Planeta dos Macacos: O Confronto

Dawn of the Planet of the Apes - Poster art

Tem uma característica que sempre me empolga quando assisto um filme. Ela é bem rara e justamente por isso, merece a comemoração por se encontrar neste Planeta dos Macacos: O Confronto. O primeiro e o último quadro do filme são praticamente idênticos, mas com a diferença da jornada pela qual o protagonista passou durante o filme. Esses planos deixam claro, Planeta dos Macacos: O Confronto é sobre o ciclo de transformação do chimpanzé Ceasar, e não deveria ser sobre outra coisa.

Com o término do primeiro filme, 95% da humanidade é infectada e morre devido ao vírus símio, como ele ficou conhecido. Ceasar e o resto dos macacos (na verdade são chimpanzés, gorilas e um orangotango, macacos são de outra espécie) vivem em comunidade e em paz na mata ao lado de São Franscisco que cresceu descontrolada após o desaparecimento da humanidade. Porém, um grupo de humanos está se restabelecendo do outro lado da ponte e eles precisam de energia elétrica que só poderá ser fornecida através de uma represa na área dominada pelos seguidores de Ceasar.

O primeiro filme, A Origem, não era um reboot. Muito pelo contrário, ao invés de reiniciar a franquia com uma nova história, ele se predispunha a ser um conto prévio aos eventos do filme de 1968. O que coloca O Confronto em uma situação complicada. Ele é uma continuação da prequência, fazendo com que o filme tenha que dar continuidade a coisas realizadas no anterior e ainda se encaixar sem erros de continuidade antes da história do filme original. Além disso, precisa dar sequência para a jornada de Ceasar com seus questionamentos sobre civilidade e conflitos “étnicos”.

dawn-planet-apesConflitos inevitáveis. Macaco se impõe sobre uma bandeira americana.

As discussões sobre civilidade ganham um brilho a mais ao mostrar que até pessoas de bem e inteligentes podem cometer injustiças. Ceasar agora se preocupa principalmente com a segurança dos macacos, o que o impede de perceber que existem macacos que podem ser maus assim como humanos que podem ser bons. É uma analogia direta para conflitos regados por ódios antigos. O filme segue o caminho contrário da franquia Como Treinar o seu Dragão. Se lá é vendida uma ideia de esperança para a paz entre pessoas que lutam sem razão real para se odiar, aqui o ódio sempre vence em nossa civilização tão fragilizada. Porém, os realizadores são espertos ao fazer com que Ceasar siga o caminho contrário do protagonista de Charlton Heston no filme clássico. Ceasar é humilde e reconhece que não existe superioridade, nem dos humanos, nem dos macacos.

Os roteirista Rick Jaffa e Amanda Silver recebem o auxílio de Mark Bomback. Eles mantém o nível de qualidade da outra produção, dando para Ceasar e seus confrontos com os humanos tons de tragédias shakespearianas. Os diálogos perdem bastante com falas expositivas que não são muito sutis. Em certa cena, o personagem do Gary Oldman explica para outro humano como eles tem um grande arsenal de armas, algo que todos os humanos da história supostamente deveriam saber. No segundo ato, eles também dão destaque demais para a tensão e os conflitos, deixando de lado momentos tenros que poderiam alimentar o envolvimento do espectador com os personagens. O clima fica muito pesado por conta disso. O que não é necessariamente negativo, apenas incômodo pela falta de respiro.

Na direção, sai o elegante Rupert Wyatt e entra o brilhante Matt Reeves. O diretor faz com que suas cenas abram em planos detalhes ou focadas na ação de um personagem isolado e daí vai permitindo que a mise-en-scène vá revelando os eventos. O espectador vai descobrindo o que está acontecendo enquanto a câmera dá a volta numa árvore revelando uma grande reviravolta na cena ou um personagem entra em foco no fundo do cenário. Além disso, ele orquestra cenas de ação espetaculares como a cena na qual Malcolm, o protagonista humano, tenta se esconder de um grupo de macacos hostis. É um dos planos sequência mais rápido que eu já assisti, provavelmente feito com uma steady-cam nos ombros de um camera correndo atrás do ator Jason Clarke.

A direção de arte consegue ser um espetáculo à parte. Tanto na parte digital com pinturas de guerras e máscaras em alguns dos macacos, quanto na construção do mundo pós-apocalíptico. A arquitetura da comunidade dos macacos parece uma versão mais primitiva dos designs gigantescos do filme de 1968. Os prédios e cidades tomados pela natureza parecem abandonados há dez anos e as roupas e restos que os humanos usam refletem os esforços de pessoas que lutam para sobreviver durante todos esses anos. A fotografia brinca à vontade com jogos de luz e sombra para revelar as intenções dos personagens, sejam eles humanos ou macacos. Até na montagem a genialidade de Reeves se revela. Cada corte conta um pouco a história. Uma cena termina com um personagem afirmando para si mesmo que tudo vai dar certo. O quadro muda para uma pessoa apontando uma arma para a câmera, indicando que esta esperança está errada.

A computação gráfica está visivelmente mais avançada que em A Origem. Se lá era possível ver alguns momentos nos quais os efeitos digitais que criam os macacos pareciam não se adequar ao ambiente, aqui os macacos parecem ainda mais reais que alguns dos humanos. É assustador ver como eles interagem com objetos e partes dos cenários. Eles ainda ficam molhados, sujos e se pintam com marcas de guerra.

pota2Jason Clarke e Andy Serkis. Protagonistas em busca da paz em meio ao ódio.

Os boatos são verdadeiros. Andy Serkis merece um Oscar de melhor ator por sua interpretação de Ceasar. Quando o primata chora é quase possível ver o olhar de Serkis além da computação gráfica, o que também é mérito dos efeitos especiais. Jason Clarke entra no lugar de James Franco como protagonista. Apesar de não possuir metade do carisma de Franco, ainda é um ator eficiente e consegue conquistar espaço de tela mesmo com a presença poderosa de Serkis. Keri Russell está lá quase como uma ferramenta de roteiro, mas tem uma belíssima cena em que é lembrada das coisas que perdeu com o vírus símio que merece destaque. Gary Oldman está ótimo, mas não tem muito material para desenvolver. O Kodi Smith-McPhee retoma a parceria com o diretor depois de ser o ator principal em Deixe-me Entrar. Ele está muito bem e assusta com o quanto está crescido.

Planeta dos Macacos: O Confronto é o próximo passo lógico e adequado para a franquia. Mantém a discussão sobre civilidade revertendo alguns pontos de vista já explorados. Além disso tudo, é um grande filme com uma excelente direção e uma exploração profunda de um personagem trágico e identificável.

 

ALLONS-YYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para Planeta dos Macacos: O Confronto

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