O Agente da U.N.C.L.E.

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Napoleon Solo (Henry Cavill) é um agente americano da CIA em plena guerra fria. Ele parte para o lado oriental de Berlin para resgatar a informante Gaby Teller (Alicia Vikander). Durante a missão, é perseguido pelo agente russo Ilya Kuryakin (Armie Hammer), mas consegue escapar com a garota. O pai dela é um cientista nuclear sequestrado por uma organização italiana. Em uma missão conjunta, a CIA e a KGB unem Ilya e Solo como parceiros para usar Gaby e impedir que uma terceira nação tenha poder de destruição em massa.

O Agente da U.N.C.L.E. foi uma série de espionagem de muito sucesso da década de 1960. Com mais de 100 episódios, ainda é cultuada pelos fãs como algo brilhante. Um misto de zombaria com o gênero, com a própria guerra fria e com os estereótipos de ambos, captou a atenção do diretor Guy Ritchie. O realizador britânico conseguiu dois dos maiores astros em ascensão de Hollywood para os dois personagens principais e aplicou muito da estética pessoal para fazer uma brincadeira de estilo tal qual o seriado fazia 50 anos atrás.

O grande problema deste filme é que Ritchie, assim como é um grande diretor de estilo e estética, não sabe lidar com narrativa. Neste caso em especial, ele também é roteirista, o que faz com que o enredo fique ainda pior. Não que o roteiro de O Agente da U.N.C.L.E. seja ruim. Muito pelo contrário, ele brinca bem com os conceitos clássicos de filmes de espionagem. Tem reviravoltas, traições, agentes duplos, vilões megalômanos, ocidentais elegantes, russos brucutus e mulheres fatais. Ao mesmo tempo, reinventa todos sem a ingenuidade boba da década de 1960. O problema não é o roteiro, mas como a linguagem de videoclipe do diretor não se adequa a ele.

Solo é um agente tipo 007. Conquistador serial (descrição do próprio filme), sempre com um terno alinhado e muito inteligente em relação a cada movimento e ação contra inimigos. Mas ele não é perfeito como a contraparte famosa da Inglaterra (ironicamente, Cavill é inglês e já foi considerado para o papel do James Bond). O orgulho inflado e a necessidade de manter a classe geralmente o coloca em problemas. Ilya é um homem de ação. Aparece, resolve as coisas com o mínimo de violência necessário (o que não muda o fato de que ainda é violência) e sai discreto. Por ser tão bronco e taciturno, tende a agir sem pensar e está constantemente com raiva.

_84840501_mfu2Solo e Ilya em ação. Contraste divertido.

A graça do filme está, quase toda, nos choques entre os dois. Sem discussões fáceis sobre socialismo e capitalismo, o roteiro sabe que é para ser apenas divertido. Os diálogos e situações construídos são fiéis ao que os personagens são e os exploram bem. No que talvez seja a melhor cena do filme, os dois invadem juntos uma fábrica para encontrar pistas. As formas como os dois são falhos e se complementam são hilárias. A ação foge do tiroteio comum para usar o contraste dos dois para fazer piada e tornar as cenas mais divertidas. Quando Solo entra em um caminhão e assiste a uma perseguição de barcos, é impossível não rir porque as características dos dois está exacerbada ao máximo e ainda condiz com o que acontece em cena.

Nesses momentos, o estilo acelerado de Ritchie dialoga bem com a trama. O problema é na parte mais focada em espionagem. O diretor tenta forçar a estética de montagem rápida nas reviravoltas e faz pequenos flashbacks que explicam uma reviravolta. Nas duas ou três primeiras vezes funciona muito bem. Na vigésima fica óbvio, não tem mais graça e parece até preguiçoso. A pior é quando os planos de Gaby são revelados. Uma cena antes é cortada no meio e é retomada com um ou dois minutos. A montagem atrapalha a condução da narrativa.

A trama é muito complexa e cheia de detalhes. Com a correria de Ritchie com cortes rápidos, é difícil acompanhar os diálogos mais complicados. Com alguma frequência, o espectador vai entrar em uma cena de ação sem entender exatamente quais os papéis e os posicionamentos de cada personagem. As músicas que compõem a trilha são ótimas, condizem com o período retratado e com a estética do diretor. A arte reconstrói a década nos mínimos detalhes e brinca bem com os apetrechos que Ilya carrega consigo. Um incômodo, porém, reside nos efeitos sonoros. A mixagem de som não encaixa com tudo o que acontece em cena em muitos momentos. Remove o espectador do filme.

1280x720-e_TAlicia Vikander como Gaby. Química interessante.

Os atores são ótimos. Cavill abraça o estereótipo e não tem medo de cair no ridículo pelo bem da diversão. O problema é que o personagem não tem personalidade alguma. O que desequilibra a atenção para Hammer, que tem um personagem muito mais interessante. Ilya tem um passado transtornado que faz com que a violência dele se torne um perigo constante. A história com a personagem Gaby é mais forte que a de Solo. A química entre Hammer e Vikander é forte e os dois funcionam muitíssimo bem fora da dinâmica dos dois protagonistas. Ainda tem a presença do Hugh Grant, que se diverte em cena.

A brincadeira funciona quase o tempo inteiro durante a produção. Os choques entre os protagonistas e as zombarias com filmes de espionagem são divertidos. Mesmo os problemas com a narrativa (comum a vários filmes do Guy Ritchie) não conseguem arruinar a produção. Mas ainda incomodam. Poderia ser muito melhor nas mãos de um diretor mais eficiente ou com roteiristas que escrevem mais de acordo com a estética do diretor.

 

GERÔNIMOOOOOOO…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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3 respostas para O Agente da U.N.C.L.E.

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