Entre Abelhas

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Lembro de quando o trailer de Entre Abelhas passou pela primeira vez. A reação imediata foi “mais um desses filmes de comediantes sem graça”. Do meio do vídeo para o final, a produção se revelou algo diferente. Pelo que o material de marketing sugeria, era uma comédia com tons metafísicos que se foca na sutileza, e não em um ator aos berros.

Bruno (Porchat) acabou de se separar da esposa. Assim que sai do apartamento que dividiam juntos, ele percebe que não vê nem ouve todas as pessoas que existem. Essas pessoas, porém, não somem da Terra. Todos os outros conseguem vê-las e interagir com elas. A situação vai ser chave para diversas cenas cômicas, mas o foco é o drama do personagem.

Fábio Porchat escreveu o roteiro do filme junto do diretor Ian SBF. Os dois trabalhavam juntos no canal de youtube Porta dos Fundos. Também são dois dos melhores realizadores de lá. Dentre as muitas esquetes sobre saco roxo, rola e gritos sarcásticos, quando estes dois escrevem, os vídeos tendem a ser menos engraçados e mais inteligentes. Justamente a razão pela qual as piadas menos frequentes também serem mais satisfatórias. O estilo se repete em Entre Abelhas.

Fábio Porchat é um homem em uma situação complicada no cinema nacional. Quem gosta do humor de gente que berra frases inapropriadas ama o ator/produtor/roteirista nas comédias. Aqueles que desgostam, o veem como mais um exemplar de cinema Globo, do qual o maior expoente é o Leandro Hassum. Mas Porchat é muito mais do que um estereótipo de mercado.

fabio-porchat-filme-novo-entre-abelhas-filme-fabio-porchat-2015-moda-para-macho-02Porchat. Um exemplo raro no mercado nacional.

Muito ao estilo do Will Ferrell, em meio ao humor repudiado por quem não gosta de comédia escrachada existe um homem sensível. Talvez este Entre Abelhas seja para Porchat o que Mais Estranho que a Ficção foi para o americano. Porchat ainda ganha uma ou duas cenas em que precisa se esgoelar com impropérios de forma cômica, mas estes momentos são lógicos para a narrativa. Na melhor das duas, se assusta dentro de um táxi ao perceber que o motorista não está lá. Os gritos “PORRA! CADÊ, PORRA?” são hilários porque são apropriados.

Isso, porém, é a menor parte da produção. O humor é muito mais sutil. É preciso estar atento para os momentos em que ele interage com alguém que não vê. Em certa cena, ele abre uma porta de vidro no rosto de outra pessoa. Falam para ele prestar atenção e ele responde que está bem e não se machucou. Quem não está imerso no filme não vai entender que ele não era capaz de ver a pessoa que acertou.

Essa sutileza é importante porque o fato de que Bruno não vê mais pessoas é mais uma analogia à situação pessoal dele que o foco de piadas. Não que a trama principal seja a separação da esposa. Ela é apenas a desculpa para um homem em um estado de depressão pesado. Entre as discussões acerca das causas e razões para os desaparecimentos, surgem teorias como “Talvez você me veja porque acha que eu posso te ajudar” ou “Quando você não vê mais as pessoas, você passa a se conhecer”.

2015-811801640-fabio-porchatentre-abelhascreditodan-behr-3.jpg_20O drama reina. Apesar das aparências, a cena acima é um drama pesado.

SBF e Porchat precisam se desvincular do estilo de vídeos para o youtube. Cinema é uma mídia completamente diferente. Acostumados a criar para a internet, fazem cenas rápidas com cortes ilógicos. Muitos diálogos com muitas falas interessantes são cortados no meio. Principalmente as consultas médicas. As visitas ao psiquiatra cortam para outras cenas logo após uma frase de efeito. Não há transição ou raciocínio lógico no diálogo.

Fábio Porchat é ótimo. Simpático e engraçado, ele sabe fazer drama ainda melhor do que comédia. Marcos Veras interpreta o melhor amigo Davi e é um peso para o filme. Ele deveria ser o alívio cômico, mas faz o mesmo de sempre. Gritos e berros sobre putas e gravidez indesejada. Letícia Lima é uma stripper que ajuda Bruno e rouba as poucas cenas das quais faz parte sem esforço, apenas com presença de tela. O melhor do filme é a Irene Ravache como a mãe de Bruno. Quando ela faz diálogos típicos de comédia nacional, é o estilo natural dela que faz com que seja engraçado.

Entre as discussões propostas, fica óbvio o interesse final de Porchat e SBF. Entre Abelhas é um daqueles filmes que levantam mais perguntas do que respostas. E isso é ótimo. Apenas por permitir que os espectadores discutam entre si após a sessão, já se torna superior e mais relevante que todas as comédias nacionais de grande público.

 

ALLONS-YYYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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