O Escaravelho do Diabo (2016)

Um escaravelho numa caixa

Qualquer um com mais de 25 anos vai poder atestar: A coleção Vaga-Lume de livros infanto-juvenis foi fundamental para o início da vida como leitor. Dentre os 104 livros na marca (o último foi publicado em 2008), O Escaravelho do Diabo é um dos mais lembrados. Não à toa, é o primeiro da série a ganhar os cinemas. A previsão é que o próximo seja Mistério no Cinco Estrelas, primeiro de uma tetralogia.

Grande parte das obras envolvem algum tipo de investigação policial. No caso de O Escaravelho do Diabo, o pré-adolescente Alberto (Thiago Rosseti) descobre a pista principal para o assassinato do irmão mais velho: a entrega de escaravelhos para as vítimas. Começa um jogo de gato e rato com um assassino serial que mata apenas pessoas ruivas. O que é ruim para o jornalista Louzeiro (Bruce Gomlevsky) que o ajuda e para a namoradinha Raquel (Bruna Cavalieri), ambos ruivos. Alberto se junta com o delegado Pimentel (Marcos Caruso), afastado do cargo por uma doença degenerativa, para tentar impedir que o homicida continue solto.

O filme é uma tentativa de criar um drama policial voltado para crianças e adolescentes. O que não exige que ele seja bobo ou estúpido. Muito pelo contrário, Escaravelho do Diabo chega a ser surpreendente por conta de uma violência corajosa, com direito a algumas cenas sanguinolentas, até. Não existe ingenuidade de tentar criar em Alberto algum tipo de herói infantil que supera os adultos de maneira superficial. O garoto auxilia a polícia ao máximo, mas a investigação ainda é dos policiais.

É onde entra a inteligência por trás do personagem do delegado Pimentel. O investigador desenvolve a Síndrome de Lewy, semelhante ao Alzheimer, e por isso tem toda uma tragédia pessoal muito interessante. Inclusive que o leva a um comportamento dúbio. Quando descobre que pode ser afastado do cargo por conta da condição, ele é questionado sobre o que quer e o que é correto e não esconde que não se importa para o que é certo. Palmas para a ótima interpretação do Marcos Caruso, uma das poucas boas do filme, se não for a única.

O padre e o delegadoJonas Bloch com Marcos Caruso. As melhores interpretações do filme.

Ao mesmo tempo em que o conflito existencial do policial é envolvente e faz com que ele roube o filme para si, é a desculpa ideal para que o menino se torne útil para a trama. Ao invés de o roteiro precisar emburrecer os adultos para que as crianças tenham participação, Alberto sabe não tem chance no meio deles. Pimentel é um dos mais inteligentes, mas está com uma limitação que requer a visão do menor.

O mistério do assassino serial é envolvente. O modus operandi dele não só é diferente e criativo, como funciona para sustentar o suspense. Muito ao estilo do Hitchcock, o espectador é informado antes dos personagens sobre quem vai morrer apenas pela presença dos insetos que dão nome ao filme. O mérito não vai para o diretor Carlo Milani, mas para a dupla de roteiristas Melanie Dimantas e Ronaldo Santos, que adaptam o livro homônimo da Lúcia Machado de Almeida. Saber quem é o próximo alvo dá receio ao espectador para saber se os personagens vão sobreviver ao ataque vindouro.

Milani mais atrapalha estes efeitos que ajuda. A mania de demorar demais nos ápices das cenas quebra a tensão. Numa das mortes, quando já se sabe como o vilão vai agir, o diretor deixa o enquadramento demorar demais na arma sem que nada possa ser feito. O espectador apenas observa sem ver resultados na tela. Isso é um resquício claro da carreira prévia dele, que se constitui apenas de televisivos. Com estética específica da Globo, parceira da produção.

O assassino observa uma vítima na chuvaO assassino espreita a próxima ruiva. Bom roteiro salva o suspense.

O resultado é o comum de filmes com a marca: trilhas brancas e pobres que o canal de TV disponibiliza e que precisam comentar cada cena e acabar ainda mais com a tensão ou colocar um rock fraco para dar uma falsa impressão de aventura aos atos bobos de Alberto; enquadramentos em que a câmera se move lentamente entre os diálogos, mas não significam nada; falas exageradamente enunciadas; e atores contratados pelo estúdio emprestados para o filme.

O valor de produção cai muito por isso. Em especial pelos dois últimos. Quanto mais jovens e novatos os atores, piores as interpretações. A partir de certo ponto, Thiago Rosseti nem parece mais interessado em tentar atuar. Só se salvam mesmo o Jonas Bloch e o Marcos Caruso, ambos veteranos no estilo de performance da Globo. Talvez o único motivo pelo qual conseguem dar credibilidade para falas como “Pega leve com o garoto. Não está fácil para ele”, dita com todas as sílabas, como ninguém faz na vida real. Nem o ótimo Lourenço Mutarelli consegue superar os exageros do estilo televisivo.

Outros defeitos da TV se encontram na edição de som e na direção de arte preguiçosas. Em certas cenas, o efeito para fazer com que certas falas em outro cômodos faz parecer que há uma reverberação estranha na sala de cinema. Apesar da boa sacada de colocar materiais vermelhos em cenas chave para indicar a presença do assassino, a construção dos personagens é fraca. A sala do delegado Pimentel é tomada de objetos decorativos como pêndulos de Newton, que parecem comentar mais sobre a doença dele que sobre quem ele é como pessoa. A personalidade dele é definida pela deficiência, de acordo com a arte.

Em termos técnicos de filmagem e de valor de produção, O Escaravelho do Diabo é de uma pobreza entristecedora. A trama e a forma como é tratada pelo roteiro são tão bons, porém, que o filme não deixa de ser bom. Dá vontade de reencontrar não apenas o livro original para ler, como outras boas lembranças da coleção Vaga-Lume. Fica o desejo de que O Mistério do Cinco Estrelas melhore e outras obras também ganhem os cinemas.

 

GERÔNIMOOOOOOOOOO…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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