Mais um pouco sobre Interestelar (com spoilers)

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Interestelar foi um caso curioso na carreira do Christopher Nolan como diretor. Não porque o filme é único entre sua obra, mas pela recepção da crítica. Porque muita gente o recebeu como trabalho de gênio e muita gente ficou muito incomodada com os defeitos que existem no filme. Então vamos revisar um pouco esses defeitos (que realmente estão no filme).

A primeira grande reclamação da crítica é o nível de exposição. Para quem não sabe, exposição é um recurso de roteiro no qual conceitos que são importantes para compreender o resto do filme são explicados de um personagem para outro de forma que a plateia aprenda de forma lógica. Assim, o espectador aprende e entende o mundo do filme e compreende o que acontece através da obra.

A partir do momento em que o protagonista de Interestelar e sua filha Murph chegam na NASA, os cientistas do lugar começam a explicar para ele os conceitos que serão importantes para a viagem espacial que tomará conta do segundo ato. Todas essas explicações duram uns dez minutos. E são muitas explicações. Tantas que chegam a ser confusas. Ainda assim, não foram o bastante. Mesmo depois que Cooper larga a família em casa, vai para o espaço, passa dois anos dormindo antes de chegar em Saturno, entra no buraco de minhoca e sai em outra galáxia o filme continua explicando coisas. Na verdade, mesmo quando chega ao final do terceiro ato o filme ainda tem explicações.

Isso incomodou muita gente porque as pessoas esperavam de Interestelar a versão do Christopher Nolan de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Qualquer um que assistiu 2001 sabe que aquele filme não explica muita coisa e o que explica o faz através de imagens e montagem. Porém, Nolan é inteligente o bastante para não se propor a fazer algo semelhante a Stanley Kubrick. Ele coloca várias referências a 2001 no filme, mas não quer ser tão grandioso em termos cinematográficos. Seria burrice se comparar a um dos maiores diretores de todos os tempos.

Eu considero o nível de exposição de Interestelar um pouco incômodo, mas não acho que ele estraga o filme. Principalmente porque toda a exposição trata de um tema que acho muito interessante, o universo. Então era um prazer assistir a todas as discussões acerca da ciência cósmica.

O outro problema visto pela crítica no filme é muito mais sério.

No terceiro ato, o protagonista Cooper toma a decisão de se sacrificar para que a colega Brand consiga ir para o terceiro planeta com possibilidade de vida e se reencontre com o amor de sua vida. Então ele se joga num buraco negro para que ela tenha o impulso para escapar da gravidade do mesmo. Dentro do buraco negro, ele se descobre dentro de um hipercubo. Um espaço de cinco dimensões. Esse hipercubo em especial é a representação do quarto da Murph, sua filha, através do tempo.

Um pouco mais de exposição. Cooper e o robô que caiu no buraco com ele dialogam e ambos chegam à conclusão de que quem fez aquele hipercubo dentro daquele buraco negro foi a humanidade no futuro. Os humanos mais avançados sabiam que Murph seria capaz de encontrar a fórmula para sobreviver no espaço e que daria o passo para conseguirmos controlar as dimensões, mas para isso, ela precisaria que os seres do futuro mandassem a fórmula para ela. Então eles criaram o hipercubo para que o pai dela caísse lá e mandasse a mensagem.

Esqueça a falta de lógica temporal. Ninguém descobriu a fórmula, o futuro mandou para o passado que a usou e passou para o futuro. Isso é um defeito básico de filmes que brincam com linhas temporais. O problema é a discussão que surge daí. Depois dessa exposição, o robô percebe outro conflito. Como vamos saber em que ponto do tempo e como explicar para uma mulher uma fórmula de forma que ela compreenda? O personagem de Cooper então responde, o amor é algo que pode ser quantificado na quinta dimensão e serve de guia através do tempo. Por isso ele sabe que vai conseguir mandar a mensagem para a filha.

O filme (que até então era sobre exploração espacial, comparação do macro de salvar a humanidade com o micro de um pai tentando encontrar a filha, e um tanto de filosofia) de repente se resume a amor. O amor que é a resposta para todo o diabo do universo. Antes houve uma belíssima cena de apresentação do conceito com um diálogo da Anne Hathaway. Por melhor que seja, o diálogo não é suficiente para engolir essa loucura.

Daí Nolan busca seu epílogo com tom de final emocional. Para isso, joga a lógica pela janela ao fazer com que a humanidade não se importe com um herói de engenharia espacial que voltou para casa após oitenta e tantos anos longe sem envelhecer. Tanto que o cara precisa roubar uma nave depois, mesmo sendo um herói que encontrou, em teoria, um lugar para a vida humana continuar. Por que não levar toda a humanidade para esse planeta novo com ele? A resposta: para que o filme tenha um ponto final com tom emotivo.

Após apontar todos esses defeitos, reitero o que disse junto do Pablo no nosso vídeo review. Interestelar é um ótimo filme.

 

GERÔNIMOOOOOOOO…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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