Rua Cloverfield 10 (10 Cloverfield Lane – 2016)

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J. J. Abrams já é comparado atualmente com o Steven Spielberg da década de 1980. Envolvimento em grandes produções de ficções-científicas, horror, efeitos especiais, sem jamais perder o foco nos objetivos narrativos. Assim como em 2008, ele conseguiu produzir um filme de monstros com baixo orçamento que se revelou uma pérola, agora ele retoma o nome que pode vir a se tornar sinônimo de uma franquia no nível de Além da Imaginação. É o segundo filme com o termo Cloverfield no título: Rua Cloverfield 10

Mas não se trata de uma continuação ou uma história paralela à destruição de Nova Iorque do anterior. Rua Cloverfield 10 diminui a escala para um cenário fechado dentro de um bunker. É onde Michelle (Mary Elizabeth Winstead) acorda acorrentada após um acidente de trânsito na estrada. O captor dela, Howard (John Goodman), diz que a levou para lá porque algum tipo de ataque aconteceu na superfície e é impossível sobreviver fora do abrigo.

É simples assim: Uma situação assustadora em um nível muito básico. Um homem intimidador e imponente em um local fechado e sem saídas. Ou será que realmente existe alguma coisa lá fora? Se existe, o que é pior: o possível psicótico ao lado ou o desconhecido no mundo exterior? Tudo para contar a história de uma mulher que busca se tornar mais valorosa como pessoa.

Literalmente. O filme é sobre isso, da primeira à última cena. Michelle tem medo e tenta escapar de todo tipo de confronto, mas ela gostaria de ser alguém que faz as escolhas difíceis pelo bem dos outros. Nas situações limites que o filme constrói, ela se encontra constantemente diante de decisões que são muito comuns a produções em universos tipicamente masculinos, como faroestes ou filmes de piratas. A personagem é uma heroína moderna com problemas que normalmente são explorados por brucutus do passado.

bem vindo

Mulher com conflitos “masculinos”. Sobre assumir consequências e medos.

É o primeiro acerto dos roteiristas Josh Campbell, Matthew Stuecken e Damien Chazelle. Assim como Michelle é uma garota com problemas normalmente de homens no cinema, nada no filme é o que parece. A trama passa por reviravoltas constantemente. Quase sempre inesperadas, mas todas importantes para que o filme chegue ao final e ao questionamento pessoal da personagem.

Por outro lado, o texto possui alguns defeitos. Seja pela forma como Howard muda de personalidade e tom sempre que é conveniente. Se há suspeita de maldade nele, ele se torna assustador. Se Michelle passa a aceitá-lo, o diálogo o torna comum. Por outro lado, ele é dono das melhores falas. O momento onde resume a perda da esposa e da filha com “As pessoas são criaturas estranhas” é de morrer de rir pela ironia de que ele provavelmente é a pessoa mais bizarra e assustadora da fita.

Goodman arrebenta no papel. Carinhoso e perturbador, ele faz um tipo incomodado com os modos dos outros e causa medo por parecer que vai explodir a qualquer instante apenas por uma coisa pequena. A primeira cena de janta do filme é assustadora exatamente porque ele fala pouco e apenas observa o jogo nos diálogos. Winstead faz Michelle muito bem, mas a personagem não possui muita personalidade para desenvolver e a interpretação da atriz se restringe ao ápice de um longo monólogo expositivo no qual resume o conflito principal. John Gallagher Jr. surpreende irreconhecível por baixo de uma longa barba fechada, mas com a mesma empatia padrão do ator, importantíssima para que o espectador se importe com o personagem dele mesmo que ele seja, de certa forma, cúmplice pelo que acontece com Michelle.

10 CLOVERFIELD LANE

John Gallagher Jr como Emmett. Pivô de uma reviravolta.

O diretor iniciante Dan Trachtenberg cria excelentes cenas de suspense ao alongar a tensão dos olhares ao máximo. Em certo ponto do filme, Howard chama o resto do elenco para uma conversa em um canto do abrigo. Com uma explicação rápida, os riscos se elevam para os protagonistas. Tudo feito com diálogo e interpretação. E é claro, com a aproximação dos rostos dos atores por parte de Trachtenberg, o que torna o medo e o suspense mais íntimos e claustrofóbicos. Realizar esse tipo de medo em um espaço tão limitado é comum, mas ainda é muito bem feito.

Outro que merece elogios é o compositor Bear McCreary. Com uma trilha que segue com um tema único de tensão, ele trabalha as relações com o aumento e a diminuição do ritmo. A música, porém, parece entoar uma nostalgia de algo errado do passado com a base em instrumentos de cordas lentos em uma mixagem acelerada.

O final do filme passa por algumas reviravoltas que escalam a grandiosidade e a ação muito rápido, de forma que não condiz com o que foi realizado até então. Parece que os realizadores correram para terminar a história quando o filme estava com uma duração boa. Fora isso, Rua Cloverfield 10 é um ótimo filme de suspense sobre os medos do que há lá fora e, pior ainda, do que pode haver dentro.

 

ALLONS-YYYYYYYYY…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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