Mamma Mia! (2008)

Mamma-Mia-2008

Depois da retomada dos musicais com Moulin Rouge, pelo menos três filmes do gênero eram lançados por ano. Em 2008, foi a vez da peça Mamma Mia! ganhar as telas de cinema. Uma história para costurar uma penca de sucessos do Abba foi realizada. Um monte de atores famosos e de talento se uniram a uma das diretoras da versão teatral. Muita cor saturada e uma trama extremamente “feminina” dão o tom da produção.

Sophie (Amanda Seyfried) descobre em um diário antigo da mãe, Donna (Meryl Streep), que ela teve três relações rápidas com homens diferentes na época em que a filha provavelmente foi concebida. Então ela chama os três, Harry (Colin Firth), Bill (Stellan Skarsgård) e Sam (Pierce Brosnan), para o casamento dela. O plano é que um deles a leve ao altar. A presença dos antigos amores de Donna vai levantar uma série de pendências emocionais em todos os envolvidos.

Adaptações teatrais, principalmente de musicais, podem ser muito complicadas. A diferença das mídias faz com que diretores sigam estratégias visuais que normalmente se resumem a repetição de coreografias e de cenas em ambientes fechados. Um bom diretor de cinema sabe construir as relações através das características cinematográficas. Com uma diretora que veio dos palcos, o desafio é ainda maior.

Phyllida Lloyd, a diretora, resolve a adaptação com soluções inventivas. Uma cena que se passa em dois quartos em paralelo, que deve ser com dois cenários espelhados no teatro, é retratada com edição paralela e mise-en-scène espelhada. Ela usa de linguagem básica de cinema para contar a história com eficiência. Nada brilhante ou inventiva, mas ela sabe como fazer cortes que brincam com o ritmo que a produção e a história requerem.

mamma_mia03Os três pais chegam juntos à ilha onde as confusões se passarão.

Isso é importante porque a trama base é absurda. Parece pensada por algum fã de Malhação com tempo livre. Chamar os três possíveis pais para o próprio casamento sem avisar a mãe e o noivo é quase uma fantasia de garotas adolescentes. Se fosse levado a sério, seria um melodrama terrível. Mas o roteiro de Catherine Johnson cria uma comédia de situações. Muitas delas relacionadas com as ótimas músicas do Abba. A música Honey, Honey vira uma exposição bem humorada sobre a vida sexual de Donna. Mamma Mia, que dá nome ao filme, expõe os sentimentos de Donna em relação a um dos ex-amantes. Em todas, os atores/cantores realizam interpretações caricaturais. Sophie canta as partes nas quais a mãe faz sexo com os possíveis pais com gestos exagerados. Donna se dependura pelas partes da casa onde vê os ex-casos para espioná-los enquanto canta sobre amores perdidos do passado.

Para aumentar o exagero, Lloyd usa de excesso de azul com saturação alta, muitos brilhos que pulam pela tela com fortes e duras luzes douradas. Ao mesmo tempo em que o filme é mega colorido em sintonia com o tom de brincadeira da trama e das músicas, também faz referência ao local onde a história se passa: uma ilha na Grécia (o azul é referência ao mar e o dourado ao sol). Quanto mais os personagens usam azul, mais se sentem a vontade no local. Quanto mais vermelho ou rosa, mais desconfortáveis.

Lloyd sabe que o clima é de bagunça e brincadeira, por isso mesmo chamou alguns bons atores que não cantam. O resultado musical pode ser questionável, mas condiz com o tom. Surgem boas surpresas, como a Meryl Streep, e outras coisas estranhas, como o Pierce Brosnan. Ainda assim, quando os dois cantam juntos S.O.S. funciona porque o que vale é a piada. Mesmo que o momento seja sobre o desenvolvimento da relação entre os dois personagens, a mise-en-scène brinca com o fato de que todo mundo na ilha sabe que ambos se amam, menos eles mesmos.

Donna and The Dynamos--(L to R) Tanya Chesham-Leigh (CHRISTINE BARANSKI), Donna Sheridan (MERYL STREEP) and Rosie Rice (JULIE WALTERS)--lead the Greek chorus in the musical romantic comedy ?Mamma Mia!? Donna e as amigas cantam Dancing Queen. Sobre liberdade sexual feminina.

Os atores todos sabem que é uma brincadeira e não têm medo de assumir os exageros. Quando Harry se assume gay, Colin Firth arranca as roupas e começa a pular feito um louco. Sempre que Sam se diverte, Pierce Brosnan dá uma risada escancarada que beira o falso. Skarsgård faz um tipo aventureiro e sorri feito um besta com qualquer oportunidade de diversão incomum. A Meryl Streep é tão boa atriz que até nesse climão está bem. A Donna dela parece uma menina boba sempre que reencontra Sam. O pior é a Amanda Seyfried. A personagem é um estereótipo de menina jovem boba e por isso a atriz parece tão besta quanto Sophie.

As músicas com várias camadas de discussão feminista acabam por gerar um filme feminista. Dancing Queen é usada como uma desculpa para que Donna não se sinta mal pela vida sexual livre na juventude. Gimme, Gimme, Gimme e Voulez Vous viram uma demonstração de que despedidas de solteiro de homens e mulheres não precisam ser divididas. No momento mais bonito do filme, Meryl Streep canta The Winner Takes It All para falar sobre mães solteiras e dar voz a uma mulher que foi abandonada pelo homem por quem se apaixonou.

No final, Mamma Mia! é um musical que não se propõe a ser mais do que a origem dele permite ser: divertido. Costurar uma penca de ótimas músicas com uma história dificilmente permitiria criar um grande enredo, mas abre espaço para dar voz a questões que aparentemente eram fundamentais para o Abba. Tudo superficial no filme porque o importante é fazer rir em uma comédia esperta e rápida. Surpreendentemente bem dirigida também.

 

ALLONS-YYYYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para Mamma Mia! (2008)

  1. Acabei de ler a crítica do filme. Concordo com tudo menos sobre a atuação da Amanda Seyfried e o quão “boba” ela aparece ser assim como a personagem dela. Uma das cenas mais bonitas por sinal do longa é quando elas cantam Slipping Through My Fingers https://www.youtube.com/watch?v=LOD_bVAvz4I além disso a Amanda canta maravilhosamente bem. Gosto muito da atuação dela pq como você citou no post a personagem da Amanda “Sophie ” é realmente uma “adolescente/jovem mulher” tentando descobrir a si mesma antes de tudo. Tanto que você vê como ela termina no final do filme. Bom, eu amo. É um dos meus musicais favoritos assim como no longa. Para quem curte musicais e acompanha é uma ótima pedida:)


    • Vina disse:

      Poxa, eu sou forçado a discordar. A personagem realmente evolui durante o filme, mas não senti que a Amanda Seyfried a acompanhou. E no caso da música Slipping Through My Fingers, é, na minha opinião, quando ela está em um dos piores momentos dela no filme. Felizmente, a discordância é apenas sobre isso e nós dois gostamos do filme.

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