50 Tons de Cinza

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Existe uma teoria que diz que é possível ver a capacidade de um diretor com apenas cinco minutos de um filme. Um bom trabalho na ambientação já denota um grande trabalho técnico pelo resto da produção. No caso de 50 Tons de Cinza, a teoria é adequada, mas engana. A qualidade do filme não corresponde aos talentos envolvidos.

Anastasia Steele (Johnson) é uma graduanda de literatura inglesa que faz um favor para a colega de residência que estuda jornalismo. Com algumas perguntas anotadas e um gravador, entrevista o empresário milionário que apadrinhou a formatura, Christian Grey (Dornan). Imediatamente surge uma atração entre ambos e o possível romance encontra um impasse. Ela é inocente e recatada, ele gosta de sadomasoquismo. Eis uma proposta interessante. Trata-se de um conflito romântico original e com potencial para revelar um estilo de vida curioso e escondido pelo conservadorismo.

O filme abre com uma montagem inteligente. De um lado, takes rápidos mostram a rotina de Grey, de outro, da Anastasia. As posições deles nos takes revelam algumas semelhanças e que ambos seguem para caminhos comuns. A grande diferença é que ele vive no meio empresarial, com fortes tons metálicos que deixam tudo com cores cinzas (vale lembrar que o nome dele, Grey, significa cinza) e ela vive na faculdade, com cores mais fortes, e usa roupas com tonalidades florais. Assim que chega para a entrevista no escritório dele, fica claro que ela não é adequada ali e também é a única coisa colorida no mundo cuidadoso dele.

Denota-se uma direção esperta e eficiente. De quem sabe fazer um filme. Ela brinca com a fotografia e a arte para criar os conceitos trabalhados na história. Sam Taylor-Johnson, a diretora, se esforça para garantir ao texto um nível de qualidade que seria superior ao conteúdo questionável do livro de sucesso. Basta uma pequena troca de frases entre Anastasia e Christian, porém, para que os problemas se revelem.

Dentre as perguntas na entrevista, Anastasia questiona doações filantrópicas do milionário. Ele diz que elas são boas para o negócio. Então ela solta: “Talvez você tenha um coração mais bondoso do que acha.”. Trata-se de uma garota prestes a se formar em Literatura Inglesa em uma conversa com um milionário excêntrico e cínico. Por mais que ela seja inocente e pura, como o roteiro faz questão de tentar convencer, ela nunca diria algo do tipo naquela situação. Assim, com uma fala, o péssimo roteiro passa rasgando através da camada de qualidade técnica de 50 Tons de Cinza.

Esse defeito se reflete em quase todas as camadas da narrativa.

Estruturalmente, o filme é apenas um primeiro ato muito longo. Os dois se envolvem, se apaixonam, transam feito coelhos e eventualmente percebem que talvez não sejam capazes de superar a barreira dos interesses sexuais dele. O problema é que este primeiro ato, que normalmente não dura mais do que meia hora de um filme, se arrasta por duas horas e acaba quando o conflito finalmente se apresenta. O tempo que sobra é gasto em muitos momentos românticos de Anastasia e  Christian aos suspiros e cenas de sexo que não são importantes, em sua maioria, para a história e ficam repetitivas depois de algum tempo.

50-shades-of-grey-official-trailer-01Cenas de sexo em excesso criam ritmo tedioso.

Os personagens são falhos. A personalidade de Anastasia é uma folha em branco. Ela gosta de literatura, mas nunca exprime isso. Não tem gostos verdadeiros, apenas se apaixonou por Christian e tem dificuldade de se render aos sentimentos. É um recurso comum de romances. A mocinha não tem profundidade. Então, quando sente o amor que é tão idolatrado, a leitora do sexo feminino tem facilidade para se projetar nela.

Christian, por sua vez, é um pecado ainda maior. Ele tem sérios problemas psicológicos e precisa ter controle sobre tudo. Inclusive sobre Anastasia. Ela, assim como o roteiro, confunde isso com amor. No mundo da psicologia, é um sintoma um tanto quanto assustador de psicopatia. Ele não ama Anastasia, mas o poder que exerce sobre ela. Como Kelly Marcel, a roteirista, e E. L. James, a autora do livro, aparentemente não sabem o que é isso, vendem que o interesse de Grey em sadomasoquismo é fruto de traumas de infância. Ou seja, quem gosta de sexo diferente sofre de algum tipo de transtorno mental. O próprio filme é preconceituoso com o protagonista e com o grupo que quer representar.

holding-fifty-shades-of-grey-what-is-it-like-to-film-a-sex-scene-not-as-hot-as-you-d-thinkGrey é doente por gostar de sadomasoquismo. Preconceito no roteiro.

Dakota Johnson e Jamie Dornan não são exatamente ruins, mas os personagens e o texto são. Os dois atores apenas refletem o péssimo material com o qual tem que trabalhar. O filme não vale nem pelas risadas que provoca porque até as bem dirigidas cenas de sexo cansam pelo excesso e fazem com que as duas horas de duração pareçam ser cinco. Se o interesse é ver um romance que trate de sadomasoquismo com sinceridade, recomendo procurar o ótimo Secretária, de 2002, e fugir de 50 Tons de Cinza.

 

ALLONS-YYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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3 respostas para 50 Tons de Cinza

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