O Décimo Homem (El Rey del Once – 2016)

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O cinema argentino tem na produção uma habilidade única de misturar temas urbanos e complexos com tramas sobre relações humanas. Talvez o verdadeiro talento dos vizinhos seja a compreensão de que os problemas de conexão entre as pessoas sejam os temas mais complexos que se pode abordar.

O Décimo Homem busca justamente isso, equilibrar as dificuldades entre pais e filhos com discussões religiosas sobre tradição. Ariel (Alan Sabbagh) construiu uma vida saudável em Nova Iorque, mas precisa voltar para o bairro onde cresceu em Buenos Aires. Há anos, abandonou a religião da família, o judaísmo, e se afastou do pai, presença importantíssima na comunidade. Agora, interessado em retomar o contato paterno, precisa ajudar nas tarefas para se reencontrar na rua onze, tradicionalmente ocupada por famílias judias.

Forçado a viver como adulto as tarefas que nunca compreendeu do pai sempre ausente, Ariel é colocado em choque com duas compreensões: as razões para abrir mão da religiosidade não são tão válidas quanto ele julgava e o pai dele sempre fazia o certo ao abandoná-lo quando criança.

chegando na rua com muitas malas

Chegada desconfortável.

A temática não é tão distante do soberbo Nebraska, no qual um homem descobre, em meio às idiossincrasias do pai bêbado um homem valioso. Aqui, ao contrário, Ariel encontra no distanciamento da infância um novo conceito de família que precisava tanto ou mais do pai dele que ele. A realidade daquela pequena comunidade religiosa é retratada com uma direção de arte que enche os cenários de tranqueiras, músicas cantadas em línguas antigas e cores berrantes. Beiraria o kitch, se não fosse a realidade relacionada com o judaísmo.

A câmera do diretor experiente Daniel Burman (também roteirista) treme enquanto tenta seguir Ariel pelas ruas e ambientes claustrofóbicos daquelas pessoas. A sensação de bagunça daquele lugar passa para a tela. Burman é tão bom em criar essa sensação que, em certa cena, ocorre um roubo de celular enquanto o aparelho é usado. O espectador, junto com Ariel, sequer percebe que o telefone móvel sumiu do lado do rosto dele até que ele mesmo note.

A representatividade vai além disso. Ariel chega em Buenos Aires como um homem que veio dos Estados Unidos com um estilo de vida muito diferente. Aos poucos as roupas de tons sóbrios e elegantes assumem as cores berrantes e cortes não tão corretos ao corpo dele que combinam com o resto da comunidade.

atras da amada

A descoberta de novas pessoas.

As boas interpretações são um padrão nos filmes da Argentina. Alan Sabbagh carrega o desconforto constante de Ariel com leves e sutis momentos nos quais ele se admira com as singelezas dos esforços daquelas pessoas que lutam por duas coisas: a sobrevida necessária das condições que o judaísmo força neles e a necessidade de exercer a fé. Ele conduz o espectador em se identificar com a transformação dele.

Melhor ainda é perceber ao término que os dois nomes do filme, o original em espanhol, El Rey del Once (O Rei do Onze, em tradução livre) e o brasileiro O Décimo Homem são muito significativos para a história. Descobrir isso apenas enriquece mais o que é um ótimo e enxuto filme.

 

FANTASTIC…

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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