O horror na igreja de Kingsman

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Eis uma cena destinada a ficar na memória. O galante agente Galahad entra em uma igreja radical no sul dos Estados Unidos e, ao perceber que estar lá não vai levar a nada, se levanta para ir embora. Na saída, porém, simplesmente protagoniza uma das chacinas mais perturbadoras e explícitas dos últimos tempos. Por que ela incomoda tanto?

Na crítica do filme, comentei como ele sugere que extremistas religiosos são piores que o vilão do filme. Mais tarde, em discussão com colegas críticos, cheguei à conclusão de que o filme escolheu fazer com que aquela violência fosse feita contra aqueles fundamentalistas para que o personagem do Colin Firth não fosse visto como vilão pela matança. De fato, ele não poderia ser visto como tal pelo que ocorre uma vez que a culpa é do verdadeiro antagonista da obra, mas a imagem é brutal e chocante o suficiente para que, mesmo que não seja culpado, ele passe a sensação de culpa para quem assiste. Emocionalmente, é difícil não ficar incomodado com o personagem.

Para quem não viu o filme, vou detalhar o que ocorre e, por isso, vá assistir logo antes de gritar spoiler. Enquanto sai da igreja, Galahad subitamente tira uma pistola do bolso interno do terno e atira na cabeça de uma mulher. Ao mesmo tempo, todos lá dentro começam a brigar entre si com claro instinto assassino. Ao que Galahad passa a usar todas as habilidades militares que conhece para participar da matança. Do outro lado da rua, o vilão (vivido por Samuel L. Jackson) dialoga com a assistente sobre a efetividade de seu plano. Eventualmente, Galahad mata todo mundo dentro do ambiente e é avisado pelo inimigo que estava sob a influência de uma onda que solta o controle pessoal e estimula os instintos de violência de quem a recebe.

Ou seja, o herói massacrou algumas dezenas de pessoas. O questionamento sobre se foi culpa dele ou não é fraco, uma vez que ele não tinha a vontade ou o controle. Porém, a imagem dele atravessando cruzes através de corpos de civis ainda é chocante. Em grande parte porque o diretor Matthew Vaughn faz questão de evidenciar graficamente as mortes. Com direito a esquartejamentos, corpos mutilados e dobrados de formas impossíveis em takes longos, o que aumenta a sensação de realidade.

O que incomoda mesmo é que Galahad faz tudo sem que o espectador compreenda completamente o evento. Então, ao invés de estar preparado para a ideia de que as coisas ali não são culpa dele, quem vê o filme apenas assiste ao protagonista (um assassino habilidoso) matar pessoas. E por isso, durante alguns segundos, cria uma sensação de horror em relação a quem deveria ser o herói.

Mais tarde, no final do filme, vemos uma mãe sob a influência da mesma onda em uma tentativa de matar o próprio bebê. Não há o mesmo choque porque, já de conhecimento do plano do antagonista, o espectador sabe que não é culpa dela. Mas, se este é o caso, por que Vaughn deixaria que a audiência sentisse o choque na igreja? Foi um engano na construção do filme?

Eu acredito que não. Basta acompanhar toda a carreira dele para ver que é um exímio diretor de ação e que tem a capacidade de manipular emoções durante as cenas do estilo. Seja na tentativa desesperada da Hit-Girl de salvar o pai em Kick-Ass ou no clímax que termina com a paralisia de Charles Xavier em X-men: Primeira Classe. Vaughn sabe o que faz e provavelmente o conflito na igreja é assim de propósito. Os motivos possíveis são vários.

Primeiro, ele queria que as pessoas que curtem tanto violência e mortes no cinema saíssem da zona de conforto. O que é muito interessante quando se pensa que Kingsman é um filme feito claramente para diversão. Segundo, ele só queria criar o suspense do medo de que talvez o espectador estivesse torcendo para o cara errado desde o começo do filme. Mas acho que, principalmente, ele queria que as pessoas se questionassem sobre a própria natureza. Porque todos são feitos de impulsos e racionalidade. Basta um pequeno empurrão para que cada pessoa deixe de ser um cidadão civilizado e vire um monstro.

Pode ser um pouco de tudo isso ou algo completamente diferente. A verdade é que só por criar esse nível de reflexão e debate, Kingsman já se torna mais relevante que muitos filmes.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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