A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça

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Encontrei o DVD de A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça esquecido na minha casa e resolvi revê-lo com família e namorada. E a surpresa foi excelente. Não foi apenas um filme bom, mas um grande filme do Tim Burton, como ele não faz há anos. A surpresa não foi apenas ver um filme bom, mas lembrar como o diretor costumava ser bom.

Ichabod Crane (Depp) é um policial no ano de 1799 que acredita que a lógica e a ciência são os métodos corretos para fazer investigações criminais. Seus meios são considerados pagãos devido à religiosidade fervorosa. Porém, recebe a chance de provar sua efetividade indo investigar uma série de homicídios em uma cidade de interior. Lá, descobre que o assassino é um defunto decapitado que se levanta do túmulo atrás das cabeças das vítimas.

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça é a releitura do Tim Burton da história clássica da cultura estadunidense. O diretor usa de seus tons escuros, cenários retorcidos, referência de arte do Expressionismo e o Johnny Depp para dar o tom da adaptação. Além disso, transformou o mistério do fantasma vingativo em uma trama de assassinato complexa com direito a um roteiro muito bem escrito por Andrew Kevin Walker.

O filme abre com a assinatura de alguns documentos e a morte de dois homens que o transportam. Ambos tem a cabeça decepada. Em Nova Iorque, Ichabod Crane é zombado por querer determinar se um corpo encontrado no rio foi assassinado ou morto por afogamento. Após um protesto em desespero contra os métodos de justiça da época, ele vai para Sleepy Hollow investigar os assassinatos. Então o roteiro faz algo muito inteligente. Apresenta a população local, ao mesmo tempo em que apresenta a próxima morte com bastante sutileza. Burton, com inteligência, não mostra a cabeça do assassino. Deixa que o espectador não avisado sobre a trama ache que realmente é um homem, principalmente com o discurso sobre razão de Ichabod.

sleepy-hollow-765071lIchabod com seus instrumentos retorcidos e sujo de sangue.

Subitamente, assim como o espectador, o protagonista testemunha um dos ataques do fantasma. É deixado claro quando Ichabod fala assustado para a câmera e para outros personagens que realmente se trata de uma história de fantasmas. Daí pra frente, Burton não se contém e joga de tudo em cima de Depp, sangue, monstros e corpos cortados aos pedaços. Menos de cinco minutos da revelação da assombração, revela-se também que ela está sendo controlada por alguém e que as mortes servem a alguma conspiração.

Está explicada a adaptação do conto. É uma trama de investigação policial muito ao estilo da Agatha Christie, mas a ferramenta de assassinato é um fantasma. Ao mesmo tempo, é um filme de horror. O passado de vida do cavaleiro é explicado ainda antes da revelação da aparição e a cada encontro do mesmo com Ichabod, o espectador é brindado com alguma perturbadora e nojenta inovação na sua forma de agir. Seja na cena em que persegue um menino embaixo do assoalho da própria casa, seja na forma como precisa matar um homem dentro de terreno sagrado, no qual não pode entrar. Para todas as coisas novas apresentadas, o estilo de Burton brilha.

O diretor não se incomoda em tentar fazer com que o cavaleiro ganhe cenas de terror comum. Muito pelo contrário, o soldado morto é eficiente. Se ele aparece, vai resolver os problemas rápida e facilmente. Mas, antes de ele surgir, pequenos aspectos de sobrenaturalidade dão as caras. Na segunda aparição, sua presença é precedida por uma neblina que parece estar conscientemente apagando as tochas da cidade. Então o defunto aparece e com muita eficiência passa cobrando as cabeças de suas vítimas. Burton o filma de baixo para cima com a intenção de fazer com que ele pareça um monstro enorme.

Quando Ichabod e outros personagens vão aprendendo como lidar com a presença dele, as cenas de suspense e horror vão aos poucos se transformando em cenas de ação. Principalmente quando o filme chega ao seu terceiro ato e Burton cria uma cena de perseguição com carroças e cavalos que está no nível de grandes obras de ação, como Indiana Jones. Não precisa de efeitos especiais mirabolantes, basta conduzir o confronto através das partes separadas da situação com cortes inteligentes e takes bem escolhidos.

Depp empresta seus trejeitos comuns a um Ichabod temeroso, mas ainda decidido em relação ao que acredita. Não é a melhor interpretação dele, mas é muito mais inspirada que metade das coisas que ele fez nos últimos dez anos. A Christina Ricci é uma mocinha que não está necessariamente em perigo, mas ainda é inocente e sedutora com seu ar de confusão. Há de se dizer, Ricci nunca esteve tão bonita quanto nesta produção, quase irreconhecível.

Sleepy_Hallow_720p_www_yify_torrents_com_1_largeMenina Ricci. Irreconhecível.

O elenco de apoio ganha os nomes de Michael Gambon (o eterno Dumbledore), Casper Van Dien, Jeffrey Jones, Richard Griffiths, Ian McDiarmid (na época em que voltou a interpretar o Imperador Palpatine), Christopher Walken, Miranda Richardson (terceiro nome do elenco que participou de Harry Potter) e o Christopher Lee. Todos excelentes.

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça de Tim Burton é um filme de investigação policial redondo e bem fechado, é um filme de horror bem dirigido e inventivo do início ao fim e ainda adapta o conto original com direito a muitos momentos referenciais inteligentes. Além de tudo isso, é um dos filmes que demonstram porquê o diretor se tornou tão adorado como artista. Apesar dos desastres recentes, o título é merecido.

 

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Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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Uma resposta para A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça

  1. Esse filme é sensacional, na minha opinião, um dos melhores de Burton. Johnny Depp ainda não não havia se caracterizado um só personagem, Burton ainda tinha o essência de fazer filmes bons, Christina Ricci realmente estava linda e Sir Walken sempre impecável. O engraçado é que alguns críticos da época, detonaram esse filme. Por isso prefiro não acreditar nas críticas e conferir o filme eu mesmo.

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