Amor Fora da Lei

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O diretor e roteirista David Lowery e seu diretor de fotografia Bradford Young devem gostar muito dos filmes do Terrence Mallick. Só isso para explicar um filme que evoca tanto a aura e o estilo do diretor. Amor Fora da Lei não é exatamente um tributo à obra de Mallick, é mais um estudo passo a passo de como fazer cinema daquele jeito.

Bob (Affleck) foge da prisão. Sua esposa Ruth (Mara) passou os últimos quatro anos cuidando sozinha da filha dos dois. Enquanto a polícia o procura, um grupo de bandidos que ludibriou no passado coloca sua cabeça a prêmio. O policial que foi ferido durante sua captura está envolvido na busca e ajuda Ruth com as dificuldades das investigações.

O filme abre com os títulos “Aconteceu no Texas”. Já dá a dica de que se trata de uma história típica não apenas dos Estados Unidos, mas daquela região mais conservadora do sul daquele país. O Texas ainda reserva vários preconceitos do passado, assim como uma devoção religiosa assombrosa e muito da cultura de cowboys de eras passadas. O que faz de Amor Fora da Lei um dos interessantes casos da retomada de faroestes mais intimistas e introspectivos desde que o gênero voltou ao interesse dos realizadores de cinema.

082013mara1Ruth com sua filha. Poucas palavras que dizem muito.

O roteiro de Lowery consegue retratar o jeito texano de falar de forma muito eficiente. As analogias e meias palavras da região servem tanto para ambientação quanto para criar um lirismo típico da linguagem local. Para traduzir essa linguagem para o visual, Lowery e Young seguem as regras de iluminação de Mallick à risca. Todas as luzes são diegéticas, o que coloca muitas câmeras baixas em céu aberto durante o dia, muitos abajures nas internas noturnas e muito jogo de sombras. O resultado é de uma beleza arrebatadora, com direito a imagens belíssimas dos campos e do céu do Texas.

Mas a fotografia e o roteiro vão além do lirismo puro. As meias palavras dos personagens dizem muito. E seguindo a proposta do Antonioni, muitas vezes a ação acontece fora da câmera. Vemos Ruth indo para o hospital e depois recebendo o bebê no colo, logo em seguida a ação vai para Bob na prisão descobrindo que teve uma menina. Depois, Ruth recebe a visita do policial Patrick (Foster) e, assim como ela, descobrimos que Bob fugiu. É um método interessante porque foca a narrativa nos diálogos, que são tão bem escritos, e cria um suspense sobre como os eventos ocorreram e quais as consequências. O jogo de luz serve a isso muito bem. Durante o dia faz uma cena interessantíssima em que Bob sequestra um carro com o motorista dentro. O diálogo dos dois se dá todo no escuro, mesmo com a luz do Sol brilhando intensamente lá fora. De noite, ele cria diálogos em que indica as intenções dos personagens virando os rostos deles na mise-en-scène de forma com que um esteja nas sombras e o outro no claro, com suas feições evidenciadas.

Com isso, Lowery filma uma simples e pequena história de três pessoas cujos destinos não estão fortemente ligados ao lugar onde vivem e a algumas pequenas escolhas que fizeram no passado. Existe um pouco de crítica ao conservadorismo texano, mas o foco é mostrar como algumas opiniões tradicionais da região não fazem muito sentido. Em certo ponto, Bob descreve sobre um policial que disse que ele teria que ser julgado por Deus e pelo diabo após morrer. Mas o crime de Bob não é tão severo quanto a religião diz. Sem contar que, se existe essa satisfação na punição pós-vida, pra que encarcerar Bob?

680x478Ben Foster. Interpretação magnética.

O elenco é poderoso. Casey Affleck se prova o irmão talentoso com mais uma interpretação que ganha nos olhares e nas forma cuidadosa com que solta os diálogos. Rooney Mara está ótima como a mulher que teme pela vida de seu amor ao mesmo tempo em que precisa satisfazer as atenções da polícia e de seus “guardiões”. O Ben Foster fecha o trio de forma espetacular como o policial que tem todos os motivos para odiar Bob e Ruth, mas que, ao contrário do que dita as normas de sua região, não consegue ver maldade neles. São três atores excepcionais que mereciam maior destaque da indústria da qual fazem parte. Fechando o elenco, o Keith Carradine (irmão de David) faz uma espécie de cowboy das antigas cuja moral não acompanhou os tempos modernos.

Amor Fora da Lei é um filme belo e simples que, assim como as meias palavras de seus personagens, diz muito com pouco.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para Amor Fora da Lei

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