Constantine (2005)

doidol

A adaptação da história em quadrinhos Hellblazer para os cinemas em 2005 é vítima de algo muito comum. Atualmente, a pessoa escolhe uma segmentação que a identifique e não tem mais escolha a não ser seguir as opiniões do que o grupo diz ser verdade. Um dos piores nesse sentido é o dos nerds. Por conta de um exagero nos jeitos deles, Constantine não é reconhecido pelos fãs do material original.

Uma mulher internada em um sanatório se suicida. A irmã gêmea dela, Ângela (Weisz), uma detetive de homicídios encontra uma pista relacionada a um homem chamado John Constantine (Reeves). Ele, por sua vez, é um exorcista poderoso com câncer terminal. Após enfrentar dois demônios que quebraram as regras entre o céu e o inferno, ele percebe que as investigações de ambos levará a uma conspiração demoníaca.

O filme é, basicamente, um policial investigativo. Constantine e Ângela seguem pista por pista até chegar à chave do mistério e o enfrentam juntos. A diferença se encontra no aspecto sobrenatural. Pessoas morrem devido aos próprios vícios e defeitos. Um cara viciado em insetos serve de alimento para eles. Outro que tenta lidar com o alcoolismo morre por tentar beber e não conseguir (parece estranho na descrição, mas faz sentido dentro do filme). Bíblias do inferno servem de pista, assim como desenhos do oculto em feridas nas mãos de cadáveres. Em meio aos efeitos especiais e cenas de ação de todo o tipo, o filme é apenas uma obra para entreter e surpreender com a reviravolta final.

Baseado no arco da série em quadrinhos chamado Hábitos Perigosos, ele esconde a chave para que a reviravolta final surpreenda entre piadas e sussurros sarcásticos dos personagens. O que poderia ser apenas uma zombaria por conta da conduta de Constantine é importantíssimo para a trama. A resposta para todos os conflitos está no rosto do espectador, o que faz com que a reviravolta seja tão satisfatória. Ela é possível de prever, mas ninguém o faz.

constantine05Rachel Weisz na cena do suicídio. Reviravolta inteligente.

Constantine é um daqueles casos de diretor que cai feito uma luva para o projeto na hora certa. Dez anos atrás, Francis Lawrence contava com uma longa carreira como diretor de videoclipes. Tão longa que, ao assumir Constantine como longa de estreia, não se preocupou com visual. Isso para ele vinha naturalmente. O foco deveria ser a história, os diálogos e os personagens. Se o mistério envolve e cria curiosidade, as falas são espertas, repletas de insinuações que nunca são ditas, e reveladoras dos personagens. Estes são complexos e cheios de segredos e profundidade. Principalmente o anti-herói que dá nome à produção.

A história é que determina como Lawrence escolhe os visuais. Seja na possessão que abre o filme, quando Constantine abandona o cigarro numa mesa para trabalhar. O close esconde o tamanho do fumo aumentado para dar o efeito que era procurado. Os movimentos de câmera escondem e revelam para contar a história entre o que está na frente e atrás da tela. John e Ângela se conhecem. Assim que ela sai do apartamento dele, ele nota demônios pela janela. A câmera gira para acompanhar a visão dele, mas não para na parede. Continua o giro para encontrar a cadeira de John vazia e ainda segue com o movimento porque, ao chegar na porta a pega pouco antes de fechar. Vê-se rapidamente o braço de Constantine enquanto fecha a porta por fora. Maravilhoso trabalho de direção.

A direção de arte joga cenários escuros e amarelados sobre a fotografia que usa de vermelho e verde. Os contrastes mudam para revelar o que há escondido aqui e ali. Seja infernal ou divino. E Lawrence usa e abusa do recurso para tirar visuais belos, extremos, inventivos e originais. Um anjo em pé sobre um homem é bonito de se ver, Constantine em pé em uma rodovia é belo, as duas vezes que a morte de Isabel (irmã de Ângela) é mostrada são lindas.

constantine29Rachel Weisz revive o suicídio eternamente. Estética bela.

Acho que Constantine conta com uma das melhores interpretação de Keanu Reeves. Ele não é loiro nem inglês, mas a forma como carrega desdém tanto no rosto quanto no porte físico são a base do que é o personagem original. Ele se importa, mas faz piada porque não quer sentir pelos outros. Rachel Weisz é um espetáculo, não importa o que ela faça. Não basta ser uma mulher assombrosamente bonita, ela precisa ser uma das melhores atrizes da geração dela. Mesmo como uma detetive que apenas acompanha um homem em um mundo sombrio, ela se entrega com unhas e dentes à personagem. A Tilda Swinton participa como um andrógino anjo Gabriel. Genial na forma como representa bondade em cada ato, mesmo que seja um guerreiro divino.

Um filme bem escrito, bem dirigido, bem atuado, dono de uma reviravolta bem realizada e visuais belos e interessantes. Não foi feito para responder grandes perguntas nem para ser profundo, apenas diversão boa e benfeita. Infelizmente não foi reconhecido pelos nerds porque Reeves não é inglês, loiro e nem mora em Londres. Diga-se de passagem, a série recente do personagem mostrou como ser fiel não é garantia de qualidade. Ainda mais se comparada com este filme.

 

ALLONS-YYYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
Esse post foi publicado em Filmes e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Constantine (2005)

  1. Pingback: O Último Caçador de Bruxas (The Last Witch Hunter – 2015) | Aquela velha onda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s