Doutor Estranho (Doctor Strange – 2016)

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Doutor Estranho chega aos cinemas como o 14º filme do chamado Universo Cinemático Marvel (a sigla MCU representa Marvel Cinematic Universe). Entre altos e baixos, a Marvel como estúdio de cinema tem agradado genericamente aos fãs e à crítica. Este Doutor Estranho marca mais uma aposta da marca de heróis, o elemento do misticismo.

A proposta soa ainda mais interessante quando o protagonista começa como homem da ciência. O neurocirurgião doutor Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) vive da fama e do sucesso conseguidos graças ao talento com a medicina. Rico e narcisista, ele sofre um acidente que danifica os nervos da mão e o impede de se manter no trabalho. Desesperado por uma cura, viaja para o oriente e encontra na Anciã (Tilda Swinton) os caminhos do místico e dos múltiplos universos.

Falar de proposta em mais um “filme de origem” de super-herói é quase um exercício de futilidade. Como todas histórias são de homens comuns com poderes extraordinários que enfrentam alguma representação de um mal, elas tendem a se parecer tanto em estrutura quanto em características específicas.

Nesse sentido, inúmeros exemplos podem ser dados de produções que se encaixam na fórmula. Desde os outros filmes da Marvel, como Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Homem Formiga, passando por concorrentes, como Homem de Aço, Homem-Aranha e até por coisas extremamente diferentes, como Kung-Fu Panda. A fórmula por si só não é sinônimo de falta de qualidade. O problema é como ela é usada.

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O vilão de Mads Mikkelsen. Fórmula revisitada.

É onde entra a primeira grande qualidade de Doutor Estranho. O excelente roteiro de Jon Spaiths, Scott Derrickson (também o diretor do filme) e C. Robert Cargill não tem interesse em reinventar a roda. Muito pelo contrário, a intenção é preencher a estrutura padronizada da Jornada do Herói com um bom conteúdo. E o fazem com uso de muita habilidade narrativa.

A começar, Doutor Estranho é um filme expositivo. Normalmente o adjetivo é usado de forma negativa, mas aqui é bom. Por exemplo, para apresentar a relação de Strange com outra médica, a doutora Christine Palmer (Rachel McAdams), os dois têm um diálogo no qual ele tenta reiniciar o relacionamento. Pronto, com uma ação simples, um elemento do passado do enredo é apresentado sem que o espectador seja tratado como um idiota e os personagens precisem explicar uns aos outros algo que ambos já sabem.

Outro elemento bem utilizado é a jornada de auto descoberta de Strange. Ele tem um ciclo fechado dentro de um único filme. Todo o conflito dele é resolvido do começo ao fim da produção e nada desvia atenção dessa construção, nem mesmo os confrontos com os vilões e outras tramas paralelas. Tudo é embasado no aprendizado de Strange sobre humildade e as razões pelas quais ele é tão narcisista.

Surge outra qualidade. O carisma do protagonista se sustenta em uma profundidade lógica: por ter medo de falhar com as pessoas, ele manipula as situações para que tudo seja sobre ele. O maior defeito do personagem é embasado em características relacionadas ao crescimento que ocorre durante o filme.

Ajuda muito ter um intérprete do calibre de Cumberbatch para representar todas essas questões. Mesmo nos momentos de maior egocentrismo do herói, o ator consegue demonstrar uma preocupação com os outros. Seja em não magoar a ex-namorada enquanto tenta inflar o próprio ego, seja em um receio de errar em alguma operação e ter a responsabilidade de uma morte nos ombros.

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Chiwetel Ejiofor como Mordo. Levanta excelente discussão sobre moralidade.

O elenco de apoio entrega atuações do mesmo nível. Tilda Swinton faz uma anciã com jovialidade, mas com uma austeridade de alguém que vê nos erros dos outros algo como um adulto que nota uma criança que precisa aprender com o tempo lições básicas. Chiwetel Ejiofor é um grande intérprete de papéis que dão valor a integridade moral. Nada melhor que ele para criar Mordo, um mago que segue as regras e as leis à risca.

Benedict Wong e Mads Mikkelsen não têm personagens com muito para trabalharem, mas ambos os interpretam bem. Já a Rachel McAdams não é uma mocinha em perigo e também é peça fundamental para a discussão do conflito de Strange. Isso sem ser necessariamente a mulher que ficará com ele no fim. Por outro lado, parece ser lugar comum ver a atriz com personagens de mulheres abandonadas.

Derrickson faz um bom trabalho de direção para construir o universo fantástico do Doutor Estranho. Nos planos em que a computação gráfica é mais requisitada, ele coloca a câmera frequentemente em ângulos baixos e com leve tremida, como se uma pessoa estivesse na cena com o equipamento no ombro. Cria uma sensação maior de realidade. Os grandes efeitos digitais auxiliam. Também é bom ter uma direção de arte que explora o conceito de múltiplos universos para construir deturpações de realidades criativas. Cada dimensão paralela apresenta conceitos curiosos relacionados tanto com reinvenções de leis da física quanto com os visuais, que jogam cores e formas em um amontoado psicodélico.

Um filme de origem sem originalidade, mas que acerta ao repetir características e elementos de outros com qualidade. Há espaço para discutir a complexidade do protagonista; a ação e o humor divertem sem perder o foco da história contada; e os defeitos são poucos e não comprometem, como a trilha fraca de Michael Giacchino ou o mal uso de grandes atores.

 

P.S.: Tem duas cenas nos créditos. Uma no meio e outra no final.

Sobre Vina

Publicitário frustrado, editor, cinegrafista, assistente e sonhador. Cinema é algo que não se entende completamente. Sempre se estuda.
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2 respostas para Doutor Estranho (Doctor Strange – 2016)

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