Procurando Dory (Finding Dory – 2016)

Dory perdida

Treze anos atrás, a palavra Pixar era a melhor incógnita que havia no mundo do cinema. Com um contrato de fazer filmes com a Disney, a produtora era invicta quando se tratava de produções de sucesso e qualidade. Procurando Nemo foi uma das primeiras vezes que pessoas choraram ao redor do mundo com a história de um pai em busca do filho perdido. Agora, chegou a hora de voltar ao universo dos peixes com uma nova perspectiva.

Um ano após os eventos do primeiro filme, Dory (Ellen DeGeneres) lembra dos pais e percebe que eles talvez ainda estejam à procura dela. Marlin (Albert Brooks) e Nemo (Hayden Rolence) vão com ela para um centro de cuidados para animais marinhos na Califórnia, onde os progenitores provavelmente estão.

Dory sofre, como já foi estabelecido no outro filme, de perda de memória recente. A condição dificulta exponencialmente a busca dela e também é um obstáculo para o relacionamento com os pais. Principalmente para um casal cuja filha pode se perder e esquecer deles. A única diferença da jornada de Dory para a de Marlin é que desta vez a história é contada do ponto de vista da criança perdida, e não do pai temeroso.

O problema de memória da peixinha é uma excelente desculpa para que se conte uma história prévia. Dory consegue lembrar melhor quando acompanhada de pessoas com quem desenvolve relações afetivas. Depois de tanto tempo com Marlin e Nemo, elas chegam à infância. E quanto mais ela se aproxima do encontro com os pais, mais flashbacks contextualizam a relação dela com eles e o espectador compreende como eles se perderam uns dos outros.

tubarãobaleia

A tubarão-baleia Destiny é um dos destaques do elenco novo.

O que gera, de imediato, um dos grandes problemas com a Dory como protagonista. Ela é adorável, divertida e alheia ao que acontece ao redor, mas justamente por isso ela é dona de certa sabedoria. Ela é a causa para as mudanças nas pessoas ao redor e ninguém é capaz de causar mudanças nela. Para resolver essa complicação de roteiro, os realizadores do filme encontraram uma excelente solução: o polvo Hank (Ed O’Neill).

Hank, assim como Dory e Nemo, também tem uma deficiência. Ele perdeu um dos braços em um acidente. Ao contrário da protagonista, ele é incapaz de esquecer a mágoa e a dor pelo acontecido. Tanto que o objetivo dele é simples, ser levado para um tanque onde ficará sozinho. Ele quer o oposto dela: o esquecimento.

O personagem é muito interessante sob diversas perspectivas. Ele tem deficiência, mas é um dos seres mais capazes da produção. Consegue respirar dentro e fora d’água, muda a cor da pele, se mistura com o ambiente e tem uma movimentação excelente em qualquer ambiente. Ele tem muita raiva contida e com frequência balança e toca nos outros com impaciência. Em épocas passadas, ele seria facilmente um vilão de desenho da Disney. Solitário, ranzinza e nervoso. Aqui ele tem camadas. Os defeitos não o definem completamente, mesmo que sejam parte fundamental de quem ele é.

Dory com Hank

Hank, verdadeiro protagonista do filme.

E a relação dele com Dory é o verdadeiro brilho da produção. Ela busca as pessoas do passado, ele tenta esquecê-las. Como um estereótipo de coadjuvante que muda as pessoas, ela vai transformá-lo assim como transformou Marlin no filme anterior.

Infelizmente, Hank não é o personagem principal. E mesmo quando Dory alcança o ápice da busca, não parece que ela se transformou. O que é apenas um dos problemas da continuação. Andrew Stanton retorna como diretor e roteirista com Angus MacLane, mas parece que a dupla parece tão interessada em começar o filme que não se dá ao trabalho de desenvolver as bases. Em grande parte porque elas já foram relativamente apresentadas no filme anterior. O outro motivo é que a história principal se passa no centro de vida marítima na Califórnia. A jornada até lá é estranhamente acelerada.

Ainda funciona bem como um belo filme da Pixar. Ainda mais quando se percebe a qualidade da estrutura do roteiro (bem definido em primeiro, segundo e terceiro ato) e do detalhamento técnico. Poucas vezes o mar pareceu tão real. O mesmo vale para as texturas de pele das criaturas, para a movimentação dos personagens. Parece que se vê algo real e não um monte de zeros e uns. E a história tem uma singeleza em relação a como os pais de Dory lidam com ela, que é impossível não se emocionar com o trio.

O resultado final é uma bela continuação, mas que soa desnecessária e, acima de tudo, feita com pressa. Mas falar de filmes da Pixar é como falar de grandes diretores: os piores trabalhos deles são melhores que a maioria do que sai nos cinemas normalmente.

P.S.: O curta Piper: Descobrindo o Mundo, que é exibido antes de Procurando Dory é mais uma daquelas pérolas surpreendentes que, em alguns aspectos, é melhor do que o filme que acompanha.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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