Festa no Céu

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O nosso cinza e sofrido dia dos finados tem um viés muito mais interessante no México. Aqui nós apenas visitamos o cemitério, enquanto por lá existe toda uma festa rica e colorida com uma perspectiva muito mais positiva em relação à passagem desta vida. Festa no Céu chega para compartilhar com o mundo a beleza da tradição.

As entidades La Muerte e Xibalba apostam seus reinos entre si. Ao observarem três crianças brincando, dois garotos e uma menina, cada um escolhe um dos meninos apostando qual deles irá conquistar a garota. Ela, Maria, vai estudar em terras estrangeiras. Os dois crescem como grandes amigos e as grandes celebridades da cidade. Um deles, Manolo, foi criado para ser o novo toureiro. O outro, Joaquim, é o novo herói militar. O retorno de Maria vai fazê-los tentar se revelar como os grandes homens que deverão conquistá-la.

book-of-lifeLa Muerte e Xibalba. Viciados em apostas.

A brincadeira é simples, criar um filme que apresente para todo o mundo a riqueza da cultura mexicana. Para isso, colocam os estilos das celebrações dos dias dos mortos no design de produção e assumem o ritmo rápido e repleto de gags das animações em CG americanas.

O diretor/roteirista Jorge R. Gutierrez usa da história dos três personagens humanos para apresentar as pequenas características daquela mitologia. É preciso representar todo um universo. São três dimensões espirituais, três entidades “divinas”, regras que ligam os mundos e os “deuses” e como isso modifica a rotina das pessoas naquela cultura. Tudo minuciosamente explicado. Sejam as touradas, como modernizá-las (o evento se resume em massacre e tortura de animais), os heróis típicos, as expectativas paternalistas.

O problema é que para começar a história realmente, com o trio principal, o filme precisa passar por diversas camadas de narrativas introdutórias. Primeiro contextualiza nos Estados Unidos com um grupo de crianças americanas em uma excursão. Depois apresenta as divindades e sua aposta. Só então apresenta os meninos e seus conflitos. Imediatamente já deixa claro para qual dos dois deve torcer e já inicia as jornadas de cada. Toda essa parte é super acelerada para explicar tudo isso e fica estranha.

Quando os três envelhecem e viram adultos o ritmo diminui bastante e a narrativa começa a fluir melhor. Manolo tem a pressão de se tornar um grande toureiro, mas não quer participar da crueldade com os pobres animais. A sociedade paternalista em que vive, porém, o considera uma vergonha por isso. Enquanto isso, Joaquim é um grande guerreiro que pode ser a salvação contra um famoso bandido local. Ao mesmo tempo, Maria volta da Europa com conceitos mais avançados. Por isso surpreende ao renegar a competição entre os amigos, como se não tivesse o direito de escolher por si mesma.

O filme homenageia a beleza e as cores vibrantes da cultura que referencia, mas não deixa de criticar as mazelas da mesma. Rapidamente fica óbvio que Manolo e Maria foram feitos um para o outro e que Joaquim é um cara mais superficial e que não vai respeitá-la como o amigo, mas o filme nunca cai na armadilha fácil de fazer com que Joaquim seja o vilão ou que Maria se torne uma mocinha em perigo. Ele é apenas um homem bom com ignorância acerca de certos comportamentos. Ela é uma mulher autossuficiente que cuida de si mesma e não depende de homens. E o melhor, a amizade dos três é fundamental para o final da história. Não é um filme sobre um herói que salva o dia. É sobre pessoas que se unem para serem mais do que apenas indivíduos isolados. A história desenvolve acelerando o passo até chegar ao inspirado clímax, para o qual todas as tramas paralelas conduzem.

joaquin manolo maria THE BOOK OF LIFEJoaquim, Manolo e Maria. Mais fortes unidos que separados.

Para seguir o padrão estético mexicano, a história é contada por uma guia de museu para três crianças através de bonecos. Quando os protagonistas tomam conta da tela, eles são feitos de bonecos de madeira mexicanos. O design os reconstrói com uma impressionante qualidade técnica. As cores vibrantes, os narizes deformados, os mortos esqueléticos pintados.

Gutierrez faz do filme um musical. Chama o premiado compositor Gustavo Santaolalla para compor músicas originais e adaptar canções pop americanas para estilos mexicanos. Na versão nacional, diversas delas ganham uma tradução riquíssima. Inclusive a adaptação de Creep, que ganhou letra em português melhor que em inglês e uma bela melodia em violão. A versão de Santaolalla para Ecstasy of Gold é a melhor desde que o Metallica fez cover da música. Mas o grande destaque é a “The Apology Song”, que tem versão em inglês, espanhol e em português e exalta o erro da morte de milhares de touros através da história do México.

Uma grande animação com valores honestos. Do tipo que um pai pode ter orgulho de levar os filhos para assistir. Nada de rebaixar mulheres ou de transformar homens em estereótipos machões. Além de enriquecer com a cultura mexicana e uma visão muito interessante sobre a separação causada pela morte.

 

JOAQUIIIIIIIIIIIIM…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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