Boyhood: Da Infância à Juventude

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Até a chegada deste Boyhood, a carreira do Richard Linklater se resumia a dois filmes com renderização de imagem sobre atores filmados e uma trilogia baseada no diálogo de duas pessoas. Agora ele tem sérias chances de levar o Oscar pra casa por um filme no qual acompanha o crescimento de um garoto através de 12 anos. Quando faz filmes mais experimentais é que Linklater está melhor.

Mason Junior (Coltrane) reflete sobre os valores de cada momento significativo e sobre quem realmente é através de 12. Ele e sua irmã Samantha (Linklater) são filhos de pais separados e vivem com a mãe (Arquete). Através desses 12 anos, ela tenta dar para os dois um lar decente enquanto o pai (Hawke) busca se tornar merecedor deles.

A ideia é experimental. Não apenas o menino principal, mas todo o resto do elenco vai envelhecendo a medida em que o filme passa. Isso permite pequenas oportunidades de direção de arte, como colocar porta retratos no final do filme com fotos reais do elenco mais jovem juntos. Um filme, entretanto, não é feito apenas de pessoas passando o tempo. É preciso ter uma história, e Linklater se aproveita da jornada que faz para filosofar sobre as efemeridades que se tornam óbvias com a passagem do tempo e sobre o que define a identidade de um jovem se tornando adulto.

Desde de 2002 até 2014, Linklater e a equipe se reuniam com o elenco uma vez por ano para fazer um pouco mais do filme. Para cada transição, Linklater faz um corte em que sugere uma continuidade das ações. Em um ponto, Mason vê a mãe interagindo com um homem. Um corte dá a noção de que os dois casaram e quando o menino reaparece em cena, nota-se que ele está mais velho. Assim a história flui melhor. Em 12 anos, muita coisa acontece e muda na vida de uma pessoa. Amores vem e vão, pessoas mudam, saem de casa, mudam de cidade. Eventualmente, metade dos eventos da vida de Mason ficam esquecidos porque as pessoas seguem em frente.

ellarmasterMason através dos anos.

Isso é importante para a reflexão do filme. Tantas pessoas influentes passam pela vida de Mason e elas não são completamente esquecidas, mas também desaparecem. Qual foi o valor real das relações se no final é tudo passageiro? Ao mesmo tempo, por mais que essas pessoas deixem de fazer parte da vida de Mason, todas são influentes na sua formação de personalidade. Quando mais maduro, grande parte dos diálogos dele envolvem essas questões. Como ser independente da vontade dos outros? Como saber quem é de verdade se você está sempre conectado ao que as pessoas ao redor são? Qual o valor dessas pessoas se elas eventualmente se afastarão?

Isso tudo é muito bom, mas com tanto material através de tanto tempo, o filme fica com quase três horas de duração. Nesse tempo todo, Mason vê dois padrastos passarem, dois meio irmãos se afastarem, namoradas e amores se rompendo, cidades ficarem pra trás. São tantos exemplos que servem ao questionamento que o filme peca pelo excesso. Não precisava de tanto tempo nem de tantas subtramas para levantar as questões. A duração no final acaba cansando. Tivesse meia hora a menos, o filme seria muito superior.

Família unida.

Família unida com uma das avós.

Seguir um menino envelhecendo também revela uma aposta complexa. Não há como saber como os atores mirins serão como adolescentes e jovens adultos e se suas capacidades de interpretação mudarão. Vemos Ellar Coltrane sair da infância até os 18 anos e a garota Lorelei Linklater (filha do diretor) chegar até os 20. Como crianças e adolescentes, os dois não passam do irritante. Mais velhos, ele melhora muito. Ela, por outro lado, parece estar sempre com insônia, distante das cenas que interpreta. Os dois estão tão fracos em grande parte do filme que fazem com que os veteranos Ethan Hawke e Patricia Arquete pareçam ainda melhores do que já são.

O filme já é o grande favorito na temporada de premiações do ano que vem. Acho que a posição é questionável, mas ainda é preciso reconhecer o valor da experiência de Linklater. É fascinante pensar que, dos outros cinco filmes de sucesso dele, apenas dois estavam concluídos na época em que começou a fazer Boyhood.

 

ALLONS-YYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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3 respostas para Boyhood: Da Infância à Juventude

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