Deadpool (2016)

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Deadpool é um personagem adorado do universo das histórias em quadrinhos. Criado originalmente para ser uma alfinetada no conflito entre duas empresas concorrentes, ele cresceu além da piada original para se tornar algo a mais. Alguns anos atrás ele ganhou uma versão pobre como vilão em um filme do Wolverine. O ator do caso, Ryan Reynolds, é apaixonado pela versão original e se esforçou muito para que Deadpool ganhasse a versão live-action que merecia. O resultado é esta produção.

Wade Wilson (Ryan Reynolds) é um mercenário de bom coração, uma dose de sadismo e muito bom humor que descobre ter câncer. Por conta do histórico militar, recebe uma oportunidade de ser salvo por um grupo que descobriu um método de ativar genes mutantes em pessoas sem poderes. O objetivo real do grupo é criar, na descrição de um dos cientistas, soldados escravizados. O processo o deixa com toda a superfície do corpo cicatrizada, mas Wilson escapa antes de ser usado. Agora ele precisa reencontrar o inventor do método, Ajax (Ed Skrein), um mutante psicopata e sem sensibilidade no corpo para curar as cicatrizes e ser aceito pela namorada Vanessa (Morena Baccarin).

O filme do Deadpool foi feito para ser uma versão fidedigna ao material original. O nível de zombaria e anarquia do personagem é tão grande que ele sabe que é um personagem de histórias em quadrinhos e conversa com o leitor durante as histórias com piadas sobre masturbação, sexo, nudez, assassinato, Star Wars (o personagem é fã declarado da franquia) e todo o tipo de situação. Ele não se importa com o bom gosto ou até mesmo com a vida em geral. O que importa é a piada. Por conta disso, um filme do personagem adequado precisaria de uma classificação indicativa alta com direito a muitas mortes violentas, nudez, cenas de sexo e palavrões. Não à toa, Deadpool levou mais de seis anos para ser feito.

A espera, entretanto, valeu a pena. Logo na cena de abertura, onde os créditos iniciais normalmente aparecem, a tela é tomada por um efeito em computação gráfica de uma situação absurda de ação em que Deadpool enfrenta um grupo de inimigos em um carro. O momento está congelado, mas a câmera passeia pelo ambiente enquanto os títulos dão as caras. No entanto, nada é sagrado. Cada crédito é uma piada sem o nome real dos participantes. Os roteiristas são apresentados como “os verdadeiros heróis do filme” enquanto no lugar dos nomes do Ryan Reynolds aparece uma capa de uma revista na qual o ator foi chamado de o homem mais sexy do mundo. Isso tudo ao redor de uma cena do protagonista enquanto ele impede um homem de fugir ao segurá-lo pela cueca. O tom da brincadeira é apresentado imediatamente.

Motivo pra esconder o rosto

Cicatrizes escondidas pelo uniforme.

Mas os créditos talvez estejam certos. Os roteiristas Rhet Rheese e Paul Wernick, os mesmos do também anárquico Zombilândia, não tinham uma tarefa fácil. Escrever um texto sobre um personagem que sabe que está em um filme, que conhece o ator que o interpreta e zomba até dos outros filmes da franquia (para o bem ou para o mal, Deadpool ainda é parte do universo X-men) não é fácil. Ainda mais porque a piada precisa se sustentar pela duração de um longa-metragem, neste caso 107 minutos. Para isso, a dupla não faz com que a trama seja muito complexa. Há duas grandes cenas de ação, a espetacular abertura e o clímax no final e uma história rápida para conectar tudo.

Esta história, como origem de um personagem, requer certo nível de seriedade. Principalmente porque Wilson tem câncer. Para criar um romance para alguém tão zombeteiro, dão para ele um par romântico tão maluca quanto. Vanessa não é só uma mulher bela que se apaixona convenientemente pelo lado bom de um mercenário. Muito pelo contrário, ela é uma prostituta que busca inicialmente apenas sexo casual. O filme não tem puderes de mostrar a vida sexual dos dois com direito até a uma cena hilária de inversão (se não souber o que é, pesquise por própria conta e risco). Os dois combinam justamente por participarem de um mundo sujo e por lidarem com ele da mesma forma, com ironia.

Para os vilões ganharem o nível de ódio suficiente para alguém como o Deadpool, eles ganham um tom de seriedade ainda maior. Wilson é torturado enquanto faz piada com as caras deles até o limite da dor e a compreensão de que talvez perca a própria personalidade. Essa sequência sabiamente escala gradativamente da comédia que dita a produção para níveis de horror. A forma como Wilson é abandonado é terrível. O tipo de coisa que destrói uma pessoa. Tanto que ele fica maluco a ponto de conversar com a câmera e com o espectador através dela.

Zombaria adolescente

Impaciente com a adolescente que o ajuda.

A violência é visceral. Corpos são dilacerados e esmagados com riqueza de detalhes devido ao auxílio de uma computação gráfica impressionante. É impossível discernir o que é real do que é falso em cena. A cena de abertura mostra Deadpool no carro enquanto arremessa pessoas embaixo de rodas e faz piada sobre ter ou não esquecido o forno aceso em casa. O diretor estreante Tim Miller tem carreira em efeitos visuais, mas sabe como dirigir as cenas de ação. Quando precisa cortar entre os montes de mortes de Deadpool dentro de um ambiente como um carro, ainda mantém a montagem rápida, sem que o espectador fique confuso.

Nada disso funcionaria se não fosse o Ryan Reynolds no papel de Wilson. O ator sustenta tanto as partes sérias quanto as cômicas aparentemente sem dificuldades. Também ajuda o fato de que ele sabe improvisar comédia, o que gera muito do humor do filme e demonstra que o humor exagerado de Deadpool é resultado de uma vida de dor e sofrimento. Reynolds praticamente carrega o filme nas costas. A Morena Baccarin consegue manter o nível de anarquia do colega de elenco e ainda ser adorável. O vilão de Ed Skrein desperta ódio através do sadismo, mas não é necessariamente crédito do ator.

Deadpool é tão bom em equilibrar o humor descarado com a seriedade que o filme é uma ótima comédia. O roteiro minimalista apenas realça o tom de diversão ao não distrair da brincadeira com analogias ou complexidade. O que é ótimo. Realizar algo do tipo exige inteligência que muita gente por aí tem preguiça de demonstrar, mesmo em obras mais sérias.

P.S.: Tem uma cena pós-créditos.

P.S. 2: Veja nossa participação na crítica em vídeo do Portal Crítico.

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para Deadpool (2016)

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