Império do Sol

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A carreira de Spielberg é uma das mais curiosas. Na época em que todos os seus filmes eram basicamente sinônimos de sucesso e ele estava mais poderoso, ele fez esse filme que se tornou um de seus mais esquecidos. O que é uma pena, pois se trata de um filme que merecia ser lembrado por diversos motivos. Os atores, a abordagem sobre a guerra e até o estilo de filmagem são razões mais que suficientes para qualquer pessoa de tempos atuais dar uma verificada.

Jamie é um garoto inglês de 12 anos que vive com sua família rica em Xangai no ano de 1941. Enquanto a Segunda Guerra Mundial é fomentada, uma guerra menor entre a China e o Japão estava em andamento. Com o ataque ao Pearl Harbor, o Japão toma a China e Jamie é separado dos pais e levado para uma prisão junto com outros ingleses e americanos como prisioneiros de guerra.

Se tem duas coisas que Spielberg sabe fazer é retratar visões infantis de assuntos adultos e criar grandes enquadramentos contrastando o micro com o macro. Acompanhar a Segunda Guerra Mundial do ponto de vista de uma criança serve como contraponto às complicações que todos os adultos acrescentam. Jamie é separado de sua família e encarcerado pelos japoneses, mas ainda assim os respeita. Sem o ódio comum que todas as pessoas à sua volta sentem, ele eventualmente compreende que ou os japoneses ou os americanos vão vencer, mas para Jamie só importa reencontrar com a família.

De certa forma ele compreende a guerra melhor que os adultos ao seu redor. Sabe que até mesmo os combatentes são vítimas daquele tempo. Mas além disso, Jamie ama aviação. E ao ver os pilotos japoneses que também são seus carcereiros, não esconde sua admiração e respeito por eles. Spielberg filma isso com sua habilidade padrão. Sequências longas que acompanham Jamie correndo através de diversos contextos de guerra como fugir de pessoas que querem roubar suas roupas limpas e em bom estado, ou fazendo escambo dentro do campo de prisioneiros. É apenas uma criança correndo para lá e para cá quase brincando enquanto situações extremamente sérias acontecem ao seu redor.

7095_4Da pequena para a grande escala. A guerra sob o olhar de uma criança.

Uma cena em especial merece destaque com aquela frase padrão: “Não se fazem mais filmes como antigamente.” Neste caso em especial, é verdade. Em 1987 não havia a tecnologia digital que cria multidões ou grandes cenários de guerra. Então, na hora de criar planos com centenas de pessoas ou com aviões liberando bombas, dá para ter a certeza que é tudo real, sem construção digital. Em certo ponto da trama, a prisão é atacada e o caos é instaurado. Enquanto os adultos correm por suas vidas, Jamie sobe para o topo de um prédio e fica gritando empolgado por poder presenciar seus objetos adorados em ação. Então Spielberg coloca o jovem em primeiro plano, observando na distância aviões voando baixo e acertando bombas que explodem os prédios próximos. Só existiam duas formas de se fazer isso naquele tempo. Ou o menino realmente estava diante das movimentações de aviões ou ele estava em um set reproduzindo o topo do prédio montado diante de uma tela de cinema passando a cena dos aviões. De um jeito ou de outro, esse planejamento gigante de logística rende ao filme uma sensação de realismo muito mais pungente que com qualquer coisa feita em computação gráfica.

A partir de certo ponto, o filme pula três anos para dias antes do final da Segunda Guerra. Nesse salto, revela-se aos poucos a transformação pela qual Jamie passou. O que a princípio é bom, aos poucos se torna cansativo. Por mais que ver as mudanças do garoto seja interessante, a trama demora tanto na rotina dele no campo que o filme fica com a impressão de que nada está acontecendo. Então chega ao clímax, que é interessantíssimo e fecha com um epílogo também lento e infindável. Para piorar, o ator que interpreta Jamie não muda nesse salto. Como ele começa com 12 anos e fecha com 15, a diferença de crescimento deveria ser considerável, mas o menino não revela nenhuma mudança física entre as duas idades.

O menino que interpreta Jamie é um prodígio. Falando a sério, ele passa por níveis de interpretações complicadíssimos. Tem monólogos com transições de emoções complexas, compreensões difíceis para uma mente infantil, além de ser carismático e carregar toda a produção nas costas. Maravilhoso. Mais impressionante ainda quando colocado ao lado de nomes como John Malkovich, estupendo, e Miranda Richardson, um tanto quanto apagada. Ainda há a oportunidade de ver o Ben Stiller mais novo em um papel secundário sem grande importância.

christian_bale_empire_of_the_sun_04Nas palavras de meu amigo: “É um Christian Bale tamanho pequeno.”

Por fim, Império do Sol é válido por sua história poderosa com uma reflexão válida. Porém, sofre com problemas de ritmo a partir de sua metade. Vale mais ainda pelo preciosismo técnico que é único diante da computação moderna e pelo trabalho de interpretação infantil de seu jovem ator. Fiquem de olho nesta criança porque ela tem futuro. Lembre-se sempre do nome Christian Bale. Um dia esse garoto ainda ganha um Oscar.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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