O Duelo

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Não há como contestar que o José Wilker foi uma figura importantíssima para o cinema nacional. O grande ator participou de produções e movimentos significativos para a história da arte no Brasil. Ainda assim, é difícil não lembrar dos muitos absurdos dos discursos dele acerca do cinema internacional diante de trabalhos de qualidade duvidosa como este O Duelo.

Um comandante naval português chamado Vasco Moscoso de Aragão (Almeida) se muda para a cidade de Periperi, no interior litorâneo do Rio de Janeiro e imediatamente se torna a novidade local. A população adora ouvi-lo contar histórias sobre a vida marítima e os conhecimentos sobre o mundo. Até o retorno do viajado Chico Pacheco (Wilker) que, com inveja ao perder o posto de conhecedor global na cidade, começa a questionar a veracidade das histórias do suposto comandante.

A história discute a superficialidade da opinião pública acerca das celebridades que elege e os valores que essa opinião tem para tais figuras. O roteiro de Marcos Jorge, que também dirige a produção, brinca com isso de maneira bastante irônica e com uma linguagem que é tipicamente brasileira. A qualidade da obra, infelizmente, não é do texto de Marcos Jorge, mas do material que adapta, a obra Os Velhos Marinheiros do autor Jorge Amado. Todas as qualidades do filme se encontram nos diálogos inspirados que transitam do formal extremo para o coloquial chulo (que Wilker sempre dominou em sua interpretação, vide a fama das falas ditas por ele em Bonitinha, Mas Ordinária). Enquanto Vasco exala elegância com contos românticos do mundo, Chico o xinga a torto e a direito. Quando se revela qual dos dois está correto, a ironia é gritante. E lembra a discussão que nunca perde o valor, simpatia não implica virtude.

O-duelo-de-Marcos-Jorge“Comandante” Vasco. História questionada.

Esses trunfos do texto funcionam muito bem na mídia literária, mas no cinema causa problema de ritmo. A história do “comandante” se divide em três partes. A primeira da chegada dele na cidade e a interação com o povo local, a segunda em que o passado do mesmo é revelado totalmente em flashback e a terceira com uma viagem final, na qual ele precisa provar-se. As três não dialogam bem entre si e o filme parece reiniciar duas vezes. O que também leva a outro problema. A história aqui é apenas de Vasco. A divulgação do filme faz parecer que a presença de Wilker é significativa. Em termos narrativos, ele é de suma importância, mas a participação dele é mais como narrador pontual que como um dos protagonistas.

Marcos Jorge tem ideias inspiradas como diretor, como colocar elementos das histórias contadas pelos personagens para interagir com a mise-en-scène ou a reutilização de atores para cada variação das histórias (Claudia Raia brilha na brincadeira), mas a pobreza dos departamentos técnicos arruína o que poderia ser um filme minimamente divertido. Se o ritmo do roteiro já é problemático, a montagem que utiliza mais de estilos de videoclipes e de telenovelas piora a situação. Inclusive, atrapalha o timing cômico das cenas. O mesmo se dá com a mixagem e edição de som. Músicas de arquivo (ferramenta comum a filmes da Globo, que conta com um banco de músicas gigantesco sem que precise pagar direitos autorais) precisam comentar cada momento da história, o que dá tom de melodrama e ridículo a situações irônicas. Nota-se que muito dinheiro foi gasto com efeitos digitais, com muito corte de fundo mal feito. Em certas cenas, é possível ver pixels que serrilham os cabelos e peças de roupas dos atores em relação ao fundo. Sem contar com a fotografia que não condiz com o local sobreposto. O que é um absurdo em consideração com a qualidade dos oceanos, icebergs e navios construídos em efeitos computadorizados.

O-Duelo-PHOTO-02FEVEREIRO2015-01Wilker escrachado. Hilariedade no texto.

Os dois protagonistas dão um show. Joaquim de Almeida esbanja a simpatia necessária para Vasco e dita consegue criar identificação com o espectador mesmo quando o personagem é cretino. José Wilker se solta para falar palavrões, o que deveria ter feito sempre. É muito divertido ver o ator gritar “Comandante é um caralho”, “Comandante é a puta que pariu”, “Comandante é uma porra”. A Claudia Raia também faz uma participação muito divertida como uma dona de prostíbulo que muda de profissão a bel prazer das narrativas de Vasco. O resto do elenco, porém, passa vergonha. Márcio Garcia está canastra como sempre; Patrícia Pillar cria uma figura feminina melodramática que não condiz com a história.

Com muito potencial, O Duelo nunca cumpre a que veio. Acaba por ser uma mancha vergonhosa na lista do cinema brasileiro. Uma representação de filmes que marcam porque a produção nacional é constantemente questionada. Com obras como O Duelo, é difícil lembrar que Marcos Jorge foi o diretor de uma pérola como Estômago.

 

GERÔNIMOOOOOOOO…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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