primeira. Além da beleza que enche os olhos, as duas estão muito bem em seus papéis. Principalmente Sackhoff, que está acostumada a fazer mulheres duronas e fortes, ao se permitir uma interpretação mais fragilizada e vulnerável. O resto dos atores também convence muito bem, mas ninguém merece muito destaque.

O Espelho é um filme correto. Não reinventa a roda, mas também não cai na mesmice em que o gênero de terror virou. A direção de Mike Flanagan é boa e a história ganha alguma originalidade com a presença de uma entidade original, que não precisa de explicações para ser ameaçadora. Melhor ainda porque não é um filme de sustos fáceis, mas um trabalho elaborado em cima da ambientação e do suspense.

 

GERÔNIMOOOOOO…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para O Espelho

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