De Onde Eu Te Vejo (2016)

janela indiscreta

O ditado popular evoca: “Até um relógio quebrado acerta duas vezes no dia”. Talvez dizer que a Globo acerta duas vezes a cada tantos ciclos seja um exagero. Principalmente quando se leva em conta que a marca utiliza os recursos de maior escala financeira no Brasil para financiar tantos outros estúdios a realizar obras mais elaboradas em termos técnicos e de conteúdo.

Talvez a verdadeira surpresa é que a qualidade seja encontrada em uma obra típica do baixo escalão com a logo: uma comédia romântica, com uma trama das mais absurdas. Fábio (Domingos Montagner) e Ana Lúcia (Denise Fraga) são casados há 20 anos e se separam. Para aproveitar que são proprietários do apartamento vazio no prédio do outro lado da rua, ele se muda para lá. Assim, ainda mantém alguma proximidade, o que ajuda por terem uma filha, e ficam distantes.

Obviamente, como manda o gênero, inúmeras situações cômicas baseadas em mal-entendidos bobos e atos feitos na raiva desmedida. Mas não é apenas porque algo é clichê que ele não funciona. Principalmente quando os tais mal-entendidos não escalam para o tosco e grande parte dos momentos gerados pelo roteiro são importantes, ou para a história, ou para as reflexões que são propostas.

Em De Onde Eu Te Vejo acontece algo raro: a trinca principal de construção narrativa é de qualidade. Tanto roteiro (Leonardo Moreira e Rafael Gomes), direção (Luiz Villaça) e interpretação estão em sintonia para contar esta história. Todos muito bem, mas todos com pequenos defeitos. Em grande parte, pelo que aparenta ser vício em outras mídias.

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Fábio procura pela esposa. Personagem e ator roubam a cena.

Na parte escrita, Moreira e Gomes parecem interessados em escrever uma peça de teatro. Como a trama se dá com diálogos gritados entre apartamentos, não seria difícil recriá-la em um palco. Também há uma estranha necessidade de colocar a personagem Ana Lúcia, claramente a protagonista do filme, para quebrar a quarta parede e conversar com o espectador. Um recurso comum para o cinema, mas na figura da Denise Fraga parece mais uma referência ao trabalho dela na TV, quando ela constantemente fazia isso. Como se não fosse o bastante, ela o faz duas vezes no começo do filme e fica por isso. Pela primeira meia hora a produção parece tentar entender qual o ritmo e a estética que vai usar. Em uma cena inspirada, mas que não dialoga com o resto do filme, os dois refazem o primeiro encontro para tentar reconstruir os sentimentos iniciais do relacionamento. Ocorre um misto das brigas atuais com a lembrança.

Depois, quando inicia o segundo ato, a produção adota uma estrutura linear com partes pontuais nas quais relembra dos flashbacks metalinguísticos. Em especial no núcleo narrativo do Fábio. Ele é apegado ao que tem e ao passado. Por isso protagoniza cenas belas como o momento no qual o personagem revisita o antigo apartamento e se confunde com uma pessoa muito mais nova. Ana Lúcia, por outro lado, é desapegada do material, o que a faz esquecer tudo o que tem, até mesmo o casamento de 20 anos. É quando entra outro problema do roteiro: por ela ser a razão para o término e ele ser quem é romântico e se esforça, ela se torna antipática e ele simpático demais.

O que leva às interpretações. Domingos Montagner e Denise Fraga estão tão bons nos papéis que estes fatores de empatia são potencializados. Fraga se entrega à pouca paciência e às neuroses da personagem, o que a torna ainda mais irritante que apenas a esposa que pediu a separação por achar que o universo dava sinais. Montagner parece sofrer com os esforços do marido em não desistir do amor que sempre adorou, mesmo com as incoerências da esposa. Sempre que ela entra em cena, o filme fica mais fraco porque o espectador se importa menos com os problemas dela. Com ele é sempre um prazer assistir.

ela

Ana Lúcia é mais à vontade com a ideia de separação. Desgasta rápido.

O resto do elenco fica quebrado. Entre veteranos com participações pontuais maravilhosas, como o Juca de Oliveira, com um lindo monólogo sobre amor perdido e a Laura Cardoso, com uma senhora que aprende o valor de evoluir com os prazeres da vida. Os mais novos, porém, são péssimos. Em especial Manoela Aliperti, que interpreta a filha do casal. Em parte porque as falas da personagem são horrorosas e forçadas porque ela é a jovem portadora de sabedoria. Mesmo com alegorias vazias sobre “instinto de sobrevivência”. Mas a atriz é muito fraca e em diversos momentos parece mais focada em quando levantar a sobrancelha enquanto diz as falas sem errar a pronunciação correta. Um pecado comum em atores jovens ou viciados na linguagem televisiva.

Luiz Villaça sabe demonstrar através dos enquadramentos como Fábio ainda está envolvido na relação e Ana Lúcia está mais distante. Em diálogos dos dois, coloca os closes de Montagner com Fraga próxima a ele na tomada. Nos closes dela, a personagem está sozinha. Também acerta ao usar trilha musical minimalista para escapar da armadilha na qual os filmes da Globo normalmente caem: de usar músicas de arquivos do estúdio de TV para preencher melodramaticamente todas as cenas. Um violão é o único instrumento que muda de tom para acompanhar as alegrias e tristezas de Ana Lúcia e Fábio. A iluminação é muito boa. Usa de imagens granuladas para realçar as horas noturnas e com frequência realça as reações de Fábio ao assistir os avanços da vida de Ana Lúcia sem ele.

Uma boa comédia romântica brasileira. Uma boa surpresa. Gostoso, divertido, retrata bem as reflexões. Mesmo com os problemas cercados do cinema do gênero no país. É um prazer ver a Globo acertar.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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