Grace Kelly e os bastidores do conto de fadas (Grace de Mônaco – 2014)

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“A ideia de que minha vida é um conto de fadas é, por si só, um conto de fadas”. Essa é a citação que inicia Grace de Mônaco (Grace of Monaco), mais uma produção da onda de filmes baseados em histórias reais, que tem sido recorrente nos últimos meses. Ela conta sobre a vida de Grace Kelly, renomada atriz americana, que se tornou princesa de Mônaco ao se casar com o príncipe Rainier III.

Protagonizado por Nicole Kidman (Moulin Rouge! e As Horas), o filme tem a direção de Olivier Dahan (Piaf – Um Hino ao Amor) e roteiro de Arash Amel (Seducing Ingrid Bergman). Ele também conta com a participação de Tim Roth (Cães de Aluguel e Lie to Me), Frank Langella (Dracula) e Milo Ventimiglia (Gilmore Girls e Heroes), como príncipe Rainier III, Tuck e Rupert Allan, respectivamente.

Grace Kelly, ganhadora do Oscar por Amar é Sofrer, conhece Rainier III, príncipe de Mônaco (principado soberano no sul da França), por conta do Festival de Cannes de 1955. No ano seguinte, eles se casam, e ela se torna a princesa do microestado. Além da fama que conquistou em Hollywood, Grace fica conhecida mundialmente pelos trabalhos filantropos que realiza.

A história do filme se passa de dezembro de 1961 a novembro de 1962, período de conturbadas negociações políticas entre a França e Mônaco. Grace, que tem a carreira cinematográfica composta por 11 filmes, é filha de um homem que conquista dinheiro como fundador de uma empresa de construção. Para a família, o casamento dela com Rainier é, principalmente, visto como um fator para a ascensão social.

810802-b9475584-dbc8-11e3-8e7a-50682b5c038fGrace acompanhada de Rainier.

Em 1961, Grace recebe uma visita do diretor Alfred Hitchcock, com o qual trabalhou em três filmes (Disque M para Matar, Janela Indiscreta e Ladrão de Casaca), e é convidada para protagonizar Marnie, filme que ele vai dirigir. Apesar de muito tentada a participar, ela pede um tempo para pensar, devido às obrigações que tem como princesa. O marido não apoia a iniciativa, mas fala para Grace tomar a decisão que quiser, desde que cuide para não afetar a imagem do principado.

Inicialmente, Kelly toma medidas para fazer parte da obra; depois, opta por não participar e cumprir as funções de realeza. De 1954 a 1962, ocorre a Guerra de Independência Argelina, realizada entre a França e Argélia, em prol da independência do país africano, então colônia da nação europeia. Nesse contexto, o presidente francês Charles De Gaulle quer se juntar a Mônaco para formar o terceiro pilar mundial, entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Enquanto um representante discute esse possível acordo com o príncipe Rainier, Grace aparece e comenta sobre o assunto, de modo a defender o país em que nasceu, e demonstrar a indignação que sente a respeito da guerra. Mesmo após ter ouvido argumentos em retorno, como o de que a estabilidade europeia está ameaçada, Grace insiste no posicionamento contra a iniciativa.

grace-of-monaco-img01 Visita de Hitchcock. Tentação de voltar ao estrelato.

Acusada de possuir o “american way”, a princesa expõe os próprios pensamentos, com a justificativa de que foi criada para se expressar. Devido a essa atitude, o marido discute agressivamente com ela, com a afirmação de que eles não vivem nos Estados Unidos, portanto as pessoas não falam tudo que vem à cabeça. Ele diz que tudo que a esposa fala tem consequências, e pede para que ela não exponha o que pensa. Essa reação destaca traços abusivos do casamento entre os dois.

Por Mônaco ser um protetorado francês, a França faz algumas exigências a ele. Entre elas, o abandono do posto de paraíso fiscal (imposto zero e controle mínimo de mercado), com o início da cobrança de impostos proporcionais aos do país governado por De Gaulle. Desse modo, o principado pararia de atrair tantos franceses. Por refutar o pedido, Rainier é taxado como antifrancês.

Posteriormente, o príncipe aceita equiparar os impostos aos cobrados na França, e diz para o presidente que já provou a lealdade que possui. As empresas francesas que devem escolher entre permanecer ou sair de lá. Com o argumento de que Rainier traiu a confiança dele, De Gaulle fala que o monegasco deve recolher impostos da população e repassar para o governo francês.

Com um ultimato francês dado a Mônaco, Rainier III pede a Grace que recuse o convite para participar de Marnie, e relate a “decisão” publicamente. Ela recusa, e ele reage de forma negativa e a critica, o que culmina na quebra de uma louça que o príncipe arremessa ao chão, durante um almoço entre família e amigos. Mais uma vez, traços de um relacionamento abusivo são retratados. A princesa desabafa com Tuck, padre do reino, sobre as frustrações que sente. O religioso diz que, apesar de ser difícil na convivência, o marido a ama. Então, ela diz que o que ele ama é a imagem que criou dela.

Após refletir sobre os acontecimentos que ocorreram durante o próprio matrimônio, ela pensa na possibilidade de divórcio. Tuck relata as possíveis consequências desse ato, como a proibição de entrada a Mônaco, o reflexo que a decisão terá nos filhos e o fracasso como princesa. A vontade de Grace é de não recusar o convite de Hitchcock, mas tenta pesar o que isso pode ocasionar.

Enquanto enfrenta o dilema, Grace Kelly ouve diversas críticas feitas a ela, inclusive pela imprensa francesa e monegasca. A princesa conclui que a terra que reina é um lugar em que não pode ser ela mesma, e é dominada por um sentimento saudosista de sua antiga vida e país natal. Na ligação que faz para mãe, nota-se a pressão materna que a renomada atriz sofre para manter a imagem e status.

Ela opta por abandonar a carreira de atriz, e se dedica ao estudo da cultura monegasca, com aulas de francês, história e de como deve se portar perante a corte. A princesa passa a ter grande interesse pelas origens do principado. Com esse esforço, Grace tenta fazer parte de uma sociedade em que não se sente incluída, com o intuito de mudar a realidade.

De volta à participação da Cruz Vermelha, antes relacionada à reforma de um orfanato, Grace ajuda na produção do jantar anual para a Cruz Vermelha Internacional. O intuito do evento é o de convidar os mais diversos representantes, inclusive De Gaulle. Na chegada de Grace ao baile, ela interage com o público que aguarda de fora do palácio e é admirada pela população.

Anfitriã da noite, ela é presidente da Cruz Vermelha monegasca. Sobe ao palco para proferir um discurso, e conta que desistiu da vida hollywoodiana pois se apaixonou por um príncipe encantado. A princesa conta que, ao ser deparada com a obrigação de escolha entre a vida de atriz e realeza, ela escolhe Mônaco. Fala que o microestado é formado por boas pessoas, que tentam fazer o certo da melhor forma que podem.

Ela diz que eles são o povo e a casa dela. Fala que acredita que contos de fadas podem ser realizados, se a pessoa estiver preparada para se esforçar o suficiente. E, com esse esforço, o mundo não precisa ser sempre um local de ódio e conflito. Grace se compara a Mônaco, com afirmação de que não tem exército (a força militar que protege o principado vem da França), não deseja mal a ninguém, não resiste às agressões, e tenta fazer o melhor que pode, da melhor forma possível. Mas não seria um conto de fadas se não houvesse um vilão com o objetivo de destruí-lo simplesmente porque tem o poder de fazê-lo.

Grace diz não aceitar que chegue alguém e destrua tudo, e que esse não é um mundo que ela gostaria de participar. Ela prefere não viver nele do que não acreditar que o amor é capaz de conquistar tudo. E é por ele que estão ali, é por ele que os conflitos serão abandonados. Agora, diferente de antes, a princesa sente-se pertencente a Mônaco, e tem papel fundamental nas negociações com a França.

A princesa reconhece que os papéis que deve desempenhar são o de mãe, líder e esposa. Contudo, é só isso que ela merece? É justo ter de abandonar os sonhos, a carreira cinematográfica, para viver unicamente em prol de uma nação? Ela continua fazendo trabalhos humanitários, mas isso é o suficiente para repor o espaço que perdeu, quando foi obrigada a fazer uma escolha?

A atitude tomada por Grace Kelly é vista por muitos com grande apreço. Porém, ela desiste de parte da felicidade própria, por um casamento no qual ela não pode ser quem realmente é, e é repreendida quando o faz. O filme mostra que, por trás de um conto de fadas, sempre há problemas e dificuldades. Apesar de parecer para o mundo que eles são perfeitos, um casamento real e um príncipe encantado não são exatamente assim.

O filme, em si, é uma boa produção. Nicole Kidman possui semelhança física com a atriz e princesa original, e faz um interessante trabalho de interpretação. Outro destaque é o figurino, feito por Gigi Lepage, que conta com elegância e sofisticação. Porém, a obra não deve ser vista como uma história de amor em que tudo é resolvido. Ela é muito mais que isso. A atenção às imposições que Grace sofre não pode ser ignorada. E o fato de ela ter abdicado de coisas que considera extremamente importantes, também não deve ser passado em branco. Esses e outros fatores devem ser considerados, para não cair apenas na ilusão de um final aparentemente feliz.

Sobre Deborah Novais

Eterna perdida nos próprios pensamentos e sonhos, que ainda acredita em um mundo melhor. Louca que escolheu o Jornalismo como forma de ganhar a vida, mas nutre por ele sentimentos conflitantes. O amor pelas diversas formas de arte a acompanha desde que se entende por gente. Não troca Netflix, cinema, shows e teatro por quase nada.
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