O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice – 2014)

Tobey Maguire encara o jogo de xadrez

Bobby Fischer (Tobey Maguire) é um personagem famoso na história do xadrez. Considerado um dos maiores enxadristas da história, senão o melhor, também foi o único campeão mundial dos Estados Unidos durante o período da Guerra Fria, no qual o jogo de reis foi dominado pelos soviéticos. Também por isso, existe uma crítica à produção de filmes sobre o personagem sem foco para os envolvidos do berço socialista.

Fischer tinha, nas palavras de outros enxadristas, todos os estereótipos positivos e negativos do grupo. Paranoico, convencido e com sérios problemas mentais. Decidido a derrotar a União Soviética e se tornar campeão do mundo no xadrez, ele passou por diversos problemas burocráticos e pessoais para conseguir uma partida contra o melhor do mundo, Boris Spassky (Liev Schreiber).

Obviamente, O Dono do Jogo é uma cinebiografia. De um estilo bastante específico, o que trata de uma pessoa difícil com problemas de personalidade complexos demais talvez até para serem explicados. Os melhores do subgênero normalmente não tentam desvendar, mas encontrar diversas facetas que, com frequência se contradizem.

Tobey Maguire grita

A representação de um homem perturbado.

Equilibrar essas incoerências constantes que as pessoas apresentam diariamente exige um trabalho pesado para realizadores. Entra em cena o bom roteirista Steven Knight, que acertou esse lado em Pegando Fogo. Para uma história real, porém, cai em duas armadilhas comuns: Tentar abordar lados da história de Fischer que não são relevantes para a trama central e criar um esboço superficial das razões para o homem ter criado os distúrbios que o atormentaram. Não é porque o filme se trata da espiral de paranoia dele durante a partida com Spassky que é preciso tentar mostrar as origens desse desespero com a mãe judia que odeia comunistas. Todo o passado de Fischer é descartável, mas infelizmente toma uma parte significativa do filme.

Ao mesmo tempo, o foco exagerado em Fischer perde a oportunidade de fazer um filme mais equilibrado sobre uma disputa pontual. Em uma cena rápida, as paranoias de Spassky são abordadas. Como a própria produção deixa claro, a reflexão constante acerca de milhares de possibilidades de movimentos é algo que tem um custo para o cérebro de quem é enxadrista. O quadro de Fischer não é único. Com algo equilibrado no duelo de personalidades problemáticas dos dois homens, O Dono do Jogo seria muito mais interessante. Infelizmente, o foco total no protagonista cria problemas para o ritmo da obra.

Se a estrutura sofre com o texto de Knight, o diretor Edward Zwick trabalha no sentido contrário. Porque mesmo que existam cenas em excesso e desnecessárias para a trama, ele encontra um ritmo fluído no trajeto de Fischer. Conhecido por muito tempo como diretor de aluguel, Zwick já se provou um bom realizador mesmo em projetos despretensiosos. Raras vezes ele tem a oportunidade de trabalhar com uma produção de velocidade mais lenta. O Dono do Jogo é a oportunidade para que ele trabalhe a expressividade ao máximo.

Maguire e Shriber duelam

Spassky e Fischer se confrontam. Batalha intelectual.

Junto com o extraordinário diretor de fotografia Bradford Young, Zwick filma os momentos de paranoia de Fischer com grande profundidade para mostrar que o personagem se concentrava tanto em detalhes que perdia a noção do que ocorria ao redor. A luz transita entre o quente do laranja e o verde frio. É interessante notar como os personagens, dentro de ambientes fechados e com cores artificiais se encontram no laranja confortável, apesar de claustrofóbicos. Eles chegam aos limiares de janelas e portas para olhar para fora e o verde toma conta de metade dos corpos e rostos. Espiam a abertura e possível liberdade, mas o universo do xadrez é confortável, mesmo que os oprima.

James Newton Howard faz mais uma das trilhas barrocas dele. A habilidade comum do compositor de criar desconforto ou emoção com uma orquestra classicista é impressionante. Faz do momento de trunfo algo maior do que o filmado e quando Bobby aparenta desconforto, revela em toques minimalistas de flautas como ele sai do momento e não se adequa.

Tobey Maguire está ótimo como Fischer, mas o personagem não dá muito para ele expressar. Entre uma indiferença constante com o que acontece ao redor, o medo do que não está lá e a alegria de um narcisista, Maguire não tem um grande número de expressões e sentimentos para revelar. Liev Schreiber, sempre ele, apresenta um carisma natural que chama a atenção do espectador mesmo quando o foco do enquadramento é outra pessoa. No único momento em que Spassky ganha alguma profundidade, o ator brilha. De resto, poucas pessoas chamam a atenção, como o Peter Sarsgaard, que dá ao apoio de Fischer, o padre enxadrista Bill Lombardy uma intensidade adequada ao misto de admiração e ódio que sente por Fischer.

O Dono do Jogo é um filme que facilmente seria confundível com uma produção fabricada para concorrer a prêmios, mas o valor de produção de Zwick e outros talentos como Bradford Young e Newton Howard enriquecem e o elevam ao nível de uma pérola que merece ser descoberta.

 

GERÔNIMOOOOOOO…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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