Quarteto Fantástico (2015)

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A Marvel passava por maus bocados na década de 1990. Em perigo de entrar em falência, a produtora de histórias em quadrinhos vendeu diversas franquias para estúdios de cinema. Um dos resultados dessa brincadeira foram os filmes Quarteto Fantástico de 2005 e a continuação com a presença do Surfista Prateado em 2007. Dois dos piores filmes daquela época. Chegou a hora da Fox tentar salvar a franquia com este reboot do grupo.

Reed Richards (Miles Teller) é um adolescente brilhante que desenvolveu, com a ajuda do amigo Ben Grimm (Jamie Bell), um projeto de teletransporte. Ele é descoberto pelo doutor Franklin Storm (Reg E. Cathey), que revela que o transporte não era para outro lugar do mundo, mas para outra dimensão. O doutor o recruta para trabalhar na empresa Baxter e trabalhar com dois outros jovens geniais, Victor Van Doom (Toby Kebbell) e a filha adotiva de Franklin, Susan Storm (Kate Mara). O filho biológico de Franklin, Johnny Storm (Michael B. Jordan) ajuda no trabalho manual. Quando conseguem fazer uma ponte de ida e volta para o mundo paralelo, um acidente transforma Reed, Ben, Johnny e Susan e faz com que Victor fique perdido na outra dimensão.

O grupo de super-heróis Quarteto Fantástico é um dos mais complicados para se adaptar. A origem deles e os poderes não são plausíveis para uma geração atual. É grande parte do motivo para os dois filmes anteriores serem fracassos (além dos roteiros estapafúrdios). Para conversar com novos fãs, a Fox recrutou o diretor Josh Trank, cujo currículo se resume ao filme de heróis Poder Sem Limites, que é mais verossímil e dono de linguagem jovem que grande maioria das produções do gênero. A reinvenção deixa a galhofa usual de lado e se foca em humanizar os personagens.

O roteiro escrito por Trank e mais duas pessoas (uma delas produtor do filme) acerta em cheio ao focar nisso. As relações entre os quatro é construída através de pequenas e sutis construções. Basta um diálogo bem escrito com as atuações detalhistas dos atores para compreender como Reed sente atração por Susan, como ela se esconde por se sentir vulnerável, como ela e o irmão se amam apesar de esconderem uma camada de rancor por ciúmes do pai, como Ben e Reed se importam um com o outro como se fossem irmãos. As relações são inspiradas na natureza original dos personagens nos quadrinhos, mas são plausíveis. Elas também conduzem para o comportamento de cada um depois do acidente.

fantastic-four-teaser-trailer-hi-res-screengrab-7Relações sutilmente construídas. Os heróis são plausíveis.

Como os quatro são adolescentes, os roteiristas acertam ao não deixá-los confortáveis com os poderes recém-adquiridos. Não é apenas o Ben que se sente assustado com a transformação. O espectador que desconhece o grupo pode se identificar com o desespero de Reed ao se ver alongado e depois descobrir o amigo Johnny caído no chão e em chamas. A situação é quase de horror. E as consequências para eles em termos psicológicos é naturalista. O filme funciona muito bem como uma ficção-científica que flerta rapidamente com o body horror. O problema surge quando os dramas de Reed, Susan, Ben e Johnny precisam cumprir a quota do gênero original e vira filme de super-heróis.

Todos os conflitos bem desenvolvidos são esquecidos para dar lugar a um terceiro ato que não condiz com o tom criado até o momento. O vilão surge de lugar nenhum e força esta grande cena de ação. Para resolvê-la, todas as brigas e desentendimentos são esquecidos. Não fosse o bastante, o vilão aparece com muitos poderes e os perde quando é conveniente para que os heróis tenham uma chance de enfrentá-lo.

Trank dirige a parte ficção-científica muito bem. Dá o tom sombrio necessário para explorar os lados obscuros das relações e sabe quando tirar ou colocar um ator em enquadramento para que as sutilezas das interações sejam reveladas. Ele é fraco na ação. A cena do acidente tem um momento no qual algo atinge um personagem. A montagem e os planos fazem crer que é uma pessoa, quando na verdade é outra. Só se compreende o que aconteceu mais tarde, em retrospecto devido às consequências. O clímax é terrível. Reed, Susan, Johnny e Ben se perdem na construção de noção espacial e fica incompreensível o que eles fazem entre golpes.

drdoom-ftNova e interessante versão do Dr. Destino conduz ao terrível terceiro ato.

Os atores são ótimos. Na parte dramática, todos entregam o melhor de si na construção de personagens mais complexos que no material original. Em especial Michael B. Jordan, que deve ganhar um Oscar no futuro, e Miles Teller, que sabe colocar humanidade em meio às esquisitices de Reed. O Toby Kebbell finalmente chama a atenção em papéis cada vez maiores. Fazer com que Victor, uma figura difícil e solitária, tenha empatia é algo digno de atenção. O Jamie Bell quase não faz nada, mas o pouco dele é ótimo. A Kate Mara é a mais apagada do grupo. Apesar de boa atriz, diante do talento dos companheiros ela fica esquecida. Reg E. Cathey faz um bom trabalho como a figura paterna do grupo. O momento em que vê os filhos depois do acidente emociona sem palavras, apenas com o olhar.

É o melhor filme do Quarteto Fantástico até o momento. O que não é mérito algum. O êxito está em saber ser sombrio e criar humanidade em uma história que sempre foi incômoda de tanta ingenuidade e cor. A “família” do grupo de heróis se torna plausível. Infelizmente o terceiro ato parece uma parede de tijolos na qual o passeio se choca dolorosamente. Merecia ser o filme que Trank sabe fazer, e não o que ele foi obrigado por estúdio e produtores.

P.S.: Confira a participação na crítica em vídeo do site Portal Crítico.

GERÔNIMOOOOOOO…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para Quarteto Fantástico (2015)

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