O Ano Mais Violento

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O Ano Mais Violento faz parte da leva de filmes que estavam cotados para a temporada de premiações do começo do ano, mas que não entrou na festa. Como foi adiado para estrear no período, não foi lançado no ano passado. Mas, por não ser indicado a nada além de melhor atriz coadjuvante para a Jessica Chastain nos Globos de Ouro, ficou para o breve período pós Oscar e pré verão americano. Um período muito indigno para a qualidade do filme.

Abel Morales (Isaac) é dono de uma empresa de distribuição de combustível na Nova Iorque de 1981. O ramo surgiu da máfia, mas Abel se manteve fora do crime. Agora, na eminência de comprar um terreno que tornará a empresa a maior do mercado local, os caminhões começam a sofrer ataques de bandidos. O período difícil diminui a renda e Abel passa a ter dificuldades de pagar o valor do terreno tão importante para os negócios futuros.

O filme segue uma premissa muito parecida com a do ótimo Cinturão Vermelho. Um protagonista talentoso, inteligente, carismático e incorruptível vê tudo o que lutou para construir entrar em perigo porque tudo e todos ao redor são envolvidos com algum tipo de maldade.

O roteiro, do também diretor do filme J. C. Chandor, faz algo muito interessante em termos de estrutura. Começa no momento do Incidente Incitante (momento em que o conflito se apresenta para o protagonista) sem apresentar os personagens e os contextos. Fica a cargo do espectador juntar as peças à medida em que a trama se desdobra. O que é ótimo. Abel segue todos os estereótipos de gangsters ítalo americanos e vive entre eles, mas são as atitudes, o carisma e as escolhas dele que dizem quem ele é, não uma cena ou um diálogo expositivo e sem sentido. Seja a conduta aberta diante da promotoria do estado que investiga a empresa, a maneira sincera e direta com a qual se dirige aos concorrentes ou as constantes brigas com os funcionários e sócios acerca de não usar de meios ilícitos para conduzir a empresa.

O maior problema do roteiro se encontra no meio, quando a audiência já pode compreender toda a trama, mas a história toma alguns rumos desnecessários. São todos alegorias interessantes para a mensagem que é passada, mas desaceleram o ritmo e tornam a última hora um pouco cansativa.

4Abel é confrontado pelo promotor honesto.

A Nova Iorque das décadas de 1970 e 1980 era uma das cidades mais violentas do mundo. Foi apenas uns vinte anos mais tarde que ela se tornou um lugar mais seguro. Mas a busca pela melhora da cidade era antiga. O promotor que investiga a empresa de Abel, Lawrence (Oyelowo) tem como objetivo limpar o ramo da máfia e do crime. De certa forma, é o mesmo interesse de Abel (cujo nome é uma referência ao irmão correto e traído da Bíblia), que luta para conquistar o mercado com o comportamento correto e limpo dele. A violência, porém, é constante e coloca todos em perigo o tempo inteiro. Essa idealização da retidão de Abel pode incomodar um pouco, mas a considero muito interessante. É bom termos um herói que luta contra o que é errado em um mundo podre. É quase impossível não torcer por ele.

Chandor constrói em cima disso ao colocar Abel sempre em um dos lados do enquadramento, normalmente de costas para a outra metade. Esse outro lado sempre tem algum fundo ou via de acesso para o espaço. Isso cria um suspense de que Abel está sempre vulnerável, com espaço para alguém o atacar por trás. Em certa cena, ele investiga barulhos dentro de casa durante a madrugada. A cada take, existe um espaço atrás dele que passa a impressão de que alguém vai surgir dali.

Abel precisa entregar um homem para a polícia. A troca é filmada de cima com todos os personagens e objetos de cena no espaço da tela do chão. Os prédios de Nova Iorque compõem a metade de cima do quadro. Chandor sugere que é naquelas trocas e negociações que a cidade tem base. Usa das cores para trabalhar o caráter dos personagens. A esposa de Abel, Anna (Chastain), está sempre de azul, vermelho e branco. As cores da bandeira americana. A personagem gosta de se armar, tem descendência italiana e acha que o confronto e a corrupção são opções viáveis. Inclusive, uma cena em que os dois precisam matar um animal moribundo na estrada identifica muito bem o que ambos são. Todos os personagens que possuem algum tipo de deturpação usam roupas leves e folgadas, confortáveis no ambiente sujo em que vivem. Enquanto Abel e os outros “bonzinhos” estão sempre aprumados e elegantes, sob pressão constante. Ele, em especial, está constantemente com um sobretudo claro, indicando a clareza e transparência.

É preciso dar destaque para a linda fotografia de Bradford Young (do também lindo Amor Fora da Lei). Nova Iorque é cinza, com fortes tons metálicos. É uma cidade de ferro e concreto. Os ambientes internos quase sempre tomados pela escuridão exaltam os segredos escondidos e as intenções negativas das pessoas nas cenas. Isso é bem perceptível quando Abel precisa confrontar a esposa e a ação é anunciada pelo contorno dele nas sombras do aposento.

violent-4Abel e Anna. Intenções destacadas pela fotografia.

Oscar Isaac é um grande ator. A cada filme ele está diferente em estilo e visual. O rosto é o mesmo, mas a pessoa é diferente. Não fosse o carisma dele, Abel não funcionaria em meio a tanta corrupção. Jessica Chastain possui uma participação pequena, mas é importante com a raiva formada pelo medo que interpreta. A prontidão para a violência da personagem é quebrada sempre que confrontada com alguma ameaça real. David Oyelowo está muito bem, mas tem pouco texto e espaço para trabalhar em cima. O Albert Brooks faz uma participação pequena como o advogado que admira o cliente Abel e quer ajudá-lo, mas que não tem escrúpulos na hora de aconselhar a ser imoral. Chama a atenção sempre que está em cena.

O compasso do filme pode ser lento, mas faz parte da narrativa dele. É difícil, mas merece o esforço para roteiro, direção, cinematografia, interpretações e narrativa tão bons. Infelizmente perdeu espaço nas premiações. O final beira o ufanismo, mas até Abel tem que pagar um preço por ser esse herói que beira o mártir.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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