A carta de Martin Scorsese para sua filha

Director Martin Scorsese arrives at The Royal Premiere of his film Hugo at the Odeon Leicester Square cinema in London

Já tem algum tempo que a famosa carta de Martin Scorsese foi liberada nas internets, mas com o último filme do Wes Anderson a carta voltou à memória. Em grande parte porque eu adoro dizer que um dos meus diretores favoritos é um dos diretores favoritos do Martin Scorsese. Não é nada demais, apenas é divertido saber dessa relação com uma das pessoas que mais amou cinema na história.

Para quem não sabe sobre a carta, Scorsese fala para a filha sobre as esperanças que ele tem para a indústria cinematográfica. O texto vai da época em que tinha dificuldades para conseguir fazer um filme nas décadas de 1970 e 1980 até os avanços tecnológicos e de narrativa criados por diretores corajosos.

Além de Wes Anderson, Scorsese fala de outros grandes diretores atuais. Dentre eles, James Gray, Paul Thomas Anderson, Alexander Payne, David Fincher, os irmãos Coen e Richard Linklater. Todos eles fazem filmes que não seguem tendências que rendem dinheiro e ainda conseguem lançar suas produções comercialmente.

Para quem quer ficar um pouco mais otimista com o cinema, segue abaixo a carta traduzida.

“Querida Francesca,

Estou escrevendo esta carta para você sobre o futuro. Estou olhando para ele através das lentes do meu mundo. Através das lentes do cinema, que tem sido o centro desse mundo.

Pelos últimos anos, eu percebi que a ideia de cinema com a qual cresci, que está lá nos filmes que tenho mostrado pra você desde que você era uma criança, e que estavam fazendo sucesso quando eu comecei a fazer filmes, está chegando ao fim. Eu não estou me referindo aos filmes que já foram feitos. Estou me referindo aos que estão por vir.

Não quero soar desesperado. Não estou escrevendo estas palavras em espírito de derrota. Pelo contrário, acho que o futuro é brilhante.

Nós sempre soubemos que os filmes eram um negócio, e que a arte do cinema era possível porque se alinha com condições de negócio. Nenhum de nós que começou nos 60s e 70s tinha alguma ilusão neste tópico. Nós sabíamos que nós teríamos que trabalhar duro para proteger o que amávamos. Também sabíamos que talvez teríamos que passar por alguns períodos difíceis. E suponho que percebemos, em algum nível, que viríamos a lidar com um tempo no qual todo inconveniente ou elemento imprevisível no processo de realização cinematográfica seria minimizado, talvez até eliminado. O elemento mais imprevisível? Cinema. E as pessoas que o fazem.

Eu não quero repetir o que foi dito e escrito por tantos antes de mim, sobre todas as mudanças no negócio, e estou empolgado pelas exceções da tendência geral na realização fílmica – Wes Anderson, Richard Linklater, David Fincher, Alexander Payne, os irmãos Coen, James Gray e Paul Thomas Anderson estão todos conseguindo fazer filmes, e Paul não apenas fez O Mestre em 70mm, como ainda distribuiu desta forma em algumas cidades. Qualquer um que se importa com cinema deveria estar agradecido.

E também estou movido pelos artistas que estão continuamente conseguindo fazer seus filmes através do mundo, na França, na Coreia do Sul, na Inglaterra, no Japão, na África. Está ficando mais difícil o tempo inteiro, mas eles estão fazendo os filmes.

Mas não acho que sou pessimista quando digo que a arte do cinema e do negócio de filmes estão agora em uma bifurcação. Entretenimento audiovisual e o que nós conhecemos como cinema – imagens que se movimentam concebidas por indivíduos – aparentam estar apontando para direções diferentes. No futuro, você provavelmente verá menos e menos do que nós reconhecemos como cinema ou telas multiplex e mais e mais de salas pequenas, online, e, suponho, em espaços e circunstâncias que não posso prever.

Então por que o futuro é tão brilhante? Porque pela primeira vez na história da forma da arte, filmes realmente podem ser feitos por muito pouco dinheiro. Isso era inédito quando eu crescia, e filmes de orçamento extremamente baixos sempre foram a exceção ao invés da regra. Agora é o contrário. Você pode conseguir imagens bonitas com câmeras acessíveis. Você pode gravar som. Você pode editar e mixar e corrigir cores em casa. Isso tudo aconteceu.

Mas com toda a atenção para o maquinário de produção de filme e para os avanços na tecnologia que lideraram essa revolução em realização de filmes, existe uma coisa importante a ser lembrada: as ferramentas não fazem o filme, você faz o filme. É libertador pegar uma câmera e começar a filmar e juntar tudo com Final Cut Pro. Fazer um filme – o que você precisa fazer – é algo diferente. Não há atalhos.

Se o John Cassavetes, meu amigo e mentor, estivesse vivo hoje, ele iria certamente estar usando todos os equipamentos disponíveis. Mas ele estaria dizendo as mesmas coisas que ele sempre dizia – você precisa ser absolutamente dedicado ao trabalho, você precisa dar tudo de si, e você precisa proteger a faísca da conexão que te levou a fazer o filme à princípio. Você precisa protegê-la com sua vida. No passado, porque fazer filmes era tão caro, nós tínhamos que proteger contra exaustão e compromisso. No futuro, você terá que se fortificar contra outra coisa: a tentação de ir com a maré, e permitir que o filme se perca e vá embora.

Não é apenas uma questão de cinema. Não há atalhos para nada. Não estou dizendo que tudo deve ser difícil. Estou dizendo que a voz que te acende é a sua voz – essa é a luz interior, como os Quakers dizem.

Isso é você. Essa é a verdade.

Todo o meu amor,

Papai.”

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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