Roteiros minimalistas

roteiro

As críticas mais frequentes relacionadas a Mad Max – Estrada da Fúria que tenho ouvido são de que o filme não tem roteiro porque a história é muito simples. Isso sempre é seguido de discussões sobre as complexas mitologia e analogias dentro da obra. Como um filme com poucos diálogos pode ser tão elaborado? A resposta: roteiro minimalista não é o mesmo que roteiro ruim ou falta de roteiro.

Algo parecido aconteceu em duas ocasiões anteriormente. Primeiro, quando alguém me disse que Gravidade não tem história e que Interestelar era uma demonstração de acerto em tudo o que estava errado no filme do Alfonso Cuarón. A segunda foi quando dava entrevista para um jornalista (e amigo) sobre filmes brucutus da década de 1980. O entrevistador me disse que o roteiro de Duro de Matar é ruim porque é só um cara em um prédio com o problema de matar gente. Discordo fortemente dessa linha de raciocínio.

Definir o que faz com que um roteiro seja bom é complicado pelos mesmos motivos que explicar filmes que são bons é difícil. Um roteiro envolve escrita, ritmo, desenvolvimento de conflito e como cada cena se adequa a este desenvolvimento. Ser complexo sem perder qualidade em nenhum desses quesitos é algo a mais em um roteiro, mas complexidade em si não é o fator que define um.

Peguemos Interestelar. Poucos filmes são tão complexos quanto este. Ele é tão complicado que explica desde o momento em que inicia até pouco antes dos minutos finais os conceitos científicos e filosóficos. Complicado, elaborado e até difícil de entender. O roteiro do filme é questionável. É tanto a se explicar que o filme é metade exposição em diálogos que não fazem muito sentido, como engenheiros que ensinam uns aos outros sobre detalhes de astrofísica quando os dois são astronautas e viajam pelo espaço há dois anos. Some a isso o ritmo inconstante por conta do final e é fácil dizer que o roteiro não é bom (o que eu não acho).

Comparemos com Gravidade. Com duração enxuta, Cuarón afirmou publicamente que o resultado final tanto do visual quanto da montagem é muito semelhante ao roteiro. Um suspense rápido, cheio de metáforas visuais que tratam sobre a diferença entre sobreviver e querer viver. Em termos de história, é muito complexo, mesmo que conte com poucos diálogos. Exige um texto original inteligente que saiba lidar com ritmo para contar detalhes sem palavras.

O mesmo se dá com Mad Max – Estrada da Fúria. Como muitos criticaram, o filme inteiro é uma grande perseguição. Mas isso apenas aumenta o valor de um roteiro que precisa contar uma história tão elaborada durante uma gigantesca cena de ação. Estrada da Fúria é a jornada do herói dentro de um veículo, ao mesmo tempo é sobre redenção e esperança, sobrevivência e identificação de iguais. Com uma mitologia própria muito complexa, com detalhes relacionados à cultura pop que os fazem ser autoexplicativos. Se não fosse o bastante, os diálogos são mais contados através de olhares e gestos que enriquecem os personagens. Nunca vou esquecer da discussão entre Max e Furiosa na qual ela não diz uma palavra. Se isso não é característica de um texto bem escrito, eu não sei o que é um roteiro.

Duro de Matar segue o filão. É um grande filme de tiroteios sobre um homem preso em um prédio com bandidos. Mas vale a pena prestar um pouco mais de atenção. John McLane não quer apenas prender ou matar um bando de terroristas. Antes disso, ele quer reatar o relacionamento com a esposa. Grande parte das ações e conversas estão diretamente relacionadas a isso. O ritmo deveria ser estudado em aulas de roteiro, com o desenvolvimento dos conflitos trabalhados com reviravoltas inteligentes que fazem sentido ao que é apresentado.

Deixo apenas a reflexão. Antes de falar que o roteiro de um filme é ruim porque ele é simples, é melhor analisar primeiro se a narrativa não é minimalista, no lugar de simples. Porque a complexidade pode se encontrar em camadas mais profundas e sutis.

 

GERÔNIMOOOOOOOO…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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3 respostas para Roteiros minimalistas

  1. Juliana disse:

    Tem que se considerar as atuações. Mesmo com um roteiro minimalista ou simplista, sem boas atuações pode ir tudo por água abaixo. Em Mad Max, a capacidade de interpretação da Charlize e do Tom, só com o olhar e ações, é suficiente para suprir a falta de palavras.
    E gente, por favor, isso não é um filme do Kevin Smith, nego quer diálogo no meio da cena de ação pra que? hahahahah

  2. Pingback: Quando as Luzes se Apagam (Lights Out – 2016) | Aquela velha onda.

  3. Pingback: Cenas que amamos – Parece esperança (Mad Max: Estrada da Fúria) | Aquela velha onda.

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