Julieta (2016) – Perdas, Culpa e Abandono

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Apesar das peculiares cores berrantes, é o tom sóbrio e seco que predomina no novo drama de Pedro Almodóvar. No acender das luzes, depois da projeção de Julieta, vigésimo filme do cineasta espanhol, o espectador sente a degeneração psicológica imposta pelas lacunas existenciais acumuladas ao longo de uma trajetória sofrida e marcada por perdas.

Almodóvar entrega a história da personagem título em dois momentos da vida: na juventude e na meia idade. Destaque para o bom trabalho das atrizes Adriana Ugarte e Emma Suárez. O processo de construir a mesma mulher em momentos cronológicos diferentes é desafiador e exigiu uma profunda imersão emocional na alma da personagem.

Após um encontro acidental com uma amiga nas ruas de Madri, Julieta volta a perseguir um passado que estava soterrado: a busca por Antía, sua única filha, com quem não tem contato há mais de 12 anos.

Emma Suaréz escreve.jpg

Emma Suárez como Julieta.

Menos verborrágica que outras protagonistas comumente associadas ao diretor, sua odisseia percorre o território do luto, da culpa e do abandono. Julieta é vulnerável. Tornou-se calada e circunspecta ao longo dos anos. São muitas palavras não ditas e emoções reprimidas. Da relação caudalosa com o pescador Xoan (Daniel Grao) à crise que se instaurou entre mãe e filha anos mais tarde. De comportamentos distintos, há mistérios nas fases de transformação das personagens após o trágico episódio que conduz o longa-metragem. Os laços maternais ora frouxos ora apertados instigam a reflexão sobre as relações humanas.

Os espaços geográficos e temporais são partes substanciais do filme. Lugares, encontros e desencontros, passado e presente. Cada situação tem algo a dizer. Até os objetos balbuciam. Os bolos de aniversário nunca tiveram um gosto tão amargo.

O roteiro e direção demonstram o domínio do que têm a dizer, tanto pela estética quanto pela narrativa. Almodóvar incorpora o mistério à sua habilidade de permear o universo feminino com maestria.

Adriana Ugarte deitada e pensativa

Adriana Ugarte como Julieta.

São muitas informações e referências. As cenas dentro do trem fazem lembrar de Pacto Sinistro (1951) do mestre do suspense Alfred Hitchcock. Outro destaque vai para a atuação de Rossy de Palma, uma empregada enxerida e bem sinistra.

A ambientação e o figurino requintados e elegantes são outro acerto. A Julieta dos anos 1980 com características típicas da época – especialmente cabelo e roupas – se transfigura em uma mulher austera e desesperançosa nos dias atuais.

A trama foi baseada nos contos do livro “Fugitiva” da escritora canadense Alice Munro, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2013. Julieta é um filme distintivo na carreira de Almodóvar. O cineasta esquiva-se das excentricidades usuais e de personagens tresloucados como Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), Ata-Me (1990) e Kika (1993) e constrói um drama mais convencional, mas que resultou em um primoroso trabalho.

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