Se Eu Ficar

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Sabe aqueles dramas esquisitos que passam com alguma frequência na Sessão da Tarde? Filmes com tramas melodramáticas que mais se assemelham a novelas mexicanas, interpretações terríveis de atores que são desconhecidos por merecerem e diálogos terríveis que não sustentam nenhuma cena. Caso nunca tenha visto algo parecido, Se Eu Ficar é a chance de conhecer.

Mia (Moretz) está em um passeio de carro com a família quando sofrem um acidente. Ela acorda fora de seu corpo e descobre que está em coma. A partir daí precisa pesar os valores de sua vida antes e depois do acidente para conseguir encontrar seu caminho.

O filme é adaptação do best-seller norte americano de mesmo nome. No Brasil foi lançado pela editora Novo Conceito e já tem vendido bastante bem. Ao mesmo tempo em que é um drama sobre morte, vida e os valores envolvidos, também é um romance infantojuvenil. As coisas que Mia precisa pesar em sua situação estão relacionadas à sua família, mas muito mais ao seu namorado.

Família feliz. Não é mais importante que o amor.

Família feliz não é mais importante que o amor.

A roteirista Shauna Cross começa a trama com o dia do acidente até o momento em que ele ocorre. Então, uma vez que Mia começa a interagir com o mundo que não vê sua versão entre a vida e a morte, a história é contada em paralelo a flashbacks que explicam a vida da garota. Um dos problemas dessa escolha é que parte dos flashbacks começam antes do acidente, completamente fora de lugar. Por mais que a ideia estrutural seja interessante e a proposta abra espaço para um desenvolvimento rico, Cross escreve péssimos diálogos que muitas vezes caem na incoerência. Além disso, o roteiro sofre com uma falta de profundidade tediosa. Todos os motivos e causas para a vida de Mia são resumidos no romance mambembe com o namorado. Os dois são “perfeitos” um para o outro. De longe o casal mais perfeito e insosso desde a “saga” Crepúsculo. Lindo e superficial, como grande parte das reflexões de adolescentes.

O diretor R. J. Cutler é daqueles que chega ao set sem planejamento de enquadramentos nem nada do tipo. Apenas escolhe um canto que captura os atos dos atores e coloca a câmera lá. Não tem construção de cena, ambientação, narrativa através da linguagem. Nada, apenas uma série de cenas mal dirigidas e mal escritas. A fotografia brinca um pouco com tons monocromáticos, luzes fortes e uma leve falta de foco para passar a sensação de um mundo espiritual.

A trilha musical é terrível. E considerando que se trata de um filme com grande parte dos personagens envolvidos com música, isso é um pecado. A música precisa comentar cada pequeno momento, mesmo quando as ações já falam o suficiente por si mesmas. Como a roteirista faz questão de dar falas para a Mia explicando coisas óbvias que acabaram de acontecer e o acréscimo de voice-over da personagem narrando eventos que estão sendo mostrados, o filme fica terrivelmente repetitivo e expositivo.

Os efeitos especiais são muito ruins no quesito de mundo espiritual. Eles se resumem a luzes e fumaças mal feitas. Em certo ponto existe um vislumbre do paraíso, que se parece com um desenho não finalizado. A cena de abertura do filme começa com nuvens e movimentos de câmera seriamente problemáticos. O único efeito que merece algum destaque é a sobreposição da cabeça da atriz Chloë Moretz sobre o corpo de uma dublê nas cenas em que a personagem está tocando violoncelo. Moretz provavelmente não sabe tocar o instrumento, mas, para aparecer tocando músicas e arranjos complexos, seu rosto é encaixado com muita eficiência em cena. Causa algum estranhamento aqui e ali, mas considerando o que é e a tecnologia atual, é impressionante.

tumblr_n7ol9h5oST1txydcmo1_1280Moretz inserida digitalmente na dublê.

Moretz está se esforçando ao máximo para dar naturalismo com sua interpretação de Mia, mas os péssimos diálogos e a má direção de atores de Cutler fazem com que ela derrape com frequência. Somando ao fato de que a atriz, tão vinculada a imagem de mulher forte que se impõe, parece deslocada ao fazer uma personagem vulnerável e insegura. Se Eu Ficar conta com sua pior interpretação até o momento. Ainda assim, ela garante alguns momentos poderosos, como a cena em que descobre uma tragédia pessoal e se joga no chão esbravejando contra a vida. O resto do elenco também se esforça, mas não consegue nem chegar perto da presença de tela que Moretz possui e, portanto, fica apagado.

Não fosse a origem de um livro de sucesso e um grande nome como o de Moretz, Se Eu Ficar provavelmente estaria limitado ao lançamento em home video e TV, que é o seu lugar.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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4 respostas para Se Eu Ficar

  1. Pingback: Filmes ruins de 2014 | Aquela velha onda.

  2. Aline Cesar disse:

    Eu até entendo que esses filmes são um porre, mas incluir Cloe Grace Moretz como atriz pouco conhecida …! Se vc diz que ela não é boa atriz até entenderia, pois cada um tem sua opinião. E, até os mais aclamados atores já atuaram em filmes ruins.

    • Vina disse:

      Concordo que até os mais aclamados atores já atuaram em filmes ruins e não devemos julgá-los por isso. Não julgo Moretz por ter trabalhado aqui, principalmente porque ela aparentemente gostou muito do filme final. Eu a julgo pela interpretação no mesmo, que é a pior que ela entregou entre os filmes que assisti.
      Quanto a ela ser pouco conhecida, eu não disse isso no texto. Eu disse que Se Eu Ficar se encaixa em um estilo de produção na qual os atores normalmente são desconhecidos. Compreendo que possa ter ficado confuso e admito que isso se deu por falha na minha escrita. Mas se você ler o texto até o final vai perceber que, no último parágrafo, eu digo que o nome dela é grande.

  3. Pingback: A 5ª Onda (The 5th Wave – 2016) | Aquela velha onda.

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