Refletindo sobre bilheterias

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Recentemente foram liberadas duas listas de bilheterias que merecem alguma consideração. No Brasil, a Ancine emitiu um relatório sobre as bilheterias brasileiras no primeiro semestre de 2014 e nos Estados Unidos o site Joblo (não cita fontes) divulgou duas listas com as dez maiores bilheterias do país e do mundo. E algumas coisas devem ser levadas em conta.

O relatório da Ancine trata de diversos aspectos além dos filmes que mais renderam. Sua lista também trata do crescimento de público nos cinemas, dos filmes nacionais que mais fizeram sucesso, quais foram os tipos de filme e várias outras informações que podem ser interpretadas dos números.

Dentre as mais interessantes, a audiência neste semestre cresceu 10% em relação ao mesmo período do ano passado, mas com queda de bilheteria para filmes nacionais. Ou seja, tem mais gente indo ao cinema, mas menos para ver filmes produzidos por aqui. O bicho pega quando se percebe que dentre os 55 filmes brasileiros lançados no primeiro semestre, 11 deles rendeu 96% da renda total de cinema nacional. Desses 11, os quatro que entraram na lista dos mais vistos são típicos da Globo Filmes. Comédias como Até que a Sorte nos Separe 2 e S.O.S. Mulheres ao Mar.

Isso pra mim é apenas uma demonstração de como o cinema nacional está perdido. Enquanto os filmes são pagos não pela bilheteria, mas pelo Estado, produções baratas como as supracitadas rendem muito dinheiro. Ao mesmo tempo, filmes de qualidade que certamente exigem mais esforço de produção são praticamente ignorados. O que significa que a intervenção estatal nos financiamentos cinematográficos rende pérolas. Se o cinema brasileiro funcionasse tal qual o americano, grandes nomes como Kleber Mendonça Filho e o Selton Mello (O Palhaço é um dos meus filmes brasileiros favoritos) não teriam emprego como diretores.

Por outro lado, os filmes internacionais com maior bilheteria não tem nenhuma surpresa. Rio 2, Frozen, Malévola, X-men e por aí vai. A única exceção é o filme Noé, que eu nunca imaginaria ver ali. Não apenas no meio, mas o filme com a maior arrecadação de dinheiro e o segundo com mais espectadores. Rio 2 teve mais bilhetes comprados, mas Noé rendeu mais dinheiro. O motivo se dá porque Rio 2 se vendia muito em sessões mais cedo e para crianças, ambos diminuem o preço do ingresso. Já Noé foi para pessoas mais velhas que precisam pegar sessões ou mais tarde ou no fim de semana. Em grande parte, pessoas adultas. Ou seja, foram menos ingressos mais caros.

Mas a posição de Noé faz sentido. A população tipicamente religiosa do Brasil foi em peso assistir à versão do personagem bíblico do carinha que fez o Gladiador, um filme que foi amplamente bem aceito pelo público conservador. A ironia é que grande parte das pessoas que foram assistir com este propósito não gostaram do filme, mesmo que a crítica, pelo menos a brasiliense, o tenha adorado.

Já em relação aos filmes do verão americano, o que mais assusta é perceber que Transformers 4 rendeu mais de um bilhão de dólares ao redor do mundo. Enquanto isso, Guardiões da Galáxia rendeu aproximadamente metade. Nos Estados Unidos, a adaptação da Marvel ficou em primeiro lugar, deixando os robôs megalômanos do Michael Bay em segundo. Entre diversas porcarias, é um prazer ver que bons filmes entraram nessas listas, como No Limite do Amanhã (364 milhões ao redor do mundo), Como Treinar o seu Dragão 2 (592 milhões), Godzilla (508 milhões) e Planeta dos Macacos: O Confronto (611 milhões).

Isso apenas revela que o seguimento de arrasa quarteirões do ano teve muitos filmes excelentes que podem contar com boas histórias para render dinheiro. O que faltou na lista americano foi o mega sucesso brasileiro, A Culpa é das Estrelas, que ficou entre os maiores sucessos no Brasil.

Além disso tudo, o pessoal do Joblo aponta algumas coisas interessantes além da lista. Primeiro que, apesar da renda global, No Limite do Amanhã e Como Treinar o seu Dragão 2 mal conseguiram se pagar. O que apenas aponta que o erro nos dois casos foi o valor dos filmes, afinal de contas, eles renderam dinheiro pra caramba. Segundo, filmes com protagonistas femininas foram grandes sucessos, como Lucy e Malévola. Terceiro, apesar de ser um grande sucesso, O Espetacular Homem-Aranha 2 foi o filme da franquia do cabeça de teia que fez menos sucesso. Sim, até o Tobey Maguire emo dançante deu mais dinheiro. E quarto, aparentemente a série Uma Noite de Crimes se estabeleceu de vez como o novo Jogos Mortais. Os dois filmes da franquia renderam cada um dezenas de vezes seus custos. O que faz com que ambos, mesmo não listando como os maiores sucessos, são os maiores lucros por dois anos seguidos.

Os números indicam, na minha opinião, duas coisas. O cinema precisa mudar seus conceitos mercadológicos, como análises do ano passado já davam pista. E o mercado nacional precisa aprender a distribuir melhor os orçamentos para as produções brasileiras.

 

ALLONS-YYYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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