Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings – 2016)

Kubo, macaca e besouro em posições heróicas.jpg

O estúdio que realizou este Kubo e as Cordas Mágicas merece destaque por duas razões específicas. Primeiro, é um dos poucos que ainda se arriscam a fazer animação por meio da técnica stop-motion. E segundo, ainda faz filmes infantis que tratam de temas adultos e que não tratam crianças como idiotas. Se é ruim que produções expliquem como se os espectadores fossem imbecis, com crianças é ainda pior, porque demonstra que os realizadores não entendem verdadeiramente o público alvo.

Laika é o nome da produtora e neste quarto filme deles, a trama trata sobre a compreensão de finitude e o medo do sofrimento. Não é algo fácil de se assimilar, ainda mais para crianças, mas a representação do garoto Kubo (voz de Art Parkinson) é crível e plausível. Em um universo fantástico, quando era bebê, teve o olho esquerdo roubado e o pai assassinado pelo avô, a Lua (voz de Ralph Fiennes). Cresceu em uma caverna até ser descoberto pelas tias (voz de Rooney Mara), que matam a mãe dele. Agora ele tem que encontrar três tesouros do pai para conseguir sobreviver ao parente maligno que quer o outro olho. Como companhia, ele recebe a ajuda de uma macaca (voz de Charlize Theron) e de um besouro (voz de Matthew McConaughey) mágicos.

É possível identificar elementos óbvios de culturas orientais. O Japão, em especial, ganha destaque. Ainda há referências chinesas e de outras coisas exóticas, mas o foco é a jornada de um garoto órfão em busca da herança do pai e da mãe. O contexto fantástico garante visuais extraordinários e conceitos com analogias interessantes. Principalmente se os realizadores fizerem bem o trabalho deles, de contar uma história.

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Kubo com a macaca e o besouro. Temas familiares e sérios que não subestimam as crianças.

Aqui, eles existem nas figuras dos roteiristas Marc Haimes e Chris Butler e do diretor Travis Knight. Os três têm pouca experiência nos currículos, mas é fácil ver de onde tiram inspiração para o filme. A trama, fortemente embasada em aceitação de relações familiares, tem características em comum com a primeira produção do estúdio, Coraline. Outra coisa em comum é o uso de olhos como metáfora para humanidade.

O roteiro, em termos técnicos, não tem nada de novo. O estilo de cinco atos comum é a regra. O que dá sensação de novidade é como ele é preenchido. Além de ser coerente nos detalhes e de explicá-los bem, ele é corajoso em ser brutal e honesto. No começo, uma bela e divertida cena de apresentação de origamis de Kubo mostra o poder mágico do garoto e várias regras de como o universo fantástico funciona. E isso é muito importante. Mesmo que o mundo seja de fantasia, ele tem regras de funcionamento racionais dentro de si. Aqui, além de serem claras, bem apresentadas e fazerem sentido, elas são respeitadas até o final da projeção.

Outro acerto do texto é não explicar demais. O que é falado é apenas o suficiente para que a história básica do filme seja compreendida. A riqueza se encontra nos detalhes. Por exemplo, a mãe de Kubo fala que é filha da Lua e tem irmãs que aparecem de noite. No começo do filme, ela fica catatônica de dia. Em nenhum momento é dito que ela fica catatônica quando não está no elemento natural dela, a noite.

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As tias do céu noturno. Detalhes que não precisam ser explicados.

Esse nível de detalhamento está em diversas camadas. Na direção de arte, que revela aos poucos que o tema do pai de Kubo é o sol e o da mãe é a lua. Os dois possuem forças na violência e nas armas brancas. A força de Kubo é única dele. De certa forma, a jornada é dele para descobrir a herança dos pais e dela, descobrir a própria individualidade. Mas o filme em nenhum momento explicita isso. É profundo, rico, inteligente, mas não é óbvio e trata as crianças como idiotas.

A parte técnica da animação é um primor. O Laika chegou a um nível de perfeição no qual é impossível perceber que os personagens e a ação são bonecos fotografados quadro a quadro. O stop-motion gera limitações de profundidade e compreensão de espaço. Mas o primor é tão grande no uso de efeitos digitais sobre as fotografias que seria fácil pensar que o filme é animação em computação gráfica.

A mensagem principal é forte, não trata as crianças como idiotas, não tem medo de tratar de temas que dão medo até em adultos. A reflexão é importante para todos. É preciso aceitar fins e sofrimentos, e não fugir deles.

 

P.S.: Além de todas as qualidades técnicas e de história, o filme possui uma versão linda da música While My Guitar Gently Weeps cantada pela Regina Spektor. Vale a pena ficar até o fim dos créditos para conferir.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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